Segunda, 12 Março 2018 09:52

A história na chapa quente (365)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Cobre: nova frente

abre-se em Carajás

(Publicado no Jornal Pessoal 334, de novembro de 2004)

A audiência pública sobre o “Projeto 118”, com o qual a Companhia Vale do Rio Doce irá explorar a segunda das cinco jazidas de cobre da província mineral de Carajás, no sul do Pará, realizada no dia 20, no município de Canaã dos Carajás, “foi uma das audiências mais tranquilas de que participei”, testemunhou Luiz Felippe Kunz Júnior, coordenador geral de Licenciamento Ambiental do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) de Brasília.

Da audiência participaram quase 400 pessoas, formando “uma comunidade extremamente participativa, respeitosa, que trouxe questionamentos sérios e profundos sobre o empreendimento e que contribuiu muito no processo de licenciamento”, atestou Kunz Júnior, segundo press-release da CVRD, praticamente antecipando o licenciamento da mina.

No material que distribuiu aos presentes, a Vale lembra que o “118” vai proporcionar ao município 20 milhões de dólares (quase 60 milhões de reais) por ano em royalties, de 800 a 1.300 empregos diretos na fase de implantação e 400 na operação. Esses números ecoam melhor com a demonstração da viabilidade ambiental do empreendimento, embora a mineração do cobre seja uma das mais poluidoras de todas.

Luciano Ramos, gerente de Projetos de Minérios Oxidados de Cobre da CVRD, informou que antes da audiência foram realizadas 27 reuniões prévias com públicos diversos, fator que teria contribuído “para que a comunidade se manifestasse de maneira clara e objetiva sobre o assunto”. A boa recepção seria mesmo produto de conhecimento satisfatório do tema ou resultou da insatisfatória base informativa para um questionamento mais profundo?

Para a pergunta ser bem recebida, convinha que a Vale aceitasse realizar um novo debate, em Belém, antes de o Ibama expedir o licenciamento. Esta devia passar a ser uma condição do processo: que pelo menos uma audiência pública seja feita na capital do Estado onde o projeto se implantará.

Como é na capital que se concentram as principais fontes de saber local organizado, elas teriam que ser ouvidas para confirmar o endosso público à iniciativa, que é o objetivo principal das audiências.

Espera-se que a empresa e o Ibama considerem a sugestão antes de definir o licenciamento ambiental.

CVRD: agora também

na Amazônia Ocidental

A Companhia Vale do Rio Doce anunciou, na semana passada, que superou outras cinco empresas numa concorrência internacional aberta pela Paranapanema para a venda de sua jazida de bauxita da região de Pitinga, no Amazonas, no município de Presidente Figueiredo, distante 250 quilômetros de Manaus.

A Vale venceu com um lance de 20 milhões de dólares (quase 60 milhões de reais), pagos à vista. Para ser reconhecida como compradora, porém, teve que acrescentar à oferta monetária condições técnicas de exploração do depósito.

A empresa, a maior em atividade na Amazônia Oriental, agora passará a atuar na Amazônia Ocidental, esticando sua frente mineral por toda região, que deverá se tornar uma das principais produtoras internacionais de minérios. A Paranapanema, com os recursos obtidos, investirá no desenvolvimento de uma nova mina de estanho na região, a de Rocha Sã.

A jazida de cassiterita do Pitinga, que a empresa explora desde a década de 1980, também é a maior do mundo. A Paranapanema manteve ainda seus direitos sobre os depósitos de columbita, outro dos recursos minerais já identificados na área, que está assumindo a feição de um autêntico distrito minerário.

Para instalar a mina de bauxita, a CVRD deverá investir US$ 400 milhões, metade do que sua coligada, a Mineração Rio do Norte, aplicou na mina do Trombetas, em Oriximiná, no Pará, também na margem esquerda do rio Amazonas. Com produção de 16,3 milhões de toneladas por ano, a mina do Trombetas é a maior do mundo. Mas alcançou seu limite máximo de produção por causa das limitações de acesso ao rio pelos navios graneleiros, que precisam percorrer o Trombetas até o porto de embarque.

A Paranapanema estimou as reservas transferidas à Vale em 200 milhões de toneladas de minério de bauxita, possibilitando uma produção média anual de 2,2 milhões de toneladas, depois de processado o minério bruto. Nessas condições, a jazida poderia abastecer uma refinaria de alumina com capacidade anual de 1 milhão de toneladas.

Alguns técnicos sustentam, porém, que o depósito do Pitinga é o maior do planeta, com algo em torno de 7 bilhões de toneladas, superando – e muito – as reservas de Paragominas, atualmente a maior jazida, com 2,5 bilhões de toneladas (deverá entrar em operação em dois anos, produzindo inicialmente 4,5 milhões de toneladas/ano), e do Trombetas, com 2 bilhões de toneladas.

O presidente da CVRD, Roger Agnelli, admitiu, ao fazer o anúncio da arrematação, que a nova jazida poderia viabilizar a implantação de uma nova refinaria de alumina, no próprio Estado do Amazonas, como parte de um projeto integrado com energia hidrelétrica produzida na região e o potencial de transporte fluvial. Os estudos de viabilidade deverão levar até dois anos.

Alguns acham que a Vale poderia, no final, instalar mesmo uma nova planta de alumínio, o produto final da cadeia antes da industrialização, que, por enquanto, só é realizada fora da Amazônia.

Mas o destino do minério, apenas na forma de bauxita lavada e seca, pode ser a nova planta de alumina, a maior do mundo, com capacidade para produzir sete milhões de toneladas, que a CVRD vai implantar, em sociedade com os chineses, a partir do próximo ano, em Barcarena, no Pará.

Essa nova fábrica ficará ao lado da Alunorte, atualmente em processo de quase duplicação para se tornar a maior do mundo, por enquanto, com 4,2 milhões de toneladas. Trombetas e Paragominas não têm condições de atender a demanda dessas duas fábricas no final da década, que será de pelo menos 24 milhões de toneladas de bauxita. Número que dá uma ideia da dimensão do cenário que o polo de alumínio vai montar na Amazônia

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