Educação

Educação (36)

Sexta, 10 Maio 2019 12:37

Na educação

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O governador Helder Barbalho sancionou a lei que institui, a partir deste ano, o Programa Estadual do Transporte Escolar. Seu objetivo é garantir esse transporte aos alunos de ensino fundamental e médio, e educação de jovens e adultos da rede pública estadual, por meio de assistência financeira aos municípios.

Poderão, também, ser transferidos recursos do programa aos municípios que comprovarem a realização do transporte dos alunos residentes em área rural de seu território para escola da rede pública estadual localizada em outro município. O termo de adesão terá vigência de um ano e será prorrogado automaticamente.

O governo quer atender todos os 144 municípios do Estado. Vários fatores influirão na fixação do valor para cada um deles. Como exemplo é dado o de Marituba\: o município com menor área no Pará, de 103 quilômetros quadrados, receberá 190 mil reais. O maior é Altamira, com 160 mil quilômetros quadrados. Mas não foi informado o valor que lhe caberá.

Quando publica um decreto de tal envergadura, o governo deveria também divulgar o estudo que o fundamentou. Só assim a sociedade poderá avaliar melhor o significado da iniciativa, antes que ela se torne um fato pronto e acabado.

O mesmo raciocínio se aplica ao Programa Estadual de Alimentação Escolar, sancionado pelo governador para oferecer alimentação escolar aos alunos da rede pública de ensino, também publicado na edição de hoje do Diário Oficial.

Quinta, 14 Março 2019 10:44

Mais investigação

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O procurador-geral de justiça do Estado, Gilberto Valente Martins, determinou a instauração de quatro procedimentos de apuração de responsabilidade das empresas Pontual Distribuidora, Livraria Praça de Casa Forte, Carlos Neto Comércio de Livros e Bookpartners Brasil Editora e Distribuidora de Livros pela suposta prática de irregularidades em pregões eletrônicos na área educacional, realizados no ano passado.

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Quinta, 14 Março 2019 10:14

Imagens do horror

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Todos os brasileiros deveriam ser obrigados a ver o vídeo do massacre de ontem em Suzano, na Grande São Paulo, onde moram mais de 20 milhões de pessoas (se fosse um país, essa metrópole deslocaria o Chile da sexta colocação entre os mais populosos da América do Sul).

Valeria imensamente mais do que qualquer texto escrito ou documentário visual. Quem assistisse a esse curto vídeo, gerado por uma câmera de segurança instalado no hall de entrada da escola, onde começou a matança, poderia se chocar, se emocionar e se indignar. Certamente poderia também tirar lições de vida para tentar prever, prevenir e combater atos de violência como esse. A tendência é que se intensifiquem e se tornem ainda mais selvagens.

A reconstituição do atentado à sua mais remota origem, mais de um ano atrás, suscita logo uma questão: em quantos lares, espaços públicos ou privados e escolas se repete neste momento rotina semelhante? Em dezenas ou centenas de milhares? Em milhões delas?

Nesses cenários, que equivalem ao mitológico ovo da serpente, quantos pais, responsáveis, parentes e amigos sabem exatamente o que estão fazendo crianças, adolescentes e adultos que buscam ambientes isolados para se ligar a um universo ilimitado através de seus celulares conectados à internet?

Mais de um ano atrás, Guilherme, de 17 anos, e Luiz Henrique, de 25, começaram a frequentar espaços na internet dedicados à cultura da violência em suas múltiplas formas humanas e tecnológicas; Não só obtiveram fundamentos para sua adesão a esse tipo novo de fascismo como se adestraram na prática de um tipo de violência: assassinato coletivo. Não genericamente, mas na escola que ambos frequentaram.

A Escola Estadual Raul Brasil está bem acima do padrão médio dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio do país. Os dois amigos teriam motivos para se considerar privilegiados por terem estudado nela, bem instalada, com espaço verde nos seus limites, que oferece cursos de línguas estrangeiras.

Mas eles queriam se vingar de discriminação, maus tratos ou desprezo que poderiam ter sofrido por parte de colegas ou funcionários, por uma ótica de adolescentes infelizes, desajustados, em famílias instáveis ou conflituosas. Seu principal alvo eram estudantes que usavam sapatos caros, conforme o símbolo destacado por uma música que postaram como código de anúncio da barbárie que iriam instalar.

O adestramento foi através de jogos de games violentos, praticados intensamente. A dupla não tinha dinheiro suficiente para fazer treinamentos reais ou para se municiar à altura da matança massiva que pretendiam executar. Sem esses elementos, abundantes no atentado que resultou na morte da vereadora Marielle Franco, eles mesmos sabiam que o ato não seria precedido por preparação e instrumentação adequada. Tudo seria “natural”, como ressaltaram numa postagem, acompanhando o próprio ato.

É chocante a desproporção entre a truculência dos dois jovens e seu amadorismo como matadores frios. Mal se expressando, seria como se eles não estivessem credenciados para cometer um mal tão profundo e radical.

Dispuseram quase displicentemente da vida de terceiros, as 19 pessoas que tomaram por alvos, incluindo um tio de Guilherme, de 51 anos, executado em seu local de trabalho simplesmente porque desconfiava das intenções do sobrinho ou por vingança dele, demitido quando trabalhava com o tio por roubar dinheiro da loja de carros.

Guilherme, apesar de sete anos mais novo do que o comparsa, ficou com a arma mais potente que os dois tinham: o revólver calibre 38, já usado, adquirido provavelmente de um traficante, já que estava com o registro raspado. Guilherme retirou a arma da mochila e começou a atirar imediatamente, sem falar ou sequer mirar, sobre o grupo que se concentrava em frente ao guichê de atendimento da secretaria. Matou três pessoas e seguiu pelo corredor para dentro da escola.

Vinte minutos depois entrou Luiz Henrique, que repetiu o ritual, só que retirando da mochila uma machadinha, com a qual aplicou vários golpes violentos nos corpos das pessoas caídas ao chão. Em seguida, se abaixou para retirar a munição do revólver que trazia fixada à sua perna, quando a porta de comunicação com a saída da escola se abriu.

Eram os jovens que fugiam dos disparos de Guilherme. Luiz Henrique fica atarantado, confuso. Certamente porque a cena não constava dos games que eles jogaram para treinar. Embora selvagens e impiedosos no ataque às pessoas, eles eram assassinos amadores. Também seus ex-colegas eram amadores na condição de vítimas em matanças.

Um pouquinho de calma lhes teria revelado a possibilidade de atacar Luiz Henrique e prendê-lo diante da desproporção de força. Do “grande armamento” apregoado pela imprensa, restava ao segundo assassino, além da machadinha, um arco e flecha e uma versão estilizada da besta, uma arma medieval.

Desesperado por não poder evitar a fuga em massa, que não constava dos seus planos, Luiz Henrique atirou a machadinha contra um dos estudantes, tão assustado que pulou o muro da escola, correu por 300 metros em menos de um minuto, chegou ao hospital e foi a primeira vítima a receber tratamento médico.

Com a polícia já no local, os dois criminosos se juntaram, Guilherme matou Luiz Henrique e se matou com um tiro.

Fim da história? Para quem ver o vídeo, não. O Brasil precisa mudar.

Quarta, 13 Março 2019 20:02

Monstros domésticos

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Guilherme Monteiro, de 17 anos, entrou calmamente na escola. Deixou a mochila no chão, retirou um revólver 38 e começou imediatamente a atirar contra um grupo de alunos e funcionários que estavam em torno do ponto de atendimento da secretaria. Acertou três pessoa, que caíram. Tirou o casaco que vestia e seguiu pelo corredor para o interior da escola.

Vinte segundos depois, quem entrou foi Luiz Henrique de Castro, de 25 anos. Carregando mais objetos, ele deixou um arco e flecha no chão, junto da sua mochila, dentro da qual havia uma besta (arma equivalente usada na Idade Média). Observando as três vítimas no chão, tirou uma machadinha e aplicou vários golpes violentos em todas elas. Se ainda estavam vivas, morreram naquele momento. Depois, começou a tirar balas fixas à perna quando estudantes invadem invadem a sala de entrada, desesperados, em fuga. Luiz Henrique tenta evitar que saiam, aplicando golpes de machado, mas todos escapam e ele segue pelo mesmo caminho de Guilherme.

Até esse ponto uma câmera de segurança registrou a invasão da escola Professor Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, que resultou em 10 mortos e 11 feridos. Apesar da diferença de idades, Guilherme e Luiz Henrique, vizinhos na mesma rua, andavam sempre juntos, frequentando lan-houses ou isolados em suas casas, em famílias de classe média, numa cidade calma e de bom padrão de vida para seus quase 300 mil habitantes. 

Eram viciados na internet e em games de combate, fãs de armas, fascinados pela violência, entusiastas de ataques sanguinários, inimigos de minorias, admiradores de terroristas, acumulando centenas de horas no cultivo dessas fontes de referência.

As duas famílias se diziam chocadas com a tragédia criada pelos dois. Não tinham como explicar o que fizeram. Estavam surpresas. Nunca chegaram a conhecer os dois assassinos gestados em suas casas.

Quarta, 13 Março 2019 16:45

A tragédia de Suzano

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A tragédia de Suzano, com saldo de 10 mortos e 9 feridos, não aconteceu por um impulso - alucinado e de momento - dos assassinos. Sua origem mais remota deve estar nas famílias dos dois personagens principais. Só uma investigação mais demorada poderia remontar ao nascedouro desse ato de barbárie.

Pelas informações disponíveis, pode-se começar a contá-la a partir do momento em que Guilherme, então com 15 anos, decidiu abandonar a escola estadual de ensino médio e fundamental professor Raul Brasil. Uma escola destacável no panorama geral do ensino público brasileiro. Bem instalada, com quase 1,2 mil alunos, dispondo de um centro de línguas (espanhol, italiano, francês, japonês e alemão). Nada parecido há em Belém do Pará, que tem cinco vezes mais habitantes do que Suzano, na região metropolitana de São Paulo.

O aluno não voltou à escola em 2018. Só se apresentou neste ano. Aparentemente, foi bem recebido pela direção da escola. Mas não se tem notícia de averiguação sobre o motivo do abandono da escola no ano passado e das condições de Guilherme, já com 17 anos. Sabe-se que ele vivia sozinho na casa da avó, talvez porque os pais se tivessem separado.

A volta às aulas já integrava o projeto insano. Com seu colega no ataque à escola, de 25 anos, Guilherme e Luis Henrique se informavam sobre armas. Planejaram e ensaiaram o que iriam fazer quando invadissem a escola. Essa preparação deve ter durado muitos dias, o bastante, provavelmente, para que pais, parentes e amigos pudessem ter percebido alguma anormalidade no comportamento dos dois.

Eles amanheceram o dia com a estratégia definida. Pegaram um revólver calibre 38, com o registro raspado, munição e equipamento de recarregamento, mais uma besta (arma medieval) e arco e flecha, além de um machadinho. Foram à revenda de automóveis do tio de Guilherme e o balearam, matando-o. Roubaram um carro e seguiram nele para a escola. Estacionaram em frente ao prédio, desceram com tranquilidade e caminharam pausadamente pela entrada principal, que estava aberta na hora da merenda. Vestiram uma máscara de caveira. Encapuzados, começaram a matança. Só interromperam o massacre porque uma guarnição da Polícia Militar, chamada para atender o assalto à revenda e seguindo a pista, chegou à escola. Foi então que os dois se suicidaram ou um deles matou o comparsa e se suicidou.

Todos os cinco alunos executados eram do sexo masculino. Só eram mulheres as duas funcionárias assassinadas.

Informação que ilumina o caminho para uma investigação competente da tragédia de Suzano.

Quarta, 13 Março 2019 15:48

Um choque

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Talvez nenhum país no mundo tenha condições de prever ou impedir que ocorram tragédias como a que aconteceu hoje em Suzano, na Grande São Paulo. Nenhuma pode passar incólume a um acontecimento desse significado. Todo seu território continental, habitado por mais de 200 milhões de pessoas, foi varrido por uma onda de choque e horror. "Antes, isso não acontecia no Brasil", declarou o vice-presidente da república, general Hamilton Mourão.

Massacres em escolas são uma novidade. A última aconteceu quase 10 anos atrás. Mas o catálogo de selvagerias, barbaridades e abusos tem poucas realidades equivalentes ou assemelhadas em todo planeta Terra. Talvez as escolas só estejam sendo alcançadas por essa violência epidêmica por uma circunstância qualquer que desviou a criminalidade para outros locais antes impensáveis, como hospitais e igrejas. Mas certamente contribuiu para o início de um ataque como o de hoje a falta de investimentos públicos para melhorar a qualidade da educação, o cantochão comum no coro dos políticos e autoridades públicas que a proclama como indispensável ao desenvolvimento nacional.

A qualidade não se restringe a instalações físicas, material escolar ou mesmo segurança. Ela tem que incluir atenção, acompanhamento e intervenção em relação ao ser humano que vai às escolas como aluno. Equipes multidisciplinares de profissionais como psicólogos e pedagogos, com os equipamentos necessários para exercer seu trabalho e contingente proporcional aos desafios que a convivência atual impõe, precisam ser formadas.

Um elemento fundamental é a integração entre a escola e as famílias. Os pais não podem mais deixar que seus filhos sejam (des)educados pela internet, através dos seus celulares, invenção maravilhosa que traz consigo, se não for bem acompanhada e tratada, desvios e patologias psicológicos graves, que podem ocasionar tragédias como a de hoje. O governo e todo aparato institucional têm que ser cobrados, mas uma mudança em profundidade e intensidade que dê a resposta devida a este trauma só acontecerá se os pais redescobrirem os seus filhos, afastando da relação humana, quando necessária, essa máquina terrível.  Só assim impedirão que os quartos de crianças e adolescentes se transformem em laboratório do horror.

Segunda, 21 Janeiro 2019 11:02

Direito em crise

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Segundo a seccional local da Ordem dos Advogados do Brasil, há 17 mil advogados no Pará. Em média, um advogado para cada grupo de quase 470  pessoas no Estado. No Brasil, há pouco mais de um milhão de advogados, média de 37 mil por cada unidade da federação É um número espantoso.

O mercado, evidentemente, está congestionado. Os honorários foram aviltados. Os iniciantes enfrentam dificuldades crescentes para o exercício da profissão. A qualidade profissional cai. Mesmo assim, há mais cursos e mais estudantes formados. No início da temporada de matrículas, a disputa por novos alunos se tornou feroz. A propaganda oferece vantagens e descontos como nunca antes para atrair matrículas. É o darwinismo social jurídico.

Sábado, 19 Janeiro 2019 13:28

Mãos bobas

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A produção das cerimônias de formatura de estudantes está se tornando uma ginkana perigosa.

Seus rituais são cada vez mais competitivos, na busca por originalidade, inventividade, criatividade ou ousadia. O que deveria ser um ato único ou, no máximo, duplo (a diplomação e a festa), se torna múltiplo. A simplicidade e a naturalidade são substituídas pelas normas das empresas de cerimonial. Tudo fica demorado, chato e abusivo para quem escapa à emoção compulsiva e mantém seu senso crítico.

Talvez os alunos do curso de educação física do campus da Uepa em Tucuruí tenham dado - involuntariamente - sua contribuição para estancar essa hemorragia de cerimonialismo - e de dinheiro dos pais. Os homens, compassivamente sentados à frente das colegas, que ficaram em pé atrás, decidiram fazer um sinal com as mãos, juntando a ponta dos dedos e abrindo a palma. A direção da universidade entendeu que eles simulavam o órgão genital feminino, numa linguagem bem chula e popular. Por isso, suspendeu os estudantes e deixou de lhes entregar o diploma, além de instaurar sindicância administrativa para apurar os fatos.

Um professor do curso, Cláudio Borba, deu outra interpretação ao gesto. Sustentou que o gesto dos educadores físicos simbolizou "poder, força, coragem, fertilidade".

Pode-se concluir então que uma interpretação complementa a outra, ao invés de excluí-la. E que os originais formandos se tornaram merecedores - quando não fosse de punição - de reprovação. Com eles, os que transformaram as formaturas numa extensão dos reality shows.

Sábado, 19 Janeiro 2019 12:27

Eunice nota mil

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A manchete da primeira página de O Liberal de hoje é dedicada à paraense que tirou a nota máxima na redação da prova do Enem. Não houve exagero na decisão editorial. O fato merecia até um sinal de exclamação no título da matéria, para traduzir com exatidão o entusiasmo dos conterrâneos de Eunice Costa, de 24 anos, moradora do Benguí, bairro pobre da periferia de Belém.

Ela foi um dos 55 candidatos (de um total de 3,3 milhões que fizeram o teste, para 5,5 milhões de inscritos, com uma abstenção de 24%) a tirar a nota máxima na redação, alcançando os mil pontos. É a elite das elites. Em compensação, 113 mil tiraram zero - ou porque deixaram a página em branco, fugiram do tema ou copiaram o tema motivador.

O tema deveria ter sido considerado fácil: "a manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet". A dissertação deveria ser complementada por uma proposta de intervenção.

Os jovens são usuários (geralmente abusivos) da rede mundial de computadores. Deveriam ter alguma intimidade com o tema. Mas não têm. São usuários apressados, superficiais, intensos na permanência diante da máquina, mas não na reflexão sobre o que ela significa. São, portanto, vítimas de uma tecnologia à qual se entregaram como meros consumidores. Com seu comportamento à mercê da manipulação.

Eunice mesmo se surpreendeu pelo tema. Teve uma boa assimilação por intuição (revelou-se inteligente e perceptiva), experiência (concluiu o curso médio em 2011 e desde então faz vestibular) e uma circunstância especial (abandonou os cursinhos e passou a estudar sozinha, recorrendo a ajuda externa apenas para melhorar em redação). Sua trajetória de estudante desafia as explicações convencionais e generalistas sobre a qualidade da educação no Brasil. Deveria impor aos pesquisadores e ao governo uma profunda revisão sobre a melhor maneira de enfrentar as desigualdades sociais e econômicas para possibilitar o mínimo de isonomia aos pretendentes ao curso superior.

O jornal O Estado de S. Paulo mostrou, hoje, que alunos pobres têm apenas 0,16% de possibilidade de estar entre os melhores do Exame Nacional do Ensino Médio, o meio mais eficiente de chegar à universidade. Já os estudantes com nível socioeconômico maior, têm 25% de oportunidade de estar entre os grupos com as maiores notas.

Logo, a atual política de inclusão escolar através de cotas na entrada na academia é de baixa eficiência, quando não ilusória - ou vã.

Eunice Costa é uma heroína. Desde 2013 ela tenta o curso de medicina, mas não permitiu uma análise sobre as suas chances de, finalmente, ser vitoriosa nessa opção. Ela se recusou a revelar a sua pontuação geral, que inclui, além da redação, as questões objetivas da prova. Um detalhe, é claro, que não ameaça a importância da façanha que ela realizou, mas priva a opinião pública de ter acesso a uma informação importante.

Sábado, 19 Janeiro 2019 12:27

Eunice nota mil

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A manchete da primeira página de O Liberal de hoje é dedicada à paraense que tirou a nota máxima na redação da prova do Enem. Não houve exagero na decisão editorial. O fato merecia até um sinal de exclamação no título da matéria, para traduzir com exatidão o entusiasmo dos conterrâneos de Eunice Costa, de 24 anos, moradora do Benguí, bairro pobre da periferia de Belém.

Ela foi um dos 55 candidatos (de um total de 3,3 milhões que fizeram o teste, para 5,5 milhões de inscritos, com uma abstenção de 24%) a tirar a nota máxima na redação, alcançando os mil pontos. É a elite das elites. Em compensação, 113 mil tiraram zero - ou porque deixaram a página em branco, fugiram do tema ou copiaram o tema motivador.

O tema deveria ter sido considerado fácil: "a manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet". A dissertação deveria ser complementada por uma proposta de intervenção.

Os jovens são usuários (geralmente abusivos) da rede mundial de computadores. Deveriam ter alguma intimidade com o tema. Mas não têm. São usuários apressados, superficiais, intensos na permanência diante da máquina, mas não na reflexão sobre o que ela significa. São, portanto, vítimas de uma tecnologia à qual se entregaram como meros consumidores. Com seu comportamento à mercê da manipulação.

Eunice mesmo se surpreendeu pelo tema. Teve uma boa assimilação por intuição (revelou-se inteligente e perceptiva), experiência (concluiu o curso médio em 2011 e desde então faz vestibular) e uma circunstância especial (abandonou os cursinhos e passou a estudar sozinha, recorrendo a ajuda externa apenas para melhorar em redação). Sua trajetória de estudante desafia as explicações convencionais e generalistas sobre a qualidade da educação no Brasil. Deveria impor aos pesquisadores e ao governo uma profunda revisão sobre a melhor maneira de enfrentar as desigualdades sociais e econômicas para possibilitar o mínimo de isonomia aos pretendentes ao curso superior.

O jornal O Estado de S. Paulo mostrou, hoje, que alunos pobres têm apenas 0,16% de possibilidade de estar entre os melhores do Exame Nacional do Ensino Médio, o meio mais eficiente de chegar à universidade. Já os estudantes com nível socioeconômico maior, têm 25% de oportunidade de estar entre os grupos com as maiores notas.

Logo, a atual política de inclusão escolar através de cotas na entrada na academia é de baixa eficiência, quando não ilusória - ou vã.

Eunice Costa é uma heroína. Desde 2013 ela tenta o curso de medicina, mas não permitiu uma análise sobre as suas chances de, finalmente, ser vitoriosa nessa opção. Ela se recusou a revelar a sua pontuação geral, que inclui, além da redação, as questões objetivas da prova. Um detalhe, é claro, que não ameaça a importância da façanha que ela realizou, mas priva a opinião pública de ter acesso a uma informação importante.

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