Política

Política (377)

Domingo, 19 Maio 2019 15:23

O pesadelo

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Jair Bolsonaro era o homem errado na hora certa no lugar certo.

A maioria do povo brasileiro queria um anti-Lula. Buscava uma alternativa à direita do que a esquerda vinha fazendo no poder. Era uma aspiração legítima e bem fundamentada. A parte amplamente majoritária da sociedade experimentara a consumação do desastre na primeira metade do segundo mandato de Dilma Rousseff. Evidentemente, ela não caiu por irregularidades formais de gestão da administração pública, que tantos outros antes dela praticaram também, Caiu porque deixá-la no poder significaria sujeitar o Brasil aos riscos do pior governo de toda história republicana.

Dilma não foi deposta por um golpe militar, mas por inviabilidade econômica utilizada pela maioria política no parlamento. As instituições continuaram a funcionar regularmente, na precariedade de sempre. Quem assumiu foi o vice-presidente. Azar do país que o jurista Michel Temer integrasse uma organização criminosa aboletada em parte da estrutura estatal. Não fora assim, ele teria feito a correção de rumos e a reforma à direita de que a nação carecia naquele momento.

Por mediocridade e pusilanimidade, Temer recebeu, em noite soturna, nos porões da residência oficial, Joesley Batista, um dos frutos do BNDES lulista e dilmista. Assinou ali sua sentença de morte. Ou melhor: a prova da sua culpa, que está sendo utilizada contra ele no devido processo legal, sem romper a ordem democrática vigente no Brasil.

Menos de cinco meses depois de eleito, Jair Bolsonaro se revela como uma versão direitista de Dilma Rousseff, ampliada e agravada, o que parecia impossível. Ele foi eleito por ser de direita. Não é isso o que importa. O que importa é que ele mão sabe o que diz, muito menos o que faz. O que importa é que ele não exerce o comando legal do Brasil.

Age através de um comando digital no exterior, destituído de coerência ou compromisso com a realidade, numa pantomima que contrasta com a gravidade da conjuntura nacional num momento extremamente delicado da história mundial. Delega competência de porta-vozes clandestinos aos filhos, que integram organizações informais e extra-legais de profundidade ainda insondável. Numa sucessão de organizações criminosas, o Brasil tinha que chegar a uma família criminosa.

Embaraçado nessa teia de urdiduras criadas por sua própria incompetência, com doses de insanidade e truculência, Bolsonaro & família ameaçam romper todos os elos da normalidade, sob a alegação de serem vítimas de uma conspiração corporativa e política armada contra sua ação salvadora e salvífica. Febril e irreal, a tese transforma num universo de reações amplo e diverso, que inclui empresários, atores políticos e personagens como a TV Globo e o jornal O Estado de S. Paulo numa milícia de esquerda.

Trama que já inclui bolsonaristas arrependidos e direitistas conscientes. Brasileiros que não querem voltar ao passado nem atos de voluntarismo malsão, como o impositivo Lula Livre, à margem da mesma apuração que atinge Lula e não inclui a desastrosa Dilma, certamente por não ter provas de que ela agiu pessoalmente como seu padrinho. O mal que ela fez é muito maior, sem ser da mesma natureza do antecessor.

Tomara que o Brasil sobreviva a esse pesadelo. Que a luz solar que cobre esta imensa nação prevaleça sobre as trevas projetadas pelo homem errado na hora certa no lugar certo.

Quarta, 15 Maio 2019 11:27

A guerra acabou

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Mais um passo na reconciliação dos Barbalho com os Maiorana foi dada na edição de hoje do Diário do Pará. A colunista social Carmem Souza pôde dar a foto de Helder Barbalho junto com a de Ronaldo Maiorana, ao lado da esposa, Valéria, filha do empresário Lutfala (Maria) Bittar, que faz aniversário na mesma data do governador. A foto do dono do jornal saiu maior, no alto da página, mas a do dono do grupo Liberal logo abaixo, com destaque.

Até menos de dois anos atrás, esse fato não só era impossível como impensável. A derrubada de Romulo Maiorana Jr. do comando da corporação, em setembro de 2017, por seus irmãos, pôs fim à rivalidade e à autêntica guerra que travavam há três décadas. Comercialmente, mantêm a disputa de mercado, mas politicamente se tornaram aliados, o que permitiu a veiculação de publicidade do Estado nos veículos do grupo Liberal. Os vetos a referências mútuas foram eliminados. Agora, a relação é de parceiros, aliados e bons vizinhos.

Quarta, 15 Maio 2019 11:25

Mérito precoce

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Helder Barbalho talvez seja o governador - ou qualquer outra autoridade pública do Pará - que mais precocemente recebeu a medalha de mérito industrial Simão Miguel Bitar da Federação das Indústrias do Estado. Mal completou o primeiro quadrimestre da sua gestão, a Fiepa já o julgou merecedor da homenagem, como se ele já fez o suficiente para assegurar que, daqui pra frente, o Pará vai beneficiar - ao invés de dilapidar - suas abundantes matérias primas, tirando do arquivo o projeto de industrialização.

A honraria, de imediato, rendeu 15 anúncios na edição de hoje do Diário do Pará, o jornal do governador. As maiores, com uma página cada, foram do supermercado Formosa e da Imerys, a fabricante de caulim de Barcarena, de capital francês. As outras peças foram pagas pela Radiocomm, Tampico/Okey, Loc Engenharia, Trânsito, Asbep Benefícios, CDL (liderando organizações do comércio varejista), Mendes e Mendes Advocacia e Consultoria, Grêmio Literário Português, Ksk Gráfica e Editora, Mercúrio Alimentos, Hileia e grupo Status.

Sertia bom acompanhar a relação desses anunciantes com o governo, que certamente será engrossada por outros comemoradores, para verificar até onde vai a admiração por Helder Barbalho.

Terça, 14 Maio 2019 15:22

Corruptos na mira

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A votação no Superior Tribunal de Justiça ainda não terminou, mas já está garantida a soltura de Michel Temer. Acho que a decisão é correta. Não se justifica a prisão preventiva do ex-presidente, pelos motivos técnicos sólidos e abundantes apresentados pelo relator do habeas corpus e os demais membros da turma. O devolução da liberdade a Temer, com as cautelares impostas, não impedirá que a a ação em questão chegue ao seu fim com a sua condenação e a aplicação de pena severa pelos crimes de que é acusado de ter cometido.

Os defensores da liberdade para Lula certamente apontarão a contradição e baterão novamente no tratamento diferenciado. Mas não há medida de comparação. Lula foi preso depois de condenação em segunda instância. Permaneceu livre durante a instrução processual e a condenação em 1º grau, pelo então juiz Sérgio Moro. É nesse momento processual que se encontra esta primeira ação contra Temer. Logo, ele não está recebendo tratamento privilegiado ou favorecido. Muito pelo contrário.

O mais importante e adequado ao momento é que esteja sendo processado com rigor e até excesso, não aplicado a Lula, porque já foi preso duas vezes quando ainda nem foi interrogado e a produção de provas foi apenas iniciada. Com as cautelas devidas, ele terá que permanecer em liberdade para que seja submetido ao devido processo legal, com direito ao contraditório e à ampla defesa. Pelas provas já reunidas, dificilmente escapará à condenação.

Três décadas após o início da persecução aos crimes de colarinho branco no Brasil, a regra da impunidade e até da condição de privilégio dos que roubam o erário, o Brasil avançou muito, graças, principalmente, à Operação Lava-Jato.

Terça, 14 Maio 2019 10:22

Naufrágio da grandeza

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É impossível não presumir que o destino do Brasil é ser grande. Ele o é de fato, sendo o 5º maior em população e em extensão do planeta. Tem rara diversidade física, humana e cultural. Ainda assim, é real a sua unidade básica, a sua identidade. Chega-se a essa conclusão depois de percorrer o país ou simplesmente fazendo uma caminhada mais longa por qualquer das grandes cidades, antes de escolher um lugar remoto para repetir a experiência. De um ponto a outro o país tem riquezas naturais a oferecer para quem quer trabalhar, produzir, crescer.

A dúvida, porém, começa com uma leitura mais atenta da história nacional. Ao final, chegando aos tempos atuais, fica-se com o gosto travo de que o Brasil desperdiçou todas as oportunidades que a história lhe ofereceu de ser grande. Estivemos à beira do topo do mundo. Faltou sempre um passo, o derradeiro passo para ombrear com as grandes nações. A falta de força para esse movimento tem origem no desprezo pela qualificação das pessoas, pelo componente de civilização e civilidade nos nossos projetos de crescimento, de atenção à nossa própria história e à dos povos que venceram. Daí a piada masoquista: Deus nos reservou um dos melhores lugares da Terra, mas nela colocou uma gente chinfrim - nós mesmos, que repetimos a história cruel, ainda que verdadeira, sem aprender a lição e sem mudar.

Depois do grande erro de Fernando Henrique Cardoso, de subestimar a avassaladora crise internacional (erro assemelhado ao do prussiano general Geisel, o mais qualificado dos presidentes do ciclo militar da ditadura, que não viu a explosão do petróleo e dos juros), que transformou seu pretenso castelo fiscal, monetário, cambial e econômico num monte de cartas de baralho, a reversão da maré das commodities fez Lula surfar na onda do "superciclo". 

Olhando só para frente e confiando nos seus instintos políticos, Lula imaginou que desta vez o Estado empresário e fonte da legitimidade patrimonialista levaria o Brasil para as culminâncias internacionais e ele seria candidato invencível a qualquer prêmio Nobel, o maior líder popular de todos os tempos. Sua cria desvalida pensou a mesma coisa - e deu no que deu, a ruína do Estado arrastando sua bela obra efêmera, chuva de verão, brilho de fogo-fátuo, fantasia para fanático tomar por realidade. 

Na reversão do castigo, surgiu o Messias - desarvorado, imprevisível, incontido, caótico, sem rumo, sem preparo. Um Behemoth combinado com Leviatã, que está conseguindo a façanha de tornar seus militares em emblema de racionalidade e democracia, no qual parcelas crescentes da população depõe suas esperanças de que o Brasil, ao invés de grande potência, não mergulhe de vez no surrealismo, sem garantia de retorno à superfície da racionalidade.

Segunda, 13 Maio 2019 19:12

O Dilmês

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Se continuar na marcha batida em que se encontra, Jair Bolsonaro vai tirar de Dilma Rousseff o título de pior presidente da história da república brasileira. Se acontecer, não será pequena a façanha. Parecia que ninguém mais incompetente seria eleito para mandar no país a partir da onerosa Brasília.

Tomada por um conveniente autismo ou uma estratégica esquizofrenia, a ex-presidente esquece que talvez Bolsonaro nem fosse candidato competitivo às últimas eleições se ela, com seu voluntarismo inconsequente e sua primária visão do mundo, não tivesse conduzido o Brasil à beira do abismo, ao qual Bolsonaro agora se empenha em fazer a nação avançar.

No seu blog, a “super-gerente” inventada por Lula lança a palavra de ordem: “Se eles destruíram nosso presente, cabe a nós salvar o futuro do País”. Da sua desastrada administração, de um parvo e anacrônico entendimento do keynesianismo (do investimento estatal como motor do desenvolvimento e do pleno emprego dele como produto), resultou no imenso buraco fiscal e na dilapidação de recursos públicos. Sem querer, evidentemente, Dilma viabilizou seu impeachment e a ascensão de Temer, discussões metafísicas sobre o golpe de 2016 à parte.

Apostando na desmemoria nacional e no fanatismo dos seus seguidores, a madona do Dilmês empunha a bandeira de defesa da educação superior, atingida pelo corte de 30% determinado pelo governo às universidades federais. A iniciativa pode ser danosa, tem essas características. Mas antes de lançar a guerra santa, as universidades poderiam promover audiências públicas para submeter a debates as medidas do governo e se sujeitar às críticas que regularmente lhe são feitas pelo mau uso ou dissipação das verbas públicas, fato evidente antes de Bolsonaro chegar ao poder.

A próxima quarta-feira, 15, o Dia Nacional de Luta, de mobilização contra a reforma da previdência, poderia ser a oportunidade para audiência pública sobre os orçamentos das universidades, o esclarecimento dos fatos e a formulação de iniciativas a adotar. Dentre as quais afastar da liderança os que perderam a razão e a legitimidade para liderar qualquer coisa pública no Brasil, como Dilma Rousseff.

Segunda, 13 Maio 2019 16:58

Crise ambulante

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O senador Flávio Bolsonaro não deixa de ter razão quando diz que seus críticos o atacam visando atingir seu pai. Mas nenhum desses atacantes externos conseguem fazer mais mal a Jair Bolsonaro do que os seus filhos. Exceto, talvez, apenas o próprio Bolsonaro. Desde que assumiu o cargo, ele dispensa inimigos na capacidade permanente de gerar crises, descréditos e problemas que dificultam - e começam a inviabilizar - o exercício do governo. Até onde irá?

Segunda, 13 Maio 2019 14:15

Morrer com honra

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Sérgio Moro estava certo quando, na condição de juiz, declarava não ser nem pretender ser político. Ao por fim abruptamente à carreira de 22 anos na magistratura e aceitar ser ministro do executivo federal, sua presunção de inocência acabou. Passou a ser sua obrigação (ou dever) se tornar político.

Não precisava aderir a um partido, mas teria que ser político para justificar, dignificar e honrar a desconcertante renúncia que assumiu,  no auge do principal conjunto de ações judiciais contra a corrupção, a maior ofensiva na história brasileira. O pensar político exige visão de longo prazo combinada com percepção profunda do cotidiano, sustentando as ações na compreensão do passado, diagnóstico do presente e intuição do futuro.

Neófito e imprudente, o poderoso juiz Sérgio Fernando Moro foi golpeado por um membro do baixo clero do parlamento nacional, o ex-deputado e atual presidente Jair Bolsonaro. A declaração que ele deu neste fim de semana foi uma rasteira primária no seu ministro da justiça, queimando-o sem precisar atacá-lo ou demiti-lo.

Antecipando (exageradamente) que indicará Moro para ocupar a primeira vaga a ser aberta no Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro despejou o ex-juiz ao ar livre da exposição a sol e chuva, ao desgaste constante até novembro do ano que vem, quando o decano do STF, Celso de Mello, será obrigado a se aposentar, por atingir 75 anos, a idade-limite do serviço ativo na corte. Ele sangrará até a inanição, jogado ao fosso das feras. Mesmo que sobreviva, ficará diminuído. Nunca mais será o super-ministro, depois de tantos ziguezagues, contradições e omissões para acompanhar o presidente, cada vez mais à sua sombra.

Se quiser retomar a sua biografia, cabe a Sérgio Moro uma renúncia dignificante, a morte com honra.

Segunda, 13 Maio 2019 10:22

A morte dos sonhadores

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Como pode "um simples canalha matar o rei"? perguntam Beto Guedes e Ronaldo Bastos numa lindíssima canção que compuseram para Milton Nascimento no início dos anos 1980. A pungente revolta dos dois compositores é partilhada por um número crescente de pessoas, atingidas diretamente pelos crimes ou informadas sobre assassinatos cometidos por motivos pueris, torpes ou pela felonia do crime de encomenda, praticado por milícias ou pistoleiros contratados individualmente para eliminar desafetos ou (na perda especificamente lamentada pelos artistas do Clube de Esquina de Belo Horizonte) sonhadores.

Não um sonhador qualquer, de ocasião, do sonho fácil e efêmero: o sonhador que "já sonhou demais", sonhando sem parar porque embarcou no trem da história e não se acovardou, como os que se escondem diante de um novo mundo. São as pessoas indispensáveis, as que fazem a máquina do tempo andar mais rápido, de forma mais justa ou mais humana. 

Por que então, estrela amiga, "você não fez a bala parar?", cobram Beto e Ronaldo pela voz cristalina de Milton Nascimento, talvez num balanço das mortes infames dos anos de chumbo e na premonição das mortes infames sob a democracia que se avizinhava. Por que essa ave-bala continua a voar sobre a cabeça dos seres humanos, vítimas da canalhice de outros seres ditos humanos, como também cobrava o poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto?

Ao leitor, a pergunta.

Domingo, 12 Maio 2019 19:10

Todos são Barbalho

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Helder Barbalho talvez seja o governador que mais fez nos primeiros 100 dias de mandato. Se fez bem ou mal, é outra questão. A avaliação ainda é provisória porque, à exceção de algumas críticas pelas redes sociais, nem sempre inspiradas por diretrizes jornalísticas, a imprensa - a grande e a auxiliar ou acessória - está inteiramente ao lado dele. Também não por seguir uma linha editorial independente e autônoma. Por escolha derivada da análise dos fatos.

Helder talvez seja também o governador que mais veiculou anúncios na imprensa nos 100 dias iniciais da sua gestão. A massiva e maciça propaganda, que se aproveita até deste dominical dia das mães, colide com o discurso da escassez e da herança maldita do antecessor, que teria deixado um rombo de 1,5 bilhão de reais. É também um exagero para celebrar e alardear as realizações do governo quando vencido apenas o primeiro trimestre do ano. Ainda faltam 15 trimestres.

Essa gastança com propaganda também fere a ética e a moralidade. O governador está autorizando o pagamento de abundantes peças publicitárias para os veículos da sua própria família, tanto para o jornal Diário do Pará quanto para as emissoras do grupo RBA. Uma mão, com a luva de pelica do poder estatal, retira dinheiro dos cofres do erário e o entrega à outra mão, do empresário, ignorando que elas integram o mesmo corpo e que essa condição deveria impor moderação e abstinência ao detentor das chaves do tesouro estadual. Se não, vira promiscuidade, como virou.

Politicamente, conduzindo seu filho, o senador Jader Barbalho é o responsável, em última instância, por uma façanha política que parecia irrealizável: obteve o apoio do grupo Liberal, até dois anos atrás seu incansável inimigo e perseguidor. Nem o mais antigo e fanático "baratista" (do caudilho Magalhães Barata, que está na origem política dos Barbalho e respaldou o poder dos Maiorana) poderia conceber essa hipótese. Não se trata, porém, de obra de alquimia. Nem milagre dos astros.

Pela primeira vez desde que a disputa política no Pará se tornou desgraçadamente plebiscitária, a partir da oposição entre Lauro Sodré e Antônio Lemos, mais de um século atrás, adquirindo sua última versão na dialética rasteira entre tucanos e "barbalhistas", toda imprensa está ao lado do governador. Não é façanha barata, muito pelo contrário.

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