Quinta, 01 Março 2018 08:57

Crime anunciado

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Metade das testemunhas de acusação a Jefferson Michel Miranda Sampaio é composta por policiais: são quatro delegados e cinco peritos criminais. Esse fato indica que, para os policiais que participaram do caso, não há dúvida: o rapaz, de 31 anos, matou João de Deus Pinto Rodrigues, de 26, filho de um dos donos do grupo de supermercado Líder, em fevereiro de 2015.

A tese foi sustentada pela promotora Rosana Cordovil: Michel deu uma dose letal de “gota”, um ácido poderoso, com a intenção deliberada de matar João. O assassinato foi encomendado por alguém, um alguém até hoje não identificado e cuja busca a polícia não parece ter feito o menor empenho. Para ela, tudo nesta esclarecido e solucionado, a despeito do aparente absurdo: João era cliente de Michel, pagando muito bem por todas as drogas que ele lhe fornecia.

Os dois mantinham relação de amigos. Um mês antes da sua morte, numa festa noturna em uma boate de Belém, João tinha levado Michel para a casa de veraneio da família, em Salinas, e consumira drogas entregues por Michel até desmaiar, como aconteceria depois. Foi salvo por amigos, que o socorreram.

Mesmo expulso da casa por amigos de João, muitos consumidores de drogas reconhecidos, Michel foi novamente convidado para ir com João à festa e tratado com generosidade. Por que o traficante iria liquidar com seu maior comprador?

Os policiais devem coincidir na sustentação dessa hipótese, mas a promotora Rosana Cordovil preferiu se aposentar logo. Foi substituída na acusação do Ministério Público por José Rui de Almeida Barbosa.

Depois da morte de João, seu tio, Oscar Rodrigues, o principal executivo do grupo Líder, publicou um texto no seu Facebook, negando que a morte fora por encomenda e que se tratasse de assassinato. Afirmou categoricamente que foi suicídio acidental, causado pelo excesso de drogas que o sobrinho consumia.

Oscar desmentiu seu irmão, que insistia em dizer que fora homicídio e que podia ter alguma coisa a ver com a briga interna entre os irmãos. Os dois trocaram palavras ásperas, houve a ameaça de mais ações a se cruzarem no judiciário em função dessa litigância, mas os ânimos parecem ter sido serenados e os irmãos se calaram.

Eles não serão chamados pelo juiz Raimundo Moisés Flexa, da 2ª vara do júri de Belém, que ontem começou a instruir o processo para decidir se o levará ou não ao tribunal do júri, se aceitará ou não a tese do homicídio? Depois das testemunhas de acusação, ele ouvirá as de defesa. entre os dias 15 e 16.

Michel está sob prisão preventiva desde outubro do ano passado. Os habeas corpus requeridos pela sua defesa têm sido negados a pretexto da garantia da ordem pública. É que ele já tem sentença transitada em julgado pelo crime de ser traficante de drogas. Este delito está provado. O de “execução por overdose”, inédito nos anais criminais, ainda é uma incógnita, mesmo que o julgamento esteja sendo encaminhado para o júri popular, mesmo com uma história ainda mal contada.

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