Terça, 17 Abril 2018 18:40

Censor confesso

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Reproduzo os documentos a seguir porque eles ilustram amargamente a velha piada: o marido encontra a esposa em ato de infidelidade em pleno sofá da sala do sagrado lar de ambos – e joga fora o sofá. Ou, em comparação mais afeita ao tema: se a realidade incomoda, que seja abolida a realidade.

Pessoas que frequentam o Parque Shopping Belém “se sentiram incomodadas com a cena de violência no espaço, que é frequentado por crianças”. Parabéns aos pais zelosos, sem ironia. Eles são os responsáveis pela formação dos seus filhos e devem exercer ativamente essa responsabilidade.

Mas, ao invés de pedirem a retirada do desenho incômodo (e serem prontamente atendidos pela débil curadoria da exposição, que voltou atrás numa decisão tomada, a de incluir o tal desenho na mostra, ou então organizou a mostra sem a atenção devida), não poderiam aproveitar a situação imprevista para tratar do problema com seus filhos?

Por que censurar, ao invés de esclarecer? A psicologia já provou há tempos que o pior, na relação, é os adultos tratarem as crianças como débeis mentais.

O desenho censurado não é uma perversão ou uma anomalia. A violência da polícia é fato diário. Se é justa ou não, se está conforme a lei ou a viola – e, mesmo, está aquém do que deveria ser – tudo isso é tema candente, que existe, não foi inventado por uma mente doentia.

O artista que ousou se expressar, transformando em imagem o seu pensamento a respeito da questão, pode ser criticado e até repudiado. Só não pode ser amordaçado. Involuímos quando fazemos isso.

Admitindo-se que todos os Torquemadas agiram certo, então aproveite-se para aplicar o mesmo desvelo à proteção das crianças da periferia metropolitana. Elas não veem um trabalho artístico, como o que foi exibido no Parque Shopping, inclusive porque raras delas frequentam esse espaço segregacionista.

O que elas veem são atos cotidianos da mais brutal violência, que chega à própria morte – de desconhecidos, amigos ou parentes das crianças, ou delas mesmo. Quem ficou incomodado pelo desenho deveria dar uma olhada nas fotografias das sangrentos  páginas do noticiário policial da grande imprensa paraense.

Veriam crianças cercando cadáveres que tombaram ali, assassinados em conflitos ou sumariamente executados por grupos dos mais cruéis criminosos. De tão frequente, a cena se tornou banal. As crianças, quando captadas em imagem de televisão, apontam para as pessoas mortas, correm, gritam, brincam.

Não podem tirar o cadáver do local, como o marido traído faz com o sofá, nem pedir para uma curadoria relapsa, desligada dos seus deveres, tirar o desenho, desrespeitando o trabalho e a figura do seu criador.

O cuidado exagerado com as crianças estanca nos limites sagrados do shopping. Ir à periferia? Dar atenção a crianças pobres e sujas? Expor-se ao risco de sair das áreas protegidas? Nunca!

Os tutores da segurança pública acreditam que esse mundo promíscuo e inferior permanecerá segregado nos guetos periféricos. Iludem-se e nada sabem da história real.

A criminalidade, cuja reprodução, multiplicação e agravamento podiam ser estancados pela atenção às crianças, sujeitas a passar da posição de espectadores para a de participantes cada vez mais precoces, numerosos e agressivos no crime, já começam a agir nos shoppings,

Sua incolumidade está acabando, o que é ruim, mas é o custo coerente com a atitude dos que acreditam que acabam com a realidade ao impedir que ela seja refletida pela ótica de um artista. Bloqueia-se justamente aquele que vê mais longe – e mais profundamente.

NOTA PARQUE SHOPPING BELÉM
Diante da repercussão gerada pela retirada da obra da Exposição de Quadrinhos, o Parque Shopping esclarece que apenas cedeu o espaço em sistema de comodato para a montagem do evento. O Parque Shopping reafirma sua missão de incentivar as artes e dar luz ao trabalho de curadores e artistas paraenses.

NOTA DA COORDENAÇÃO DA EXPOSIÇÃO DE QUADRINHOS
A coordenação da Exposição de Quadrinhos esclarece que a decisão de retirar o desenho de Gidalti Moura Jr, ilustração que integra a obra intitulada “Castanha do Pará”, foi tomada em comum acordo com a curadoria do evento. Outra obra do mesmo autor será colocada na mostra.
A mudança ocorreu diante de manifestações de frequentadores do shopping que se sentiram incomodados com a cena de violência, no espaço que é frequentado por crianças.
A coordenação ressalta, ainda, que a atividade não foi criada pelo Parque Shopping, o empreendimento, apenas cedeu o espaço, gratuitamente, em sistema de comodato.

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