Cidades

Cidades (136)

Quinta, 02 Maio 2019 18:55

Caos no lixo

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A 5ª promotora de justiça de Marituba, Ana Maria Magalhães de Carvalho, que atua na defesa do urbanismo e do patrimônio cultural, instaurou inquérito civil para investigar a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade e a empresa Guamá Tratamento De Resíduos Ltda.

O motivo é a demora por parte da secretaria em analisar o pedido feito pela Guamá para a expedição da autorização para implantação da etapa 2B, que possibilitaria a ampliação da capacidade para recebimento de resíduos da região metropolitana de Belém.

A secretaria também não expediu autorização para a construção da lagoa adicional nª 15, com capacidade para 30 mil metros cúbicos de chorume, próxima à lagoa adicional 12 e 14, com 180 metros de comprimento. Como consequência, a empresa alegou a impossibilidade de realizar a ampliação necessária para prosseguir operando na central de tratamento de resíduos de Marituba.

Esse fato “gera a expectativa de caos na RMB em face da inexistência de outro local ambientalmente adequado para disposição dos resíduos sólidos dos municípios de Marituba, Ananindeua e Belém”, segundo o ato baixado pela promotora.

Domingo, 14 Abril 2019 12:21

Casa própria

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Os invasores chegaram primeiro, na noite de 16 de dezembro do ano passado, e ocuparam as 480 unidades do Residencial Ebenezer, em Ananindeua, financiado pela Caixa Econômica Federal, como parte do programa Minha Casa, Minha Vida. Os verdadeiros compradores dos imóveis ficaram de fora. Hoje, quatro meses depois da invasão, foi publicado o edital de reintegração de posse à Caixa, com medida liminar concedida pela juíza da 5ª vara da justiça federal em Belém, Lorena de Sousa Costa. Vai começar mais um processo difícil, que começa pela falta de guarda do patrimônio, combinado com a pressão pela casa própria e a ação de intermediários inescrupulosos (ou mesmo criminosos), e pode terminar com o uso de força, tanto da PM quanto da polícia Federal.

Sexta, 12 Abril 2019 11:42

MPE libera edifício

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O Ministério Público do Estado constatou “não ter havido irregularidades no processo de licenciamento para construção” do edifício. Giardini pela empresa MB Capital. “Logo, não há que se falar em ofensa ao patrimônio histórico que fica em torno da construção do imóvel. visto que após a realização de várias diligências restou comprovado” que o empreendimento estava legal. Ele se localiza na avenida Gentil Bittencourt com a Serzedelo Corrêa, num ponto nobre da cidade.

Com essa conclusão, o Conselho Superior do MPE, à unanimidade, acompanhando o voto do relator, decidiu pelo conhecimento e pela homologação da decisão de arquivar o processo, que tramitava pela 2ª Promotoria do Meio Ambiente, Patrimônio Cultural e Habitação e Urbanismo de Belém.

A denúncia foi apresentada pela Associação dos Amigos do Patrimônio de Belém contra o processo de licenciamento da construção junto à Fumbel e à Seurb.

Sexta, 12 Abril 2019 11:24

Um milhão no teatro

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O governo do Estado está disposto a gastar quase um milhão de reais (exatos R$ 949.674,15) nos reparos no telhado e restauro de ambientes internos afetados pela infiltração no Teatro da Paz. Os serviços compreendem “o fornecimento dos materiais, mão de obra com leis sociais, equipamentos, impostos e taxas e todas as despesas necessárias à completa execução da obra”.

A empresa contratada, a GM Engenharia, de responsabilidade de Helder Moreira Cândido, apresentou “as especificações e características do objeto constantes no Termo de Referência e na proposta comercial”, a partir de uma “consulta emergencial de preços, juntamente com outras duas empresas do ramo”. O contrato, assinado pela secretaria de Cultura, tem validade até 31 de julho deste ano.

Terça, 26 Março 2019 16:48

190

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Uma hora da tarde de hoje. Um cidadão surinamês, cliente de um restaurante do centro de Belém, se sente mal, com sinais de epilepsia. O dono da casa liga para o 190. Quem atende promete que em 20 minutos a ambulância estará no local. Mas ela não chega.

Um servidor do Ministério Público do Estado decide ligar, se apresentando com sua qualificação. A mesma funcionária muda de história; lamenta que não há nenhuma ambulância disponível. O funcionário do MPE pede a ajuda de um bombeiro. Mas ele também irá demorar. O cliente melhora e encerra-se a história.

Mas não a clamorosa lacuna e o deficiente atendimento do 190.

Sábado, 23 Março 2019 18:11

Paris/Belém

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A cidade é a maior criação humana. Nenhuma cidade é mais humana do que Paris, obra múltipla e sublime do homem. Nela, a natureza nada mais é do que cenário. Às vezes, como no inverno rigoroso ou nos transbordamentos do Sena, a natureza ameaça a construção humana. Mas é só às vezes. No mais, o grande presente, Paris o oferta aos que caminham pelas suas ruas - sem pressa, sem olhos cobiçosos, sem a sofreguidão do consumo ou a medíocre esperteza turística.

Só o caminhar compassado, langoroso, ao sabor da melancolia simbolista dos seus poetas, é premiado. Só ele permite ver cada recanto humano nas construções da cidade, nos seus becos, museus, buquinistes, igrejas, em casas que adquirem sentido e sentimento pelo conhecimento vívido, da grande literatura francesa, não dos guias obtusos. Paris se oferece ao que a ama e, ao visitá-la, nela deixa, recriada, parte do que a cidade ofereceu, seu frisson civilizado.

São sentimentos que partilho com meu leitor enquanto acompanho Salvatore Adamo, da minha remota adolescência, envelhecido como eu, dirigindo um táxi pela praça da Ópera, dividindo C'est ma vie com Isabelle Boulay, na tela do vídeo, enquanto a chuva desce - agora mais amiga - do céu cinzento de Belém do Pará, livre do sol sempiterno, cidade que amo, na qual a natureza clama ao seu péssimo habitante que a trate à altura da obra da natureza em volta dele. Belém, que deveria tomar sempre Paris por modelo, sem perder a origem lusitana, adaptada aos trópicos exuberantes e predominantes, com sua inigualável marca amazônica, na síntese (por enquanto, utopia) da inteligência de quem é a obra suprema de Deus, o homem.

Mas aqui, infelizmente, e cada vez menos, se esqueceu do que é.

Sexta, 22 Março 2019 08:11

Belém

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Cena 1. O homem chega à padaria, se aproxima do balcão de atendimento e pergunta quanto custa o quilo do pão careca. Uma senhora idosa balbucia alguma coisa para o recém-chegado. Está sendo duplamente desrespeitada: é a cabeça da fila e tem prioridade. O homem, alto, forte e de boa aparência, benevolente e generoso, autoriza uma das funcionárias a atender a senhora. Continua com o seu pedido, recebe o pão e vai para o caixa. Nenhuma das outras pessoas se manifesta, embora com a expressão de desagrado no rosto. A insatisfação é engolida em seco.

Cena 2. Um caminhão de produção de concreto chega para atender a obra em uma residência. A rua é estreita, no centro da cidade. Há vários carros estacionados. Sobra a faixa de rolamento de veículos, ocupada pelo caminhão basculante. O motorista desce do veículo e anuncia para o responsável pela obra que vai colocar um pedaço de madeira no cruzamento da rua com uma avenida para poder entregar o concreto. E ninguém mais entra na rua. A fila cresce, com o coro das buzinas.

Cena 3. Um ciclista vem na contramão exatamente quando um pedestre começa a atravessar uma rua de intenso tráfego, em outro cruzamento. O ciclista quase atropela o pedestre, com a ameaça complementar de jogá-lo contra os carros. O pedestre reclama. O ciclista responde, agressivamente, com um palavrão, olhando feio para o idoso que quase atropelou. Vai embora sentindo-se o senhor do universo.

Num intervalo de menos de 10 minutos, um amanhecer comum na antiga Santa Maria de Belém do Grão Pará, uma das cidades mais violentas do mundo, numa comunidade formada por 1,5 milhão de habitantes regidos pela ética de levar vantagem, sob a tradição do jeitinho brasileiro. E pela sentença do seu maior líder político na fase republicana, o general Magalhães barata, autor da frase lapidar: "lei é potoca".

Segunda, 11 Março 2019 10:41

Pobre São Paulo

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A maior cidade do Brasil e da América do Sul, das maiores do mundo, amanheceu num dilúvio. Grandes enchentes se tornaram uma rotina trágica em São Paulo. Mesmo quem a visita nos verões dos últimos anos fica sobressaltado pelo volume das chuvas e o agravamento das inundações. Quem possui um elo mais forte com a cidade, mesmo ao escapar às tragédias anunciadas, deixa São Paulo com um nó na garganta. E o morador da capital paulista, como fica? Como fica, principalmente, o morador com menor acesso a recursos para enfrentar o crescimento súbito do nível das águas?

Pensa-se logo no aquecimento global, que estaria provocando a elevação constante do nível das águas. Mas se deve pensar também na monstruosidade que se formou em São Paulo pela omissão das autoridades urbanas. Só este fator, que está acima de qualquer questionamento, é suficiente para concluir que São Paulo caminha celeremente para o colapso. As ações remediadoras e mitigadoras se tornaram inócuas. Para escapar de tragédias cada vez mais frequentes, São Paulo precisa de uma intervenção cirúrgica para combater o que vemos pela televisão neste momento: cenas de destruição tão cruel que, acumuladas nas últimas semanas, o dia seguinte será uma antecipação do apocalipse.

Quarta, 13 Fevereiro 2019 19:16

A imunidade dos ônibus

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O Jornal Liberal 1ª edição de hoje flagrou um ônibus avançando com o sinal vermelho numa rua de Belém. A cena é comum e numerosa. O motorista paraense em geral desrespeita as leis do trânsito. Mas a desenvoltura dos que conduzem ônibus é espantosa, em particular com o avanço do sinal.

A infração acarreta multa de 293 reais e sete pontos na carteira. Mas os empregados das empresas privadas de transporte público parecem imunes à punição. Se ela fosse aplicada, todo mês os motoristas de coletivos teriam que pagar pesadas multas e estariam sujeitos à perda da habilitação.

Isso acontece? Com a palavra, a Semob, responsável pela mobilidade urbana na administração municipal.

Segunda, 11 Fevereiro 2019 10:07

A humanidade

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Quase oito horas da manhã. Uma dessas caminhonetes enormes, preta, película forte, sai da garagem do Peteleco, improvisada e insuficiente para atender a demanda de veículos que a procuram, fonte de congestionamento em boa parte do bairro do Reduto (em parceria com o inconveniente shopping Boulevard), sob a complacência diária da Semob. O carro sai como um bólido. Quase me atropela, embora eu estivesse na calçada, suposto domínio dos pedestres. O motorista apressado e mal educado segue, indiferente aos meus protestos. Será um bom pai?

Pouco depois, na esquina em que a João Balbi termina na Quintino, outro veículo do mesmo tipo, preferido por 11 entre 10 integrantes da classe média - afluente ou defluente. Paro, sinalizo para que ele vá em frente (afinal, a rua é o domínio dos carros). Mesmo atrás do vidro peliculado, que o torna invisível (e é habeas corpus para as incivilidades e abusos), ele faz questão que eu prossiga. enquanto ele aguarda, mesmo com o cruzamento temporariamente livre para ele. Chego ao outro lado da rua e agradeço pela gentileza.

Assim caminha a humanidade.

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