Segunda, 13 Maio 2019 10:22

A morte dos sonhadores

Como pode "um simples canalha matar o rei"? perguntam Beto Guedes e Ronaldo Bastos numa lindíssima canção que compuseram para Milton Nascimento no início dos anos 1980. A pungente revolta dos dois compositores é partilhada por um número crescente de pessoas, atingidas diretamente pelos crimes ou informadas sobre assassinatos cometidos por motivos pueris, torpes ou pela felonia do crime de encomenda, praticado por milícias ou pistoleiros contratados individualmente para eliminar desafetos ou (na perda especificamente lamentada pelos artistas do Clube de Esquina de Belo Horizonte) sonhadores.

Não um sonhador qualquer, de ocasião, do sonho fácil e efêmero: o sonhador que "já sonhou demais", sonhando sem parar porque embarcou no trem da história e não se acovardou, como os que se escondem diante de um novo mundo. São as pessoas indispensáveis, as que fazem a máquina do tempo andar mais rápido, de forma mais justa ou mais humana. 

Por que então, estrela amiga, "você não fez a bala parar?", cobram Beto e Ronaldo pela voz cristalina de Milton Nascimento, talvez num balanço das mortes infames dos anos de chumbo e na premonição das mortes infames sob a democracia que se avizinhava. Por que essa ave-bala continua a voar sobre a cabeça dos seres humanos, vítimas da canalhice de outros seres ditos humanos, como também cobrava o poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto?

Ao leitor, a pergunta.

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Sexta, 03 Maio 2019 11:54

Um livro sai, outro fica

O governo do Pará merece parabéns pelo lançamento, no próximo dia 8, do livro póstumo do jornalista Euclides Farias, “Rir é o melhor corretivo”, que reúne 45 crônicas de sua autoria. Euclides morreu três meses antes de completar 60 anos, de leucemia. Para colocar o livro nas ruas amigos do jornalista assumiram a produção editorial do livro, para que a Imprensa Oficial do Estado o publicasse. A pesquisa de conteúdo foi feita por Daniele Almeida, no arquivo pessoal do autor; o prefácio é de Paulo Nunes; a edição de texto e o posfácio de Iran de Souza; as 12 ilustrações são de JBosco Azevedo, e a capa de Biratan Porto.    

Segundo nota da Intercom Comunicação, “Euclides Farias foi jornalista por quase 40 anos. Trabalhou nos jornais Marco Zero (AP); A Província do Pará, O Liberal e Diário do Pará (PA); Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde (SP); e também em agências de notícias, emissoras de tevê e de rádio. Além do zelo pela profissão, era conhecido pelo bom humor, pela fidelidade aos amigos, pelo gosto de viver e pelo prazer com que contava causos de pescadores e de caboclos da Amazônia, imitando-lhes o sotaque e os trejeitos”.

A Imprensa Oficial poderia aproveitar para fazer o lançamento do último volume da série que conta a história do Pará, a partir do início da república até 1969, por enquanto. Esse último volume foi escrito pelo jornalista Nélio Palheta, dando continuidade aos volumes anteriores, de responsabilidade de Ribamar Castro.

O livro está pronto desde janeiro, mas parece ter empacado na recusa do atual governo de lançar um produto da administração anterior, citada na ficha catalográfica da publicação – como se a administração pública não fosse impessoal e o dinheiro aplicado na obra não se originasse de imposto pago pelo povo. Isso, em plena democracia republicana, tão alardeada pelo governador Helder Barbalho.

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Terça, 23 Abril 2019 11:54

Desça do palanque, governador

Na eleição de 1990, o governador Hélio Gueiros apoiou para sucedê-lo o ex-prefeito Sahid Xerfan, que fora nomeado por Jader Barbalho e por ele demitido, quando os governadores eram os donos da cadeira de prefeito das capitais dos Estados. Contra Hélio com sua máquina pública e O Liberal, Jader saiu vencedor, numa das mais violentas eleições no Pará. Um dos seus primeiros atos ao assumir o governo foi contratar uma auditoria nas contas do seu ex-amigo e ex-aliado.

Agradavelmente surpreso pela iniciativa, que poderia enquadrar as ofensas e acusações da campanha nos números, acompanhei quase diariamente a evolução da auditagem de uma empresa especializada de São Paulo. Mas apostei com dois graduados integrantes da equipe de Jader que a apuração não iria até o fim, como não foi. Minha hipótese era de que Jader se municiava para impor uma composição com Gueiros, de certa forma retribuindo a uma decisão que ele tomou às vésperas da eleição: não autorizou a concessão de um abono ao funcionalismo público. A simples promessa renderia votos a Xerfan e talvez lhe desse a vitória, revertendo a magra vantagem conseguida por Jader.

Não por acaso, algum tempo depois, Jader e Hélio fizeram as pazes. Hélio voltou ao PMDB, se submeteu à liderança do governador e todos os "baratistas" ficaram felizes. Xerfan foi rifado pelo seu padrinho, que ainda se recusou a dar a sua parte para quitar a dívida de campanha.

O governador Helder Barbalho poderia seguir o exemplo do pai (pelo menos seu início). Ao invés de ficar permanentemente criticando o antecessor, poderia ter contratado uma auditagem externa e independente para as contas do tucano Simão Jatene, a quem Helder vive atribuindo culpa pela herança maldita. Não sem certa razão, mas dando a sensação de não ter descido do palanque nem ter desencarnado para trabalhar de olhos no futuro.  Jatene cometeu muitos erros e procedeu tortuosamente várias vezes. Mas algumas das obras que Helder anuncia ou está inaugurando foram deixadas por Jatene, mesmo que incompletas ou mal acabadas.  O atual governador omite a origem.

Um pequeno exemplo desse procedimento é o destino dado ao livro escrito por Nélio Palheta, que continuaria a publicação de atos importantes do governo a partir do registro no Diário Oficial do Estado. O primeiro volume saiu em 2002, cobrindo de 1891 a 1930. Os volumes seguintes mantiveram a série, tendo Ribamar Castro por autor. O último volume cobriu parte do primeiro governo de Alacid Nunes, de 1967 a 1969. 

A edição do volume, com 454 páginas, foi preparado no ano passado, mas só ficou pronto no início deste ano. As referências, como não poderia deixar de ser, são ao governo tucano. Provavelmente por isso, a atual direção da Imprensa Oficial, entregue ao PC do B, não distribuiu o livro, do qual teriam sido impressos 300 exemplares. Ora, a administração pública é impessoal. Será que o governo Hélder Barbalho quer se apropriar de mais essa obra alheia?

Espero que o Ministério Público, no desempenho do seu ofício, cobre do executivo a respeitar o gasto de dinheiro do povo e seu compromisso com a cultura, enriquecida por essa fonte documental da história paraense. Pelo menos que a primeira parte do dito divino seja respeitada, dando a Cesar o que é de Cesar - ou ao tucano.

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Quarta, 17 Abril 2019 17:09

Cadê o livro?

Como tem acontecido com todos os governos em relação à imprensa crítica, a direção da Imprensa Oficial do Estado ignorou a minha sugestão de ontem, para que lançasse o livro que ela própria publicou, escrito pelo jornalista Nélio Palheta. É um levantamento dos atos de boa parte do primeiro governo de Alacid Nunes, entre 1967 e 1969, período dramático da história brasileira, demarcado pelo AI-5, de  dezembro de 1968, e, no Pará, pela chacina de Santarém, três meses antes. É o quarto volume de reconstituição da história estadual com base no acervo do Diário Oficial.

O momento de comemoração dos 129 anos da IOE, com a realização de um debate sobre o papel do Estado no incentivo à leitura e produção literária,, era a ocasião apropriada para o lançamento do livro, que foi impresso e está guardado em algum escaninho oficial, sem chegar ao público.

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Sexta, 12 Abril 2019 11:24

Um milhão no teatro

O governo do Estado está disposto a gastar quase um milhão de reais (exatos R$ 949.674,15) nos reparos no telhado e restauro de ambientes internos afetados pela infiltração no Teatro da Paz. Os serviços compreendem “o fornecimento dos materiais, mão de obra com leis sociais, equipamentos, impostos e taxas e todas as despesas necessárias à completa execução da obra”.

A empresa contratada, a GM Engenharia, de responsabilidade de Helder Moreira Cândido, apresentou “as especificações e características do objeto constantes no Termo de Referência e na proposta comercial”, a partir de uma “consulta emergencial de preços, juntamente com outras duas empresas do ramo”. O contrato, assinado pela secretaria de Cultura, tem validade até 31 de julho deste ano.

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Domingo, 07 Abril 2019 12:55

Humanizando a virtualidade com a virtude

Abro uma exceção na linha editorial deste blog para reproduzir a matéria abaixo. É um resumo de reportagem do El País, jornal espanhol que resistiu à era da mídia sem impressão em papel, adaptou-se a ela e se tornou melhor.  O objetivo do texto, a partir de um caso real, é expandir uma convivência saudável e positiva no ambiente virtual, sem suas distorções e malefícios, com atenção, sensibilidade, lucidez e coragem. No final, um link do texto compleot para os interessados. Espero que todos ganhem com essa contribuição.

No Vale do Silício proliferam *escolas sem tablets nem computadores* e jardins da infância onde o celular é proibido por contrato.

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No Waldorf of Peninsula, uma escola particular onde são educados os *filhos de administradores da Apple, Google e outros gigantes tecnológicos* que rodeiam esta antiga fazenda na Baía de São Francisco, as telas só entram quando eles chegam ao secundário (o ensino médio).

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"Se você coloca uma tela diante de uma criança pequena, você *limita suas habilidades motoras, sua tendência a se expandir, sua capacidade de concentração*"_ (Pierre Laurent, pai de três filhos, engenheiro de computação na Microsoft, na Intel e várias startups, e agora preside o conselho da escola).

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Os adultos que melhor entendem a tecnologia dos celulares e dos aplicativos *querem que seus filhos se afastem dela*. Os benefícios das telas na educação infantil são limitados, argumentam, enquanto *o risco de dependência é alto*.

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"Não temos telefones na mesa quando estamos comendo e só lhes demos celulares quando completaram 14 anos"_ ( *Bill Gates*, criador da Microsoft).,

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"Em casa, limitamos o uso de tecnologia para nossos filhos"_. ( *Steve Jobs, criador da Apple* - ele também proibia os filhos de usarem iPad.).

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"Na escala entre doces e crack, isso_ (o uso excessivo de telas) _está mais próximo do crack"_( *Chris Anderson*, ex-diretor da revista Wired, bíblia da cultura digital).

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O problema da relação das crianças com a tecnologia é que *o ritmo vertiginoso em que se transforma dificulta a reflexão e o estudo* (pesquisa da _Common Sense Media_, organização dedicada a ajudar as crianças a se desenvolverem em um mundo de mídia e tecnologia).

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Estudos relacionam o uso excessivo de telefones celulares por adolescentes com *falta de sono, risco de depressão e até suicídios*.

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As famílias com elevado poder aquisitivo têm mais facilidade para impedir que seus filhos passem o dia na frente de celulares. Enquanto os filhos das elites do Vale do Silício são *criados entre lousas e brinquedos de madeira*, os das *classes baixa e média crescem colados em telas*.

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A escola] Waldorf of Peninsula introduz as telas no secundário. [A escola] Hillview anuncia um programa pelo qual cada aluno tem um iPad. Na primeira, o visitante é recebido por um espantalho rústico, colocado em uma horta que os alunos cultivam. Na segunda, por uma tela de LED que expõe os comunicados do dia.

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É uma *luta desigual*. Pais superatarefados contra equipes de engenheiros e psicólogos que projetam tecnologia para manter seus filhos viciados.***No ano passado, dois grandes investidores da Apple, a Jana Partners ea CalSTRS enviaram uma carta aberta aos chefes da empresa, pedindo que tomem mais *medidas contra o vício das crianças nos celulares*.

***https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/20/actualidad/1553105010_527764.html

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Quarta, 06 Março 2019 19:09

Bloco sujo

O carnaval brasileiro sempre teve sua saudável dose de política. Acho que a deste ano foi um tanto excessiva. Mas isso é uma opinião pessoal. Não é por tê-la que irei defender qualquer forma de contenção, repressão e muito menso censura às manifestações – espontâneas ou ensaiadas – da quadra carnavalesca, a maior festa popular do país – e, talvez, do mundo. O direito de criticar é livre, podendo ser exercido tanto por quem participa das tantas formas festivas da temporada quanto pelos que a apreciam de fora.

Para tristeza dos que admiram o carnaval, a intolerância e a irracionalidade pularam os muros de Momo e ocuparam o território da folia, que deveria ser incondicionalmente marcada pela alegria, o espírito esportivo, o humor e a manemolência. O pior é essa onda de fanatismo ser estimulada pela maior autoridade pública. O presidente Jair Bolsonaro deveria estar aproveitando a temporada para tratar dos assuntos do governo, ao invés de liderar um bloco de sujos, já em fim de festa. A nação, penhorada, agradeceria – assim como o carnaval.

Publicado em Política
Domingo, 17 Fevereiro 2019 12:36

Ah, o golpe,,,

Quem participou do curso "O golpe de 2016 e o futuro da democracia" terá direito a receber seu certificado no início do ano letivo, no próximo mês. Foram 23 aulas dadas entre abril e dezembro do ano passado, sempre no tom monocórdio: o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em agosto de 2016, foi um verdadeiro golpe de Estado.

O elo entre as aulas, arrematado pelas palestras finais do curso, foi um paralelo entre os golpes de 1964 e 2016. A elite golpista recorreu ao discurso moralista de combate à corrupção para atrair a classe média e criar uma legitimidade aparente para o que interessava. Em 1964, o objetivo foi derrubar o presidente João Goulart, que radicalizava uma opção de poder à esquerda, e instaurar a ditadura militar. Em 2016, apear a presidente Dilma Rousseff e abrir caminho para uma ditadura, numa conspiração que juntou a imprensa, o poder judiciário e os políticos reacionários.

Em toas as aulas, o discurso foi um coro em uníssono, um solilóquio que não faz jus ao necessário pluralismo do ambiente acadêmico da Universidade Federal do Pará, que chancelou o curso. Houve aula de professor de direito dissecando o processo de impeachment e denunciando-o como uma fraude, sem consistência técnica para possibilitar o impedimento da presidente, sob a alegação de cometimento do crime de responsabilidade.

Nenhuma palavra, porém, sobre o golpe do presidente da sessão de impeachment, o também presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, para preservar os direitos políticos de Dilma, mesmo com a perda do seu mandato, fatiando em duas a punição única de perda do mandato com a perda dos direitos políticos por oito anos.

Tudo à direita do espectro político foi ressaltado ao longo do curso, mas a omissão foi total sobre o contexto político, econômico  e social mais amplo. O jornalista Ricardo Westin, autor do livro A queda de Dilma, publicado em 2017, registrou esse ambiente: "Uma parte do fracasso do governo Dilma 2 é explicada pela mistura explosiva de crise política, economia em recessão e ira popular, tudo isso inflamado por revelações diárias a respeito do maior esquema  de desvio de dinheiro público já acobertados na história nacional, que usou a estatal Petrobrás e foi desbaratada pela Operação Lava Jato".

Ele acrescenta que a outra parte para o desmoronamento de Dilma, 22 meses depois de iniciar o seu segundo mandato, "deve ser creditada à investida oportunista dos inimigos, que encontraram nesse ambiente perturbado o solo fértil para plantar o pedido de impeachment, aprová-lo e tomar o poder".

Arremata Westin: "As duas dinamites que implodiram o governo foram plantadas pela própria Dilma - involuntariamente, claro". Ela demonstrou "a mais absoluta inaptidão para o mundo da política". Numa democracia, era vocação para o autoritarismo, no mínimo. Mas incompetente até para a autocracia do grito, da estupidez e da incompetência, suas marcas pessoais mais impressionantes, PT e Lula à parte.

Para os doutrinadores do golpe de 2016, a complexidade do cenário do impeachment não interessa, não vem ao caso ou não passa de "viés ideológico". A Lava Jato, fruto de uma conspiração das elites golpistas, dentro e fora do Brasil, seria apenas um instrumento do golpe. A caminho dos três anos do impedimento de Dilma, porém, a ditadura ainda não chegou. Bolsonaro se elegeu graças ao canto de sereia da anticorrupção, mas ele próprio e seu entourage são denunciados e colocados em situação difícil pela imprensa golpista, agora declarada inimiga pelo clã Bolsonaro.

A realidade brasileira é complicada demais para caber em esquemas explicativos reducionistas e dogmáticos como os apresentados ao longo do curso sobre o golpe de 2016. Seu maior efeito terá sido formar um grupo de intolerantes intelectuais de esquerda para terçar armas com intolerantes intelectuais de direita.

Enquanto isso...

O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal.
tira ouro do nariz.

(Poema de Carlos Drummond de Andrade dedicado a Manuel Bandeira)

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Sábado, 24 Fevereiro 2018 12:16

O Febeapá voltou

Conheci o professor Elisaldo Carlini quase 50 anos atrás. Foi em 1969, quando o entrevistei para uma reportagem do Diário de S. Paulo(jornal extinto dos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand, o Chatô) para uma reportagem sobre drogas, em particular a maconha, sua maior especialidade. A partir daí, sempre que precisei de informações seguras, fui à Escola Paulista de Medicina conversar com o grande professor.

Fiquei em estado de choque ao ler a nota abaixo, publicada no blog de Heron Escbar, no Estadão. Professor emérito, autoridade de conceito internacional, aos 87 anos, Eliseu Carlino teve que depor numa delegacia de polícia. Uma promotora mandou intimá-lo, sob a acusação de que estava fazendo apologia do crime. A promotora Rosemary Porcelli da Silva detectou “forte indicio” do crime no convite que o cientista fez a um cidadão preso por tráfico de drogas para participar de  um simpósio multidisciplinar chamado Maconha: Outros Saberes”.

A promotora despachou a intimação sem ao menos se informar sobre o “nacional”, como os brasileiros são tratados em delegacias e extensões supostamente judiciosas. Ela não sabe quem é Carlini, o que é ciência e tudo mais. Um episódio da ignorância nacional, um vexame para o país. Para mim, revoltante.

Às vezes dá vergonha de ser brasileiro, um país que enriquece e emburrece por falta de um projeto civilizatório. Se ao menos Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) ressuscitasse para reeditar uma nova versão, ampliada e piorada, do seu Festival da Besteira que Assola o País, o interminável Febeapá pós-1964, nos sentiríamos vingados e novamente dignificados.

Segue-se mais esta vergonha.

O professor Elisaldo Carlini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um dos mais renomados cientistas brasileiros e referência internacional no estudo de drogas, foi intimado a depor numa delegacia de São Paulo esta semana, acusado de fazer apologia ao crime. A acusação, feita por uma promotora de Justiça, foi motivada por um convite que Carlini fez ao líder rastafari Ras Geraldinho (preso por tráfico de drogas desde 2013) para participar de um simpósio multidisciplinar chamado Maconha: Outros Saberes, em maio do ano passado.

O pedido para que Ras Geraldinho fosse autorizado a participar do evento foi indeferido (negado) pelo juiz competente, mas a promotora Rosemary Porcelli da Silva, ao tomar conhecimento do fato, se declarou “indignada” e considerou haver “fortes indícios de apologia ao crime” na solicitação dos pesquisadores. Ela enviou ofício à Promotoria Criminal da Capital, que determinou a instauração de um inquérito policial, em julho de 2017. Toda a comissão organizadora do evento foi intimada a prestar depoimento.

 Resultou que na quarta-feira (21 de fevereiro), Carlini, de 87 anos, e o pesquisador Renato Filev, do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp, prestaram depoimento no 16º Distrito Policial, na Vila Clementino. Eles explicaram que o simpósio se tratava de um evento acadêmico multidisciplinar, e que Ras Geraldinho fora convidado a participar de uma mesa redonda sobre filosofia e religião, por conta da relação da religião rastafári com a maconha (Geraldinho foi preso por plantar maconha numa chácara da igreja em Americana, que ele dizia ser para fins religiosos). A programação incluía ainda mesas de discussão sobre cultura, justiça, história e outros temas.
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Sábado, 17 Fevereiro 2018 11:14

A história na chapa quente (358)

Sapiência bandeirante

(Publicado no Jornal Pessoal 332, de outubro de 2004)

O zoólogo Paulo Vanzolini recebeu, no mês passado, em São Paulo, o Prêmio Professor Emérito – Troféu Guerreiro da Educação, concedido pelo Centro de Integração Empresa Escola e pelo jornal O Estado de S. Paulo. A homenagem é merecida. A carreira de Vanzolini a justifica. Aos 80 anos, ele continua em atividade, a despeito da idade e dos problemas de saúde que tem enfrentado.

Ligado à Amazônia, Vanzolini mantém, entretanto, o hábito escolástico de disparar, a partir do promontório paulistano, declarações categóricas e conceitos fechados – além de autossuficientes – sobre a região, como se carregasse as tábuas da lei. Coisa de bwanacolonial, ainda que revestido da sacralidade científica.

Como é um cientista (e um cientista que percorreu bastante a região estudada, ao contrário dos especialistas de gabinete), Vanzolini dita, a partir do trono do saber, máximas categóricas, que não se dão a uma supérflua demonstração.

Na busca pela singularidade, que costuma ser uma obsessão para esses iconoclastas donos da verdade, Vanzolini entremeia opiniões sensatas e considerações procedentes com falsidades perigosas, tecidas num tom mal disfarçado de presunção e arrogância.

Ele nega peremptoriamente que a Amazônia esteja de alguma maneira ameaçada pelas frentes de expansão da atividade econômica. É um direito dele achar que a região, mesmo com todas as agressões sofridas ou em curso, não se acha sob qualquer tipo de ameaça. O perigo está em falsear os fatos para sustentar afirmativas que contrariam o que é público e notório.

Vanzolini proclama que a rodovia Transamazônica “matou 50 metros de mata de cada lado, que é o que eles derrubaram para abrir a estrada. A Transamazônica não dizimou nada, não. Até hoje a Amazônia só perdeu 7% a 8% da floresta”, disse, em entrevista ao Estadão.

Bastaria ao professor Vanzolini pegar uma imagem de satélite do dia para verificar que o desmatamento às margens da Transamazônica vai muito além de 50 metros de profundidade a partir do eixo da estrada. As “espinhas de peixe” medem-se por quilômetros, não por metros.

Quanto ao desmatamento geral na Amazônia, já é mais do que o dobro do que ele afirma, segundo o levantamento oficial do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O índice se aproxima de 17%. Esse percentual já é, em si, assustador. Deu ao Brasil, segundo o Guinessque acaba de chegar às ruas, o título de o país que mais destruiu florestas em toda a história da humanidade.

Os quase 620 mil quilômetros quadrados desmatados representam duas vezes e meia o tamanho de São Paulo, o Estado natal de Vanzolini. A questão é ainda mais grave porque 80% das áreas amazônicas com florestas primitivas deviam ser mantidas intactas, segundo a lei em vigor.

Ou seja: os 17% incidem não sobre 100% da Amazônia, mas sobre 20%, em tese. Claro que é preciso aplicar as áreas desmatadas no mapa para verificar a condição do local (se é região de floresta original, se é de reserva legal, de unidade de conservação, etc.), o que relativiza os números. Mas a ordem de grandeza, do ponto de vista legal, cresce quatro vezes. Teoricamente, passa-se de menos de um quinto para dois terços da área livre para a intervenção humana que já foi alterada.

Pode-se relevar as declarações de Vanzolini pela sua idade, mas a ressalva não procede. O problema não é de envelhecimento porque ele tem essas opiniões há muito tempo, recusando-se a ajustá-las aos fatos. O problema é de postura, de visão, de estrabismo colonial.

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