Quarta, 14 Março 2018 10:40

Impeachment (3)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
Avalie este item
(0 votos)

O Brasil depois de Dilma

(29/8/2016)

No pronunciamento que acaba de fazer no Senado, a presidente Dilma Rousseff deu a impressão de que, apesar das suas expressões em contrário, como não podia deixar de ser, ela fez um discurso para o futuro. O presente já parece definido: ela deverá ser afastada definitivamente do cargo.

Ela não pode contrariar a aritmética, que ´confere até agora a maioria aos seus adversários. Nem desfazer uma tendência que se consolidou independentemente do seu discurso e dos seus argumentos. Mas tenta preservar uma possibilidade de futuro, ao menos para a sua biografia.

Se perder, quer perder como guerreira política, não como delinquente ou corrupta. Quer se livrar de uma imagem que já comprometeu seu antecessor e padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva.

A premissa da conclusão do impeachment se evidencia na insistência obsessiva da presidente em defini-lo como um golpe. Mesmo que tenha apelado aos senadores para não se deixarem seduzir por essa conspiração, que vai além de golpeá-la, ferindo a democracia, ela não favoreceu a sua causa com esse raciocínio.

Se há um golpe, os senadores favoráveis ao seu afastamento ali presentes, e o próprio presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que conduz a sessão, são golpistas. O que se torna surreal.

Dilma e o PT não concordam com essa avaliação. Para eles, mesmo que o processo esteja formalmente dentro da lei, seu conteúdo é mero pretexto para o golpe. Não teria conseguido demonstrar o crime de responsabilidade e muito menos o dolo no seu eventual cometimento. Mas sua tese é, no mínimo, controversa. O outro lado apresenta argumentos sólidos.

Claro que a maioria parlamentar é decisiva no processo, mas nele influiu também – e muito – a receptividade popular. É inegável que a maioria do povo endossou a proposta de afastamento da presidente eleita, que perdeu expressivo apoio desde o início do seu segundo governo e, de forma mais incrementada, a partir da abertura do processo de afastamento.

Ao utilizar de forma intensiva a acusação de que a ação contra si é um golpe, Dilma Rousseff também atingiu muito além do que os seus adversários: feriu a verdade e a história. Reviveu sua crença de 40 anos numa alternativa autoritária a um regime autoritário. Mas felizmente a democracia, mesmo cheia de vícios e limitações, sobreviverá a esse episódio, seja ele de que natureza for.

O Brasil continuará atrás de dirigentes que o ajudem, ao invés de fazer-lhe mal. Os que estão de um lado e de outro desse enredo não atendem a essas necessidades. O país terá que continuar a mudar muito para ter um desfecho à altura do seu merecimento.

Ler 57 vezes

Comments fornecido por CComment