Domingo, 14 Abril 2019 10:49

Posto Bolsonaro

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A cena é patética, mas exemplar. Acossado por jornalistas nos Estados Unidos, onde tenta vender seu peixe, de qualidade duvidosa, logo depois da interferência direta e pessoal do presidente da república sobre a gestão da Petrobrás na fixação do preço de um dos seus produtos, o óleo diesel, o ministro da Economia (cada vez menos superministro) tenta encontrar uma saíd. Balbucia que o presidente já disse que não entende de economia. Certamente, agiu pensando nos efeitos políticos do reajuste de um produto tão sensível e das informações que lhe foram dadas.

No meio das explicações e desculpas, o ministro encara o representante da TV Globo, talvez o mais antigo correspondente da imprensa brasileira em território americano, e contemporiza (ou deixa de lado as imposições do cargo e dá vazão ao seu estado de espírito mais íntimo): Paulo Guedes partilha as preocupações e inquietações do jornalista.

Considerando encerrada a entrevista, o ministro entra na limousine que o aguarda. Já dentro do veículo, ele volta à porta e emenda (ou conserta) o que dissera. Para acrescentar que tudo poderá ser acertado numa conversa com o presidente, a partir do princípio filosófico de que não há nada que não se possa conversar com uma boa conversa. The End (nada feliz).

Enquanto a limousine se vai, uma questão (ou muitas delas) se impõe: por que o presidente da república, que não entende de economia, não consultou seu principal ministro, justamente o comandante do mais poderoso ministério, que agregou todos os penduricalhos econômicos?

Qual a urgência e emergência da situação em que o consultor foi um político, o chefe da Casa civil, Onyx Lorenzoni (quase o nome de um chuveiro elétrico)? Foi só porque os caminhoneiros ameaçaram com uma nova greve? O simples anúncio de insatisfação foi o bastante para o ato açodado (com demonstração de fraqueza) do presidente?

Foi muito alto o preço do impacto dessa extemporânea intervenção presidencial na Petrobrás, tantas vezes abalada por esse tipo de ato imperial do ocupante do Palácio do Planalto (e arredores e extensões, incluídas as espúrias) para o que de concreto conseguiu: mais alguns dias de debates e conversas para aceitar ou rejeitar o que deveria ser mero ato de gerência da maior empresa do país: o ajuste dos seus preços de venda aos seus custos.

Se a Petrobrás foi açodada no reajuste, se foi leviana na fixação do preço ou se tinha ciência de que a majoração podia esperar mais algum tempo, então voltamos à quadratura do círculo. Mais um pouco e estará armado o rastilho de pólvora que levou à hecatombe do governo de Dilma Rousseff, com direito a lágrimas e fitas amarelas apenas entre os seus órfãos.

Uma questão de tal gravidade, como a que levou à greve do ano passado, continua a ser tratada com visão curta e receituário de mesa b ranca. E as ordens são dadas por um capitão mal sucedido na carreira ou um político de nula expressão, agindo como um gênio, dispensando a assessoria competente por ele mesmo credenciada. Talvez, assim, o governo Bolsonaro perca o seu posto Ipiranga numa estrada cada vez mais deserta.

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