A ameaça de Bolsonaro

Num discurso que gravou em vídeo e foi transmitido aos seus adeptos na avenida Paulista, em São Paulo, reunidos em manifestação no dia 21, Jair Bolsonaro antecipou como poderá ser a sua relação com a imprensa:

“Sem mentiras, sem fake news, sem Folha de São Paulo [o correto é Folha de S. Paulo]. Nós ganharemos esta guerra. Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de São Paulo é o maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre, parabéns; imprensa vendida, meus pêsames”.

É um ideário autoritário, ditatorial, que ameaça a liberdade de expressão, de pensamento e de imprensa – e a própria democracia, desprovida de oxigênio sem a liberdade.

Se a Folha de S. Paulo publica mentiras sobre o candidato do PSL, a reação que lhe cabe, como cidadão e como detentor do cargo de deputado federal, é desmentir as falsas informações, exercendo o direito de resposta. Se a sua resposta não for publicada ou for publicada apenas parcialmente, comprometendo a sua integridade, ele poderá recorrer à justiça para obrigar o veículo a reproduzi-la por inteiro e a receber as sanções devidas.

É dessa prática, através da checagem constante do que a imprensa divulga e da sua capacidade de reconhecer seus erros e corrigi-los publicamente que se pode medir o seu grau de responsabilidade social. Não através de um censor institucional, qualquer que seja o poder que ele tem e o cargo que exerce.

O público de cada veículo de comunicação é o único árbitro legítimo do valor da imprensa. Se ela falha no seu compromisso de bem informar ou se abusa do próprio poder, então recorra-se à justiça para responsabilizá-la e puni-la na forma da lei.

Se eleito presidente da república e quiser colocar em prática o que disse, Bolsonaro elevará o grau de periculosidade que já representa para a democracia. Como todos os déspotas e os falsos democratas, Bolsonaro quer usar a verba publicitária oficial como instrumento de pressão e coação para comprar, com dinheiro público, adesão ao seu governo.

Esta tem sido a prática no Brasil. Logo, a mudança que ele propõe encarnar é uma farsa. Não me lembro de nenhum candidato a presidente da república tão claro e decidido a praticar esse tipo de chantagem. Se ele tem essa disposição totalitária quando ainda é candidato, o que não fará como presidente? Talvez abuse desse poder mais do que qualquer antecessor.

Depois da ameaça do filho ao Supremo Tribunal Federal, a ameaça do pai à imprensa retoca um cenário de chumbo (simbolicamente e literalmente) para o Brasil.


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