Terça, 23 Abril 2019 11:54

Desça do palanque, governador

Escrito por
Avalie este item
(0 votos)

Na eleição de 1990, o governador Hélio Gueiros apoiou para sucedê-lo o ex-prefeito Sahid Xerfan, que fora nomeado por Jader Barbalho e por ele demitido, quando os governadores eram os donos da cadeira de prefeito das capitais dos Estados. Contra Hélio com sua máquina pública e O Liberal, Jader saiu vencedor, numa das mais violentas eleições no Pará. Um dos seus primeiros atos ao assumir o governo foi contratar uma auditoria nas contas do seu ex-amigo e ex-aliado.

Agradavelmente surpreso pela iniciativa, que poderia enquadrar as ofensas e acusações da campanha nos números, acompanhei quase diariamente a evolução da auditagem de uma empresa especializada de São Paulo. Mas apostei com dois graduados integrantes da equipe de Jader que a apuração não iria até o fim, como não foi. Minha hipótese era de que Jader se municiava para impor uma composição com Gueiros, de certa forma retribuindo a uma decisão que ele tomou às vésperas da eleição: não autorizou a concessão de um abono ao funcionalismo público. A simples promessa renderia votos a Xerfan e talvez lhe desse a vitória, revertendo a magra vantagem conseguida por Jader.

Não por acaso, algum tempo depois, Jader e Hélio fizeram as pazes. Hélio voltou ao PMDB, se submeteu à liderança do governador e todos os "baratistas" ficaram felizes. Xerfan foi rifado pelo seu padrinho, que ainda se recusou a dar a sua parte para quitar a dívida de campanha.

O governador Helder Barbalho poderia seguir o exemplo do pai (pelo menos seu início). Ao invés de ficar permanentemente criticando o antecessor, poderia ter contratado uma auditagem externa e independente para as contas do tucano Simão Jatene, a quem Helder vive atribuindo culpa pela herança maldita. Não sem certa razão, mas dando a sensação de não ter descido do palanque nem ter desencarnado para trabalhar de olhos no futuro.  Jatene cometeu muitos erros e procedeu tortuosamente várias vezes. Mas algumas das obras que Helder anuncia ou está inaugurando foram deixadas por Jatene, mesmo que incompletas ou mal acabadas.  O atual governador omite a origem.

Um pequeno exemplo desse procedimento é o destino dado ao livro escrito por Nélio Palheta, que continuaria a publicação de atos importantes do governo a partir do registro no Diário Oficial do Estado. O primeiro volume saiu em 2002, cobrindo de 1891 a 1930. Os volumes seguintes mantiveram a série, tendo Ribamar Castro por autor. O último volume cobriu parte do primeiro governo de Alacid Nunes, de 1967 a 1969. 

A edição do volume, com 454 páginas, foi preparado no ano passado, mas só ficou pronto no início deste ano. As referências, como não poderia deixar de ser, são ao governo tucano. Provavelmente por isso, a atual direção da Imprensa Oficial, entregue ao PC do B, não distribuiu o livro, do qual teriam sido impressos 300 exemplares. Ora, a administração pública é impessoal. Será que o governo Hélder Barbalho quer se apropriar de mais essa obra alheia?

Espero que o Ministério Público, no desempenho do seu ofício, cobre do executivo a respeitar o gasto de dinheiro do povo e seu compromisso com a cultura, enriquecida por essa fonte documental da história paraense. Pelo menos que a primeira parte do dito divino seja respeitada, dando a Cesar o que é de Cesar - ou ao tucano.

Ler 61 vezes

Comments fornecido por CComment