A vitória dos Barbalho

Jader Barbalho é o maior vencedor no 1º turno da eleição deste ano no Pará.

Primeiro, por conseguir se reeleger numa disputa nacional na qual ficaram de fora do parlamento políticos marcados pela sombra da Operação Lava-Jato, que os acusou – ou ainda os investiga – por corrupção, como é o caso do senador paraense.

Em segundo lugar, por montar uma dobradinha perfeito – e rara – para ocupar também a segunda vaga para o Senado com Zequinha Marinho, do PSC, seu aliado tardio, mas completo. Não um qualquer, mas o político que, até seis meses atrás, era o vice-governador de Simão Jatene, do PSDB, ex-aliado e principal adversário atual, que se tornou o político que por mais vezes (três) chegou ao cargo máximo do Estado pela eleição direta, a última delas em 2014.

Menos de 10 mil votos separaram Jader (com 1 milhão 383 mil votos, 19,47% do total dos votos válidos) de Zequinha (1 milhão 374 mil, 19,62%). Assim, o líder do MDB fechou a porta para Flexa Ribeiro, do PSDB, voltar ao Senado. O candidato tucano, a maior expressão do PSDB paraense no parlamento nacional, teve mais votos do que Jader em 2010.

Com um detalhe relevante. Jader passou um ano fora do Senado, substituído por Marinor Brito, do PSOL, a mais votada em seguida (eleita agora deputada estadual), porque a justiça impugnou a sua candidatura. Seus votos foram computados à parte e só foram validados quando a justiça decidiu que a lei da ficha limpa, com a qual ele fora punido, não poderia vigorar em 2010.

Entre 2001 Jader foi preso pela Polícia Federal, acusado de patrocinar corrupção na Sudam, renunciou à presidência do Senado e ao mandato, para evitar a sua cassação, tida como certa, e se tornar inelegível. Recuperou na eleição seguinte o mandato de deputado federal e, em 2010, a cadeira senatorial.

Quando parecia que a família Barbalho fora despejada do topo da política local, em função dos escândalos morais do seu chefe, Jader repete a dose da eleição de 2014: faz o filho, Helder Barbalho, vencer o 1º turno para o governo do Estado, com 700 mil votos à frente do candidato da situação, Márcio Miranda

Sua ex-esposa, Elcione, teve o melhor desempenho entre os candidatos que conseguiram se reeleger para a Câmara Federal (no caso dela, pela quinta vez), dando um salto da 12ª posição em 2014 para a 3ª nesta eleição (de 87 mil para 165 mil votos, de 2,32% do total para 4,1%). Seu primo, José Priante, um pouco atrás de Elcione, renovou o mandato. Só a terceira esposa, Simone Morgado, não teve sucesso (talvez nem o apoio que esperava).

Certamente há o dedo de Jader movimentando votos em direção a Fernando Haddad, o que permitiu ao candidato do PT obter no Pará a sua única vitória fora do Nordeste, como parte de um acordo informal entre os dois partidos no Estado. A maioria dos votos petistas deverá então migrar para Helder Barbalho no 2º turno, o que garantiria que, desta vez, a vitória dos Barbalho será completa. A terceira geração da filha estará no comando político a partir do posto mais alto, 36 anos depois que Jader chegou pela primeira vez ao governo estadual, na eleição de 1982.

Mesmo que isso ocorra, porém, não haverá o restabelecimento da plenitude do poder se não houver as mudanças que Helder prometeu retoricamente. A rejeição aos Barbalho ainda não permitiu que eles recompusessem a maioria que Jader encarnou quando era um parlamentar oposicionista, sem acesso ao executivo público. No 1º turno da eleição de 2014, Helder chegou bem perto: teve 49,88% dos votos válidos, contra 48,48% de Jatene, que disputava a reeleição. No 2º turno houve uma surpreendente reversão: Jatene passou para 51,92% contra 48,08% de Helder

À primeira vista, a situação pode se inverter porque Helder abriu 700 mil votos de vantagem (e não 50 mil, como no 1º turno de 2014) sobre Márcio Miranda. O fraco candidato do DEM conta com o respaldo da máquina estadual, reforçada pela inusitada decisão de Jatene de se licenciar do governo para reforçar a campanha do seu candidato. Os Barbalho atribuem a virada de 2014 ao uso da máquina pública, principalmente através da distribuição de cheque-moradia. A reprise pode ter sido a responsável pelo acentuado crescimento da opção por Miranda no final da campanha eleitoral.

Punido de várias formas desde que atingiu o pique da sua força política, ao enfrentar o todo poderoso Antônio Carlos Magalhães, Jader Barbalho parece ter se conscientizado de que precisava de um sucessor qualificado para recolocar o clã no controle do poder local. Helder passou por um curso de formação como deputado estadual, duas vezes prefeito de Ananindeua (o segundo colégio eleitoral do Estado), ministérios federais e o teste maior no âmbito, que é o governo.

Talvez tenha perdido a batalha de 2014 por detalhes tão irrelevantes quanto os 0,12% dos votos válidos para tirar Jatene da política. Um capricho da história que pode ser renovado neste ano se o filho de Jader Barbalho não auscultar com lucidez o recado das urnas.

Mesmo tendo um sobrenome estigmatizado, ele não o escondeu em toda campanha. Nem escondeu o pai, que abriu e preparou com competência o caminho para uma carreira expressiva, que Helder não abriria sozinho (caminho vedado ao pai, por mais uma ironia da história), graças ao seu talento oratório, sua juventude e sua estampa. Mas se ele conseguir em 2018 o que deixou escapar em 2014 apenas para repetir, com outro visual e retórica, o que o pai fez, num saldo negativo para o Pará, então a mudança prometida, mais uma vez, terá sido uma fraude.


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