Domingo, 21 Abril 2019 11:40

Apenas jornalista

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Comecei a dar palestras na segunda metade dos anos 1960, Nas primeiras, havia certa tensão na hora da minha apresentação. Eu me declarava jornalista, provocando certa frustração no encarregado da tarefa. Percebi o fenômeno e acrescentei o título, quando o conquistei, no início dos anos 1970: eu era também sociólogo. Alívio visível, especialmente quando o ambiente era acadêmico. Jornalismo não pode servir de referência para trabalhos científicos. É empirismo e impressionismo. Citado, desvaloriza dissertações e teses. Ameaça o sacramento da aprovação das bancas examinadoras.

Há muito de preconceito nessa reação, como têm provado jornalistas que escreveram obras de verdadeiro conteúdo científico. O mais recente desses trabalhos (em linguagem de gente viva) que li foi a biografia de Tiradentes por Lucas Figueiredo, a primeira reconstituição sistemática e completa sobre o líder da inconfidência mineira, enquadrada em todas as normas regulamentares, como a remissão do que diz o autor a fontes de referência, na melhor e mais bem organizada bibliografia sobre o movimento de 1789, o que permite conferir suas afirmativas em fontes primárias e secundárias.

Nem sempre, mas com regularidade cada vez maior, jornalistas procuram ter formação universitária, com menos frequência nos cursos de comunicação social e jornalismo, principalmente depois do fim do monopólio do curso de comunicação para o exercício profissional. Essa excrescência, única no mundo civilizado, foi criada em maio de 1969, no período mais negro da ditadura militar, pela junta dos ministros das forças armadas. Ela usurpou o cargo do vice-presidente Pedro Aleixo, quando o titular, o general Costa e Silva, sofreu uma trombose, ficou impossibilitado de exercer a presidência da república e acabou morrendo.

Quando fiz o vestibular, em 1967, ignorei o jornalismo. Podia fazer isso: a absurda exigência ainda não existia. Fui para a sociologia - e fiz certo, numa época em que os jornalistas iam para a boemia, a literatura e a rua (hoje imaginária nas telas de um computador). Esse coquetel cultural produziu grandes repórteres e escritores, mas colocou a forma acima do conteúdo. O estilo atraía mais do que a veracidade do que era dito, principalmente com o esmero e a criatividade em falta no mercado atual. Costumava ganhar quem era mais brilhante, inteligente e rápido no raciocínio, não quem dizia a verdade.

A sociologia foi preciosa para mim, principalmente pela circunstância de ter feito o meu curso em São Paulo, numa faculdade que reunia o que sobreviveu à perseguição oficial à sociologia, condenada como geneticamente comunista. O que mais estudei nesse período foi método de pensar e metodologia de pesquisa, com a contribuição fecunda da etnologia e da antropologia, disciplina da qual fui monitor do professor Otávio da Costa Eduardo. Ele era um medalhão, que se distanciou da matéria para ganhar dinheiro num eficiente escritório de pesquisa, mas também uma pessoa formidável Fez-me conviver com um dos maiores antropólogos do Brasil, alemão de origem, Herbert Baldus, um sábio cheio de vitalidade até o fim da sua longa vida.

Graças a essa formação, eu partia para minhas expedições jornalísticas, intensas entre 1960 e 1990, armado com um método de abordagem e um conhecimento prévio do que ia tratar. Em 1977, o sociólogo José de Souza Martins observou com perspicácia esse tipo de jornalismo, que ele classificou de contextual. Gostou tanto que apadrinhou meu segundo livro, em 1980, pela editora paulista Hucitec, dedicado às questões agrárias e fundiárias da Amazônia. Disse que minha produção era referência inevitável para quem estudasse a região. Pena que, três décadas depois, em suas extensas memórias, tenha esquecido o que disse e limado meu nome. Nem nas partes dedicadas à Amazônia eu apareço, apesar de ter oferecido o tema da primeira pesquisa realizada por Martins na região e tenha sido citado em livros anteriores.

Esses episódios se têm amiudado, multiplicando-se a partir do momento em que critiquei mais intensamente as igrejinhas clientelistas ou ideológicas da universidade e suas práticas politicamente corretas. Tornei-me uma bête noire em vários campi, daqui, de outras partes do Brasil, e até do exterior, por onde eu circulava com total liberdade (e de onde ainda recebo as maiores atenções, como da direção da biblioteca da Universidade da Flórida, em Gainesville, onde fui professor visitante e tive meu nirvana intelectual; nela, está o Jornal Pessoal, digitalizado e acessível facilmente, gratuitamente, e, talvez, com sua sobrevivência garantida).

A morte em vida dói, mas a dor passa. Algumas das restrições acadêmicas são corretas e fundamentadas. O melhor do meu jornalismo foi produzido na linha de frente, ao som da explosão - não de canhões, que a guerra é não declarada - de revólveres e outras armas de fogo, ou da velocidade espantosa de frentes de ocupação, com sua tecnologia de ganhar tempo para ganhar mais dinheiro, ou complexa e sofisticada para enfrentar a jungle e seus estupefatos (e estropiados) nativos.

Nessas condições, de enviado especial das redações, no jargão profissional, o repórter tem que ser um lépido mensageiro, abandonando as convenções formais, cabíveis na retaguarda de um escaninho acadêmico. Tem que escrever logo o que testemunhou. Ele trabalha com dead-line, prazos curtos, que não servem de desculpa para erros e carências, mas lhe impõem a pressa. Às vezes, o texto produzido é a única referência por escrito a determinados fatos importantes e únicos nessa corrida - sob o ritmo das motosserras - aos mais longínquos ermos amazônicos, a selva virando sertão, à espera de épicos como os de Euclides da Cunha e Glauber Rocha.

Pois é justamente esses marcos que estão sendo omitidos. Outro dia, abri vários dos livros que se agrupam numa prateleira especializada da Fox, todos falando da Amazônia. Mesmo quando abordam assuntos sobre os quais escrevi intensamente, como a história do "gatilheiro" (neologismo que oculta o pistoleiro em que se travestiu o posseiro caboclo Quintino Lira, para se amoldar perfeitamente ao "tipo ideal" do Robin Hood das selvas tropicais), as hidrelétricas (sobretudo Tucuruí), os conflitos de terra, os grandes projetos, os índios, etc.

Já me acostumei a não ser citado, mesmo por aqueles que tanto ajudei a escrever ou documentar sobre a Amazônia. Não me importo mais com essa falta de escrúpulos. Nem com a hostilidade recente dos que antes me elogiavam e agora me criticam, por vezes asperamente, só porque não integro o coro dos enquadrados e pratico meu solilóquio, sem medo de chegar a eremita, já que tudo que escrevo está abertamente exposto e sujeito a divergências, como neste blog, que não tem a moderação do blogueiro.

Velhos companheiros de viagem e pessoas próximas jamais fizeram comentários neste espaço. Nem manifestaram solidariedade ou lamentaram pela suspensão do Jornal Pessoa, por elas tão elogiado verbalmente - da boca para fora, a julgar pelo silêncio público que adotaram; quando não, pela crítica escondida, a maledicência, a  fofoca.

Registro tudo, mas apenas guardo para mim - e para raros amigos íntimos - essa consciência. O que interessa não é a minha pessoa, mas o que produzi. Essa situação só tem caráter de coisa pública se a omissão serve para adulterar a história. No início, o que prevalecia era o uso das minhas informações e análises sem o crédito de autoria. Nos últimos tempos, porém, o que passou a ser dominante foi a supressão das informações e análises, que serviriam de referência, mesmo que sem o reconhecimento da sua origem, para a fidelidade à história vivida, frequentemente distinta da história contada, recontada ou inventada.

Por isso, vou iniciar a reprodução de textos que escrevi numa época ainda sem computadores e internet, que considero úteis para uma história mais próxima da realidade concreta nestes mais de 50 anos do meu jornalismo. A iniciativa está aberta às críticas e contestações. Espero que minha iniciativa seja útil. Mas é o leitor que vai decidir.

Ao bom combate, pois.

Ler 53 vezes Última modificação em Segunda, 22 Abril 2019 16:25

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