Sexta, 20 Abril 2018 19:01

Padim Lula

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
Avalie este item
(0 votos)

Lula não é um preso político: é um preso comum.

Ele respondeu em liberdade a um processo na justiça, instaurado a partir de denúncia do Ministério Público Federal, após uma investigação administrativa. Tomando ciência da acusação, a contestou.

Apresentou testemunhas, que foram ouvidas em audiências públicas. Pôde contraditar as testemunhas de acusação, também em audiências exibidas em tempo real para quem quisesse assisti-las em vídeo.

Utilizando todos os recursos previstos na lei processual, tentou afastar o juiz da lide, recorreu de despachos que ele deu no exercício do seu ofício (“munus”, no jargão jurídico) e tentou evitar, por todos os meios, a chamada prolação da sentença.

Não conseguiu. Mas continuou fazendo baixar todos os recursos em segunda instância para anular o processo. Novamente não conseguiu.

Sua condenação por crimes comuns, de corrupção e lavagem de dinheiro, foi mantida nas instâncias recursais colegiadas. Exauridos os recursos, a sentença condenatória foi executada e ele foi levado à prisão no dia 7, em uma cela especial, na própria sede da Polícia Federal em Curitiba, na sua melhor acomodação, antes destinadas ao pessoal da PF em trânsito pela capital paranaense.

Na estrita aplicação da lei, Lula não deveria estar ali. Ao contrário do seu velho amigo, o deputado federal Vicentinho, Lula não estudou. Sem curso superior, não tem direito a cela especial. Foi-lhe concedida uma com a alegação de semelhança da sua condição com a de ministro de Estado.

Na verdade, em consideração ao seu cargo de ex-presidente da república. Tratamento honorífico, sem fundamentação legal, mas partilhado por todos que, como eu, reconhecem o papel desse cidadão na história do país, apesar dos seus graves desacertos.

Uma comissão do Senado esteve na semana passada na cela especial de Lula sem constatar qualquer condição adversa à dignidade do prisioneiro. Esse cuidado não deveria ser exclusivo dos detentos de colarinho branco, mas de todos os albergados sob tutela estatal, em infernos que nem Dante poderia imaginar.

O PT e seus aliados não podem, assim, impor o reconhecimento por terceiros de que seu líder é preso político. Ele está preso por ordem do poder judiciário. Pode ser uma ordem criticável e mesmo absurda, mas a justiça não saiu dos seus cânones, muito menos os violou, ao processar e sentenciar o réu ilustre.O contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal foram respeitados.

Inocente ou culpado, o itinerário da ação seguiu sempre nos limites da lei, cada etapa com a devida remissão a fundamentos referidos nos códigos. Assim, é totalmente descabida a tentativa de equiparar Lula a Mandela, um autêntico e emblemático preso político do apartheid sul-africano.

Nem o título de prêmio Nobel da Paz, conquistado em 1980, dá ao argentino Pérez Esquivel a prerrogativa de inspecionar a prisão de Lula, como se ele estivesse encarcerado numa masmorra depois de acusações secretas, como nos processos de Moscou.

Lula foi para a cela na PF depois de passar mais de 24 horas no seu bunker sindical e arengar em comício por quase uma hora, tendo criticado de forma irônica a própria justiça.

É triste, para qualquer cidadão ciente do que é a democracia, ver um chefe da nação preso por corrupção e lavagem de dinheiro. Celeumas à parte, todas as provas e indícios reunidos para sustentar a sentença porém, dizem respeito a atos turvos, esquivos e enevoados de Lula, não a ação político à meridiana luz do sol. Compõem o perfil escondido ou subtraído à atenção da opinião pública de um líder carismático e empolgante em palanque.

A Coreia do Sul sobreviverá a episódio semelhante que sucedeu à ex-chefa da nação, já presa e recolhida ao silêncio imposto pela sua culpa, talvez menos escandalosa do que a de Lula. O Brasil também irá sobreviver, sem precisar passar pela miraculosa operação de transformar o ilustre preso comum numa versão aumentada e adulterada do padim padre Ciço.

Lula não é isso, apesar das romarias que se ensaiam e dos tumultos que cometem seus fanáticos partidários por todo país em nome dele.

Definitivamente, Lula não se chama Cícero Romão Batista.

Ler 57 vezes

Comments fornecido por CComment