Quinta, 08 Novembro 2018 14:07

O ciclo de corrupção

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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(Publicado no blog em 4 de fevereiro de 2015)

A corrupção sistemática na Petrobrás teve início na metade dos anos 1990, segundo um dos integrantes desse jogo sujo pelo lado dos empresários, o engenheiro Augusto Mendonça, diretor da Setal Construções. Assim, o pagamento de propina a diretores da empresa e políticos começou no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Começou com certo movimento e foi se intensificando de tal maneira que a prática virou regra. Nessa condição, a negociação entre corruptores e corruptos foi substituída por uma rotina, seguida por todos aqueles que queriam ter contratos e dispor da possibilidade de superfaturar os seus serviços.

Todos tinham que pagar a taxa de 1% sobre o valor do contrato, mas a propina podia chegar a 2% se houvesse necessidade. O dinheiro era entregue em espécie ou transferido para contas no exterior. Parte dele ficava com diretores da estatal e outra parte repassada a políticos, que passaram a ter posição vitalícia na engrenagem.

O automatismo da operação foi “aperfeiçoado” em 2007, segundo o depoimento dado por Mendonça ao juiz Sérgio Moro, da Operação Lava-Jato. Nesse ano o cartel se organizou e passou a funcionar como um clube, com participantes certos, ação harmonizada e até um local para deliberar sobre quem ganharia os contratos e com qual preço.

O jogo da propina passou do PSDB para o PT, com uma inovação: o esquema político foi equiparado à engrenagem técnica, que manipulava os contratos de acordo com os acertos com as empresas. Muito mais dinheiro passou a fluir para os políticos. A princípio, como se o dinheiro fosse usado apenas para engordar o caixa 2 dos partidos, ampliando sua contabilidade paralela. Uma vez iniciado, porém, o processo clandestino serviu ao desvio de dinheiro para bolsos particulares.

Bilhões e bilhões de reais foram desviados das contas da Petrobrás para o enriquecimento ilícito de alguns ladrões de colarinho branco. A drenagem criminosa passou ao largo de presidentes, ministros e dirigentes da estatal ao longo de pelo menos 20 anos. Como entender tanta incompetência? Não dá mesmo para entender. É claro que houve convivência, se não houve usufruto.

A investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal chegou aos corruptores na iniciativa privada e na estatal do petróleo. Aproxima-se agora dos políticos, Se não perder o fôlego e a eficácia, desvendará integralmente essa aranha devastadora. É o maior caso de corrupção do Brasil, talvez do mundo. Por isso causará danos profundos. Desenvolvida com seriedade, abalará a estrutura produtiva do Brasil, prejudicando ou mesmo fulminando a vida de milhares de pessoas inocentes, como os empregados das empresas do cartel da propina. Será preciso estancar a hemorragia, se ela se tornar desatada,

Não por meio da proteção dos corruptos ou do acobertamento dos personagens escusos que ainda estão nos bastidores da ribalta. Uma delação premiada honesta e determinada levará à medida que mais interessa ao país: a redução da pena dos criminosos que assaltaram o caixa da Petrobrás como predadores insaciáveis e a devolução do máximo que for possível do dinheiro que desviaram.

As empresas poderiam voltar a funcionar, desde que saneadas por dentro e obrigadas a trabalhar sob novas regras, com maior controle externo e transparência total. Para que essas novas regras não virassem letra morta, os predadores seriam definitivamente afastados de qualquer proximidade com os cofres públicos, sejam eles técnicos, empresários ou políticos. Talvez assim o Brasil volte a funcionar saudavelmente.

Ler 144 vezes Última modificação em Domingo, 06 Janeiro 2019 12:09

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