A ameaça de Bolsonaro

Num discurso que gravou em vídeo e foi transmitido aos seus adeptos na avenida Paulista, em São Paulo, reunidos em manifestação no dia 21, Jair Bolsonaro antecipou como poderá ser a sua relação com a imprensa:

“Sem mentiras, sem fake news, sem Folha de São Paulo [o correto é Folha de S. Paulo]. Nós ganharemos esta guerra. Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de São Paulo é o maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre, parabéns; imprensa vendida, meus pêsames”.

É um ideário autoritário, ditatorial, que ameaça a liberdade de expressão, de pensamento e de imprensa – e a própria democracia, desprovida de oxigênio sem a liberdade.

Se a Folha de S. Paulo publica mentiras sobre o candidato do PSL, a reação que lhe cabe, como cidadão e como detentor do cargo de deputado federal, é desmentir as falsas informações, exercendo o direito de resposta. Se a sua resposta não for publicada ou for publicada apenas parcialmente, comprometendo a sua integridade, ele poderá recorrer à justiça para obrigar o veículo a reproduzi-la por inteiro e a receber as sanções devidas.

É dessa prática, através da checagem constante do que a imprensa divulga e da sua capacidade de reconhecer seus erros e corrigi-los publicamente que se pode medir o seu grau de responsabilidade social. Não através de um censor institucional, qualquer que seja o poder que ele tem e o cargo que exerce.

O público de cada veículo de comunicação é o único árbitro legítimo do valor da imprensa. Se ela falha no seu compromisso de bem informar ou se abusa do próprio poder, então recorra-se à justiça para responsabilizá-la e puni-la na forma da lei.

Se eleito presidente da república e quiser colocar em prática o que disse, Bolsonaro elevará o grau de periculosidade que já representa para a democracia. Como todos os déspotas e os falsos democratas, Bolsonaro quer usar a verba publicitária oficial como instrumento de pressão e coação para comprar, com dinheiro público, adesão ao seu governo.

Esta tem sido a prática no Brasil. Logo, a mudança que ele propõe encarnar é uma farsa. Não me lembro de nenhum candidato a presidente da república tão claro e decidido a praticar esse tipo de chantagem. Se ele tem essa disposição totalitária quando ainda é candidato, o que não fará como presidente? Talvez abuse desse poder mais do que qualquer antecessor.

Depois da ameaça do filho ao Supremo Tribunal Federal, a ameaça do pai à imprensa retoca um cenário de chumbo (simbolicamente e literalmente) para o Brasil.

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Para civilizar a política

À medida que se aproxima o dia da votação, as máscaras dos candidatos a cargos eletivos vai se desfazendo. Em sentido inverso, mas coerente, cresce a parcela de duração dos programas obrigatórios avalizados pela justiça eleitoral dedicada a ofensas e ataques pessoais. O objetivo deixa de ser o oferecimento à sociedade de programas de ação do poder público em benefício do interesse de todos. O que interessa, principalmente quando a disputa se polariza tensamente, é agredir o adversário e lhe impor a derrota a qualquer custo. Inclusive ao custo de desrespeitar o público com linguagem de briga de rua entre moleques e virulência cada vez maior. O saldo, para quem raciocina: os políticos só tem razão quando trocam acusações entre si. Quando as máscaras caem. Não quando se defendem.

É desolador acompanhar os programas pela televisão. No que sobra de tempo, os candidatos apresentam projetos, programas, metas e intenções fantasiosos, desligados da realidade, descomprometidos com a origem do dinheiro para financiá-lo e a repercussão de despesas (e mesmo investimentos) sobre o caixa do tesouro num país no qual a dívida bruta dos governos se aproxima do tamanho do Produto Interno Bruto, da riqueza total produzida por uma nação que tem a 5ª maior população do mundo, distribuída pela 5ª maior extensão territorial do planeta (e que não conseguiu ir além da 8ª maior grandeza econômica, sem falar nos terríveis indicadores sociais, que derrubam o país para o fim da fila nos rankings mundiais e consomem sua energia criadora e produtiva).

Na rinha local, a campanha de Helder Barbalho gasta tempo para associar o adversário ao vil traficante de drogas conhecido por Gordo do Aurá e a suspeitas de ilicitudes que contrastam com a alegada condição de ficha limpa de Márcio Miranda. Já o candidato do DEM, depois de esquecer que pretende corrigir erros do governo que lhe deu existência eleitoral no Estado, bate na tecla da corrupção dos Barbalho, o que nem o eleitor neófito ignora – e mesmo assim lhe deu uma folgada vantagem no 1º turno. Essa escolha equivale à condenação da gestão do político que por mais vezes ocupou o governo do Pará, o tucano Simão Jatene. O “rouba mas faz” pode vencer a omissão de Jatene, simbolizada pela sua atividade de pescador. No fim, tanto Márcio quanto Helder são fichas limpas – ou o filho do senador Jader Barbalho não estaria disputando a eleição deste ano. E candidatos a ficha suja, tão logo os processos judiciais se encerrem.

Nenhuma palavra dos candidatos sobre o modelo de extrativismo mineral,  que substituiu – com gravidade maior – o extrativismo vegetal, sepultado pelo avanço das frentes econômicas nacionais e internacionais. Nada sobre a renovação da concessão da ferrovia de Carajás e a intensificação ruinosa da extração de minério de ferro. Nenhuma referência ao desmatamento brutal do Pará. Nenhuma profundidade sobre as razões da violência espantosa no campo e na cidade. Nada sobre o distrito industrial de Barcarena e sua sucessão de acidentes ecológicos. Os candidatos, no auge da concorrência, se aproveitam abusivamente do aval da justiça eleitoral para invadir os lares com sua baba raivosa, suas picuinhas, suas mentiras e sua linguagem de bas-fond.

Pode-se não conseguir mudar a propaganda oficial pelo corporativismo do parlamento, que fechará a porteira para iniciativas civilizatórias. Mas as empresas jornalísticas poderiam mudar drasticamente os debates, para eliminar as incivilidades dos candidatos. Eles deixariam de fazer perguntas entre si. Os questionamentos seriam feitos por jornalistas profissionais, metades deles da emissora anfitriã, a outra metade de convidados. O mediador teria a prerrogativa de alertar os candidatos caso eles se desviassem da pergunta e fugissem do tema proposto. Se, ainda assim, continuassem nessa atitude, perderiam uma rodada de perguntas. Reincidentes, ficariam sem a palavra final, no encerramento do debate.

Haveria um colegiado de consulta, integrado por (quatro?) professores indicados pelas universidades públicas e aprovado por seus colegiados, com notório saber e ilibada conduta, sem filiação partidária. Eles seriam consultados todas as vezes que um candidato anunciasse uma iniciativa de governo ou se referisse a números. O mediador daria a palavra aos consultores e eles, bem objetivamente, confirmariam ou negariam o que foi dito, justificando a sua manifestação.

Já o Tribunal Superior Eleitoral obrigaria todos os pretendentes a cargos políticos no poder executivo (federal, estadual e municipal) a um curso intensivo de cidadania, ministrado, um ano antes da eleição, numa semana de dedicação integral, por professores de universidades públicas com as mesmas qualificações do debate jornalístico. Encerrado o curso, sem o qual ninguém mais poderia concorrer a uma eleição, cada pretendente seria obrigado a elaborar um plano de governo no prazo de dois meses e submetê-lo a audiências públicas na área da sua pretendida jurisdição.

A justiça eleitoral financiaria essas atividades todas com o fundo partidário, dando-lhe uso nobre e eliminando os eymael de sempre. Ao mesmo tempo, seria reaberto o financiamento privado de campanha, com regras rigorosas e restritivas, para impedir a corrupção avassaladora nas eleições e drenar um mal que se infiltra pela rede mundial de computadores.

Poderíamos assim melhorar a cultura política no Brasil?

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No alvo, o PT

Reproduzo o debate abaixo, publicado na edição 248, de dezembro de 2000, do Jornal Pessoal. Tem a carta do leitor e a minha resposta. Talvez ajude a compreender a difícil relação do PT comigo – e vice-versa.

Prezado Lúcio,

Não estava querendo retrucar em relação à sua recorrente má-vontade para com Edmilson e o PT, mas seu editorial da edição 247 (“Onde a Esperança?”) foi a gota d’água. Como estudante de jornalismo, fico decepcionado com essa opção preferencial pelo puro opinionismo desprovido de comprovação fática.

É risível você dizer que quem votou em Edmilson foram “eleitores que taparam os olhos, a mente e o nariz”. O apoio ao PT este ano foi muito maior e mais orgânico do que há quatro anos atrás, quando Edmilson ganhou meio que no susto e na base da novidade. Foi um apoio que derivou do trabalho real e concreto que a Prefeitura fez nesses quatro anos, trabalho do qual você nem fala, preferindo discutir o sexo dos anjos, sobre se Edmilson devia ter sido ou não cortês com Almir na festa da Yamada.

As obras de saneamento que a prefeitura fez na periferia nesses quatro anos não têm paralelo na história recente da cidade. Isso é substantivo, a cortesia política com o adversário é adjetiva. Com o trabalho do orçamento participativo (onde até a direita está disputando agora, legitimando o processo de fato), da bolsa escola, do banco do povo, coisas reais, que funcionam mesmo, independentemente das críticas dos adversários, todo um novo contingente de pessoas passou a apoiar o PT. O partido saiu da sua adolescência nessa experiência administrativa.

Não estou fazendo discurso triunfalista ou ufanista, até porque tenho inúmeras críticas à gestão, mas só um cego não vê que, numa comparação com as gestões anteriores, a do PT foi muito melhor.

Esse antagonismo acirrado entre PT e direita, que você tanto critica, é mais do que natural. O projeto político e administrativo de Almir e companhia é completamente antagônico ao do PT. Você mesmo já demonstrou o profundo elitismo que permeia tudo que o governador faz. Mesmo assim, ainda poderia haver algum entendimento (e isso foi tentado), mas é óbvio que Almir age como um suserano que só aceita conversar com quem lhe presta vassalagem. O que ele quer é faturar politicamente com tudo, mesmo o que não é de sua alçada (obras conseguidas com empenho de toda a bancada federal, obras do governo federal, até empreendimentos financiados pela iniciativa privada). O que ele não pode faturar, ele boicota – os exemplos de boicote ao trabalho da Prefeitura são inúmeros e é ocioso relembrá-los.

É engraçado você falar em “novo populismo” petista quando aqui são aplicados todos os princípios do “modo petista de governar”, tão elogiado nos quatro cantos do país. Será que as dezenas de prêmios não bastam para atestar a qualidade da administração? Não têm credibilidade as instituições que deram os prêmios (a ONU, a Fundação Abrinq, o próprio governo federal do partido adversário)?

Eu não vi Edmilson classificar de “histórica e monumental” a vitória, mas mesmo que ele tenha dito isso, é de somenos importância. A vitória foi difícil e se deveu não só à competência da equipe profissional como aos brios (mesmo tardios) da militância. Mesmo com o bom trabalho da prefeitura, houve um boicote generalizado da mídia nestes quatro anos; a fabricação de fatos contra a prefeitura (a metafísica “Milícia Cabana”, o contrato das araras); um derrame de propaganda estadual (chegando até às “vias do fato”, ou seja, criticar a prefeitura em pleno comercial institucional); um preconceito arraigado anti-petista (mostrado nas pesquisas de opinião, numa curva descendente de preferência pelo PT à medida que subia a faixa etária); um adversário de perfil popular (ou populista); e o uso dos velhos métodos de compra e aliciamento de votos (a autuação de Expedito Fernandez mostra isso).

Por isso mesmo, a vitória foi substantiva. Você se engana redondamente sobre a diferença de votos não ter “paralelo no 2º turno de todas as capitais brasileiras”. Em Recife e no Rio (gestões bem avaliadas) os atuais prefeitos PERDERAM, por diferenças menores do que essa. Em várias outras os prefeitos atuais não concorreram, pois não tinha condições de vencer. E no geral as eleições foram bem parelhas (como em Curitiba, cidade também bastante premiada). Não dá para dizer que em Belém foi a eleição mais difícil para as atuais administrações.

Eu posso garantir, petista pode ser meio sectário mas não dá tiro no pé. Mesmo que eventualmente estejam com discurso triunfante, o “recado das urnas” foi sim entendido, e existem mais quatro anos para corrigir o que está errado. Muitas orelhas devem estar sendo puxadas nas internas. Lula se encarregou de puxar algumas quando esteve aqui.

Vou ficando por aqui, para não tomar demais seu espaço. Só gostaria de relembrar as críticas ácidas de Alberto Dines ao oposicionismo patológico da “Folha de São Paulo” a todo e qualquer governo. E dizer que, muitas vezes, ler seu (de resto, excelente) jornal, me dá a sensação de que você faz a mesma coisa.

Atenciosamente,

Marcus Pessoa de Araújo

 

MINHA RESPOSTA

Para Marcus meu jornal é excelente, exceto quando trata do PT e da administração Edmilson Rodrigues. Em relação a esses temas, eu estaria contaminado de má vontade, reduzindo o que escrevo a puro “opinionismo”.

Lamento que tal ponto de vista seja o de um estudante de jornalismo. Marcus critica o que diz ser um editorial, quando, com mais rigor, deveria ser tratado como artigo de opinião. Aceitemos, porém, que seja um editorial. Não é esse o lugar certo para dar opinião? Opinião, em um jornalista, não é palpite de jogo do bicho, extraído do sonho. Fundamenta-se em fatos, resulta de uma análise lógica sobre razões claras. O leitor tem todo o direito de não concordar com o que penso. Mas não o de transformar um pensamento divergente do dele em pecado, suspeito simplesmente por existir.

Se eu me limitasse a tratar do sexo dos anjos, não estaria, neste momento, respondendo a oito processos judiciais, um dos quais proposto por Edmilson Rodrigues (sem sequer exercer o direito de resposta), por cometer “delito de opinião”. Todos os artigos considerados ofensivos trataram de relevantes temas de interesse coletivo. Em nenhum deles a intimidade, a privacidade, as características subjetivas da personalidade, a correspondência, as relações pessoais e familiares foram sequer tocados. Neles tratei de grilagem de terras, comportamento precipitado da justiça, em desfavor dos interesses difusos da sociedade, atitudes ditatoriais de governantes, promiscuidade do poder público com a imprensa, etc.. Estou sendo – e tenho sido – punido por tratar de temas muito mais cabulosos do que o sexo dos anjos. Pago caro por abordar assuntos dos quais a grande imprensa foge como o diabo da cruz. O preço inclui ser injustiçado por meus leitores. Mas, como diria um enforcado: tudo bem.

Um dos objetivos mais insistentes que procuro alcançar na atividade profissional é a isenção de ânimo ao escrever. Não pretendo agradar a todos e sei que a perfeição não passa de uma meta. Já estaria imensamente feliz em ser reconhecido como um honesto profissional da informação, passível de erros, menos o da parcialidade. Os diferentes grupos de interesse podem utilizar o que escrevo. Eventualmente favoreço um lado contra o outro. Mas não há nenhum propósito deliberado nesse sentido. A vida é que é mesmo pendular.

Foi assim que ajudei Jader Barbalho a se eleger governador em 1982 (e a se livrar de Sahid Xerfan, três anos depois, colocando Almir Gabriel no lugar do dileto prefeito de botas) e assim dei alguma contribuição à vitória de Edmilson Rodrigues em 1996, colocando contra a parede o seu adversário, Ramiro Bentes, durante o debate eleitoral na TV RBA (com a presença de jornalistas, hoje, quem diria, uma utopia saudosista). Fiz isso não porque quisesse prejudicar o candidato do então prefeito Hélio Gueiros, mas porque minha tarefa ali era confrontá-lo com uma verdade que passara a incomodá-lo (uma ligação com o execrado governador Jader Barbalho através de uma polêmica desapropriação de uma empresa de Ramiro). Individualmente, ele estava mais preparado para ser prefeito. Mas seus compromissos políticos o prendiam ao passado, do qual era uma expressão remanescente. Edmilson era uma incógnita, mas não tinha rabo preso ao passado. Por isso foi eleito. Não porque eu quisesse. Ou, como diria Gueiros, “desquisesse”.

Concluída a eleição e empossado o novo governo, eu não tinha motivo para cobrar-lhe algum crédito pessoal, nem para antipatizá-lo. Como sempre fiz, procurei ouvir o prefeito, estar presente aos seus atos mais importantes, sentir suas intenções, observar suas atitudes. Às primeiras críticas, Edmilson começou a reagir com intolerância, desde a falta de civilidade e educação (como ensaiar recusa a cumprimento numa participação comum no lançamento de um livro de Emir Sader no auditório do Centur) até atos mais substantivos, como fechar as torneiras da informação pública, mantendo quase como clandestina a circulação do Diário Oficial do Município, e tornando “personas non gratas” os críticos.

Este jornal jamais desrespeitou o direito de resposta das pessoas que critica, submetendo-se até mesmo àquele ditado popular, segundo o qual quem diz o que quer deve estar sujeito a ouvir o que não quer. A tudo o que critiquei, a prefeitura do PT podia responder, integralmente, sem pagar um centavo por isso (como o leitor deve saber, este jornal sempre recusou publicidade, por princípio).

Os cofres públicos foram usados para engordar os já bem nutridos órgãos da grande imprensa, que efetivamente boicotaram a administração municipal quando seus desejos não foram atendidos. Edmilson Rodrigues foi o primeiro prefeito na face desta terra azulada a conceber verba pública (100 mil reais) para aumentar o lucro de um grupo de Comunicação (o Liberal) na venda ao público de fitas de vídeo descaradamente comerciais. Quitou com o mesmo grupo a dívida formada com intenção ruinosa e deixada como restos a pagar pelo antecessor, que seu primeiro secretário de finanças (hoje desembargador) glosou, considerando-a exorbitante e interditando-a, até ser defenestrado do cargo. E já começou a fazer nova quitação de uma dívida de valor equivalente que  fez em seu primeiro quadriênio, tão despropositada quanto a de Gueiros.

Basta ao leitor compulsar a coleção deste jornal para verificar que tenho acompanhado não apenas a parte adjetiva (de incivilidade) do governo municipal, acessória sem ser supérflua, mas também a substantiva. Só para refrescar sua memória, basta lembrar textos mais recentes sobre o transporte coletivo e sua tarifa, o lançamento do IPTU 2000 e o affaireCtbel-Detran. Em todas, se minha interpretação está sujeita (e sempre está) a questionamentos, minhas informações não foram desmentidas. Ninguém se apresentou para o diálogo, em aberto. Logo, não é “opinionismo”, mas jornalismo de investigação, interpretação e crítica ancorado em fatos, não ponto de agenda ou propaganda.

Se eu praticasse esse jornalismo inconsequente, tenho certeza que Marcus não me leria, não incorporaria o que digo às suas próprias opiniões e não classificaria este jornal de excelente, exceto nos aspectos divergentes dele. Reconheço, por exemplo, que bolsa-escola ou banco do povo são inovações na gestão pública. Mas será que em Belém o recheio dessa forma teórica é de boa qualidade? A forma não se tornou uma fôrma? Prêmio internacional é uma forma de reconhecimento, mas não é tudo, principalmente quando se multiplica seu número e se distorce seu significado.

Marcus devia reler sua carta e meditar: as justas acusações que faz ao despotismo do governador Almir Gabriel, aqui relatados e criticados à exaustão, não se aplicam como luva ao modo de governar do prefeito Edmilson Rodrigues? Quem se comporta como “um suserano, que só aceita conversar com quem lhe presta vassalagem”? Ou que “quer é faturar politicamente com tudo, mesmo o que não é de sua alçada”?

Marcus afirma que as obras de saneamento da PMB na periferia “não têm paralelo na história recente da cidade”. Sua declaração só pode ser levada a sério se ele se refere à macrodrenagem das baixadas, uma obra essencialmente do governo do Estado, da qual o prefeito quis se apossar através de iniciativas espertas, mas ilegítimas (que deram certo pela abulia da administração estadual). A participação da prefeitura, embora efetiva, é residual. Deve-se, sobretudo, à exigência do agente financiador, o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). O governo foi quem fez todo o projeto e é quem vai pagar toda a conta do capital. Independentemente do que penso sobre a obra (e penso criticamente sobre ela), é a maior intervenção do setor público em saneamento desde que os ingleses construíram os primeiros (e quase todos, até agora) esgotos de Belém.

Dizer que ignoro os méritos da atual gestão municipal por má vontade é uma injustiça, que só posso atribuir à falta de leitura (ou à má leitura) do que escrevo. Procuro ser um crítico equilibrado (embora incisivo), ponderado e positivo. Basta Marcus ir à coleção do JP para verificar quantas sugestões e propostas já apresentei, nenhuma delas merecedora da menos das atenções da administração municipal, mesmo que fosse para considerá-las imprestáveis.

Quando critiquei o lançamento precipitado do IPTU para antecipar a formação de caixa, um dos principais responsáveis pela base informativa do tributo me telefonou e me convidou para ver o cadastro multifinalitário. Eu lá fui. Conversamos civilizadamente, fiz meus questionamentos, ele prestou as informações e voltei a me manifestar, repassando o que captei, confrontando as explicações com minha crítica, corrigindo o que estava impreciso e reafirmando o que ainda me parecia correto.

Por que não é assim em todos os casos? Por que, quando criticado em matéria pública, sem apresentar resposta, sem mandar seus assessores darem-nas, reage o grão-vizir petista com processo na justiça, coisa que o majestático doutor Almir não fez, nem, antes dele, em épocas muito mais turvas, Aloysio Chaves, Jarbas Passarinho ou Alacid Nunes, também contrariados frontalmente? O professor sem dragonas é mais coronel do que eles?

Na questão da Ctbel, recebi um dossiê da empresa, passei uma manhã lendo o processo na justiça, ouvi o Ministério Público e fui a fontes diversas antes de expor minha posição. Divulgada e reiterada, ninguém mais se manifestou. Será que estou certo? Não sei, mas é assim que se estabelece o critério da verdade. Não é com propaganda. Não é comprando jornalistas. Não é se submetendo à doutrina. Nem anatematizando os que não pensam como nós. É por isso que continuamos a defender a democracia, sem adjetivo acompanhante (relativa, integral, socialista). Porque é o melhor regime político intrinsecamente e porque não apareceu concorrente melhor.

Para criticar, é preciso captar com fidelidade o que diz a outra parte, evitando-se deturpar sua posição e desnaturar suas palavras. Eu não disse, por exemplo, que todos os que votaram em Edmillson “taparam os olhos, a mente e o nariz”. Eu estava me referindo apenas aos “votos que asseguraram a magra e suada vitória do alcaide”. Ou seja: aos menos de 10 mil votos da diferença entre ele e Duciomar Costa. Também não escrevi que essa foi a menor de todas as diferenças no 2º turno nas capitais brasileiras. Disse que foi a menor diferença entre os prefeitos reeleitos. Os prefeitos de Recife e do Rio de Janeiro não se reelegeram. Dos que conseguiram o segundo mandato, Edmilson foi o que teve a menor vantagem.

Uma análise realista dos fatos, travada inclusive através do confronto com posições divergentes e captando as críticas (como as “inúmeras” que Marcus diz ter, sem expô-las de público) é necessária para o PT corrigir os evidentes erros cometidos no primeiro mandato de Edmilson e não distorcer o significado da eleição deste ano em Belém. Com a máquina municipal nas mãos e com um acervo de realizações que, se não está à altura das suas possibilidades e do desafio que o momento histórico lhe impôs, também não é inferior ao de administrações antecessoras (é um pouco melhor do que a média ou um pouco abaixo das raras melhores, sem ser excepcional para mais ou para menos), o PT saiu-se pior numa reeleição no 2º turno deste ano do que em 1996, quando sua situação era muito mais desfavorável. Como será em 2002 e 2004 pelo andor da carruagem do nosso alcaide-mor?

É a pergunta que fica, como uma proposta de reflexão para todos os que querem ver Belém melhorar, independentemente de saber a quem deve-se atribuir esse mérito. Já basta cada ano anterior ser melhor do que o seguinte, deixando saudades imprecisas.

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A militância pelo voto de misericórdia

Reproduzo a matéria a seguir, publicada na edição de hoje do jornal espanhol El País. Ela suscita uma questão: será que, ao invés de optar por um candidato na última hora, segundo a previsão mais comum (o que atinge gravemente a credibilidade das pesquisas de opinião), eleitores ,como os dois entrevistados, não acabem anulando os seus votos em protesto?

No terreno minado das eleições, há desentendimentos por todos os lados e tem sobrado farpa até para quem não acredita que tomar partido diante da polarização seja a solução. Evânio Cézar, 25 anos, morador de Areado, Minas Gerais, está decidido a anular seu voto e, ao se posicionar entre os amigos, relata que tem sido pressionado a votar para salvar o país. O mineiro relatou que os apoiadores de Bolsonaro têm sido mais incisivos em conquistar seu voto para evitar uma possível ditadura bolivariana. “Os argumentos são de que ele realmente vai mudar o Brasil e tirar o PT da presidência”. Ele complementa dizendo que se sente intimidado a tomar um lado, mas que percebe as pessoas mais alienadas: “Às vezes me dá medo porque percebo que só estão indo na onda da internet, sem levar em conta uma boa proposta de Governo para o Brasil.”

Já Tássia Farssura, 34 anos, paulistana que também já optou pelo voto nulo, reclama ter sido mais abordada por eleitores do Haddad, candidato em desvantagem na corrida eleitoral e que, de fato, precisa conseguir converter alguns indecisos. “Chegaram a apelar: você quer bolsa de doutorado, fazer pesquisa e vai deixar o Bolsonaro entrar?”, conta a mestra em gestão de projetos de engenharia civil, que há dois anos tenta uma bolsa para sua pesquisa de doutorado.

Fátima Pacheco Jordão aponta para a manifestação dos não-votantes como um ato de descontentamento com o instrumento político partidário. “A população não consegue perceber nas lideranças políticas partidárias aquilo que elas procuram”. ” Mas à medida que o dia da eleição se aproxima, parte importante do eleitorado resolve em quem vai votar. Às vezes, na última semana, quiçá, no último dia”, diz a também especialista em pesquisa de opinião. Com o cenário, ela enxerga uma forte tendência popular em reivindicar outras formas de democracia, mas pondera: “é provável que a população peça por uma maior participação num sentido plebiscitário, mas é provável que as elites irão preferir fazer uma reforma política.”

*Nome fictício, usado para preservar a identidade dos entrevistados a pedido deles.

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A vitória dos Barbalho

Jader Barbalho é o maior vencedor no 1º turno da eleição deste ano no Pará.

Primeiro, por conseguir se reeleger numa disputa nacional na qual ficaram de fora do parlamento políticos marcados pela sombra da Operação Lava-Jato, que os acusou – ou ainda os investiga – por corrupção, como é o caso do senador paraense.

Em segundo lugar, por montar uma dobradinha perfeito – e rara – para ocupar também a segunda vaga para o Senado com Zequinha Marinho, do PSC, seu aliado tardio, mas completo. Não um qualquer, mas o político que, até seis meses atrás, era o vice-governador de Simão Jatene, do PSDB, ex-aliado e principal adversário atual, que se tornou o político que por mais vezes (três) chegou ao cargo máximo do Estado pela eleição direta, a última delas em 2014.

Menos de 10 mil votos separaram Jader (com 1 milhão 383 mil votos, 19,47% do total dos votos válidos) de Zequinha (1 milhão 374 mil, 19,62%). Assim, o líder do MDB fechou a porta para Flexa Ribeiro, do PSDB, voltar ao Senado. O candidato tucano, a maior expressão do PSDB paraense no parlamento nacional, teve mais votos do que Jader em 2010.

Com um detalhe relevante. Jader passou um ano fora do Senado, substituído por Marinor Brito, do PSOL, a mais votada em seguida (eleita agora deputada estadual), porque a justiça impugnou a sua candidatura. Seus votos foram computados à parte e só foram validados quando a justiça decidiu que a lei da ficha limpa, com a qual ele fora punido, não poderia vigorar em 2010.

Entre 2001 Jader foi preso pela Polícia Federal, acusado de patrocinar corrupção na Sudam, renunciou à presidência do Senado e ao mandato, para evitar a sua cassação, tida como certa, e se tornar inelegível. Recuperou na eleição seguinte o mandato de deputado federal e, em 2010, a cadeira senatorial.

Quando parecia que a família Barbalho fora despejada do topo da política local, em função dos escândalos morais do seu chefe, Jader repete a dose da eleição de 2014: faz o filho, Helder Barbalho, vencer o 1º turno para o governo do Estado, com 700 mil votos à frente do candidato da situação, Márcio Miranda

Sua ex-esposa, Elcione, teve o melhor desempenho entre os candidatos que conseguiram se reeleger para a Câmara Federal (no caso dela, pela quinta vez), dando um salto da 12ª posição em 2014 para a 3ª nesta eleição (de 87 mil para 165 mil votos, de 2,32% do total para 4,1%). Seu primo, José Priante, um pouco atrás de Elcione, renovou o mandato. Só a terceira esposa, Simone Morgado, não teve sucesso (talvez nem o apoio que esperava).

Certamente há o dedo de Jader movimentando votos em direção a Fernando Haddad, o que permitiu ao candidato do PT obter no Pará a sua única vitória fora do Nordeste, como parte de um acordo informal entre os dois partidos no Estado. A maioria dos votos petistas deverá então migrar para Helder Barbalho no 2º turno, o que garantiria que, desta vez, a vitória dos Barbalho será completa. A terceira geração da filha estará no comando político a partir do posto mais alto, 36 anos depois que Jader chegou pela primeira vez ao governo estadual, na eleição de 1982.

Mesmo que isso ocorra, porém, não haverá o restabelecimento da plenitude do poder se não houver as mudanças que Helder prometeu retoricamente. A rejeição aos Barbalho ainda não permitiu que eles recompusessem a maioria que Jader encarnou quando era um parlamentar oposicionista, sem acesso ao executivo público. No 1º turno da eleição de 2014, Helder chegou bem perto: teve 49,88% dos votos válidos, contra 48,48% de Jatene, que disputava a reeleição. No 2º turno houve uma surpreendente reversão: Jatene passou para 51,92% contra 48,08% de Helder

À primeira vista, a situação pode se inverter porque Helder abriu 700 mil votos de vantagem (e não 50 mil, como no 1º turno de 2014) sobre Márcio Miranda. O fraco candidato do DEM conta com o respaldo da máquina estadual, reforçada pela inusitada decisão de Jatene de se licenciar do governo para reforçar a campanha do seu candidato. Os Barbalho atribuem a virada de 2014 ao uso da máquina pública, principalmente através da distribuição de cheque-moradia. A reprise pode ter sido a responsável pelo acentuado crescimento da opção por Miranda no final da campanha eleitoral.

Punido de várias formas desde que atingiu o pique da sua força política, ao enfrentar o todo poderoso Antônio Carlos Magalhães, Jader Barbalho parece ter se conscientizado de que precisava de um sucessor qualificado para recolocar o clã no controle do poder local. Helder passou por um curso de formação como deputado estadual, duas vezes prefeito de Ananindeua (o segundo colégio eleitoral do Estado), ministérios federais e o teste maior no âmbito, que é o governo.

Talvez tenha perdido a batalha de 2014 por detalhes tão irrelevantes quanto os 0,12% dos votos válidos para tirar Jatene da política. Um capricho da história que pode ser renovado neste ano se o filho de Jader Barbalho não auscultar com lucidez o recado das urnas.

Mesmo tendo um sobrenome estigmatizado, ele não o escondeu em toda campanha. Nem escondeu o pai, que abriu e preparou com competência o caminho para uma carreira expressiva, que Helder não abriria sozinho (caminho vedado ao pai, por mais uma ironia da história), graças ao seu talento oratório, sua juventude e sua estampa. Mas se ele conseguir em 2018 o que deixou escapar em 2014 apenas para repetir, com outro visual e retórica, o que o pai fez, num saldo negativo para o Pará, então a mudança prometida, mais uma vez, terá sido uma fraude.

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