Quarta, 14 Março 2018 10:41

O impeachment (4)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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O fim de uma era

(20/8/2016)

2014 foi o ano crítico da história do Brasil neste século. Segundo a presidente Dilma Rousseff e seus correligionários, as enormes dificuldades que emergiram nesse ano se devem, em boa medida, à crise econômica internacional. Dela foi exemplo a atitude dos Estados Unidos de enfrentar essas dificuldades desvalorizando o dólar para faturar mais no comércio internacional.

Outro exemplo da repercussão da crise mundial foi a queda no valor das commodities, nas quais o Brasil se especializou no seu comércio exterior, se sujeitando a uma posição colonial na divisão internacional do trabalho.

Como efeito desses fatores, a circulação de riqueza no país diminuiu e, por consequência, a receita de impostos do governo, que tentou uma resposta anticíclica através de mais gasto público, políticas sociais e subsídios aos agentes capazes de criar renda e emprego, as empresas.

Aproveitando-se dessas condições desfavoráveis, os inimigos do governo começaram a organizar uma ampla conspiração para evitar que ela se reelegesse e, se fosse vitoriosa, iniciar imediatamente um golpe para impedi-la de voltar a governar e encurralá-la, através do processo de impeachment, até derrubá-la.

Para que a ação contra Dilma Rousseff prosperasse, os agentes dessa conspiração se valeram de quinquilharias jurídicas, que, em outras condições, seriam ignoradas – e são ignoradas em países da Europa e outras democracias ocidentais.

Se Dilma cometeu os crimes de que é acusada, outros no passado, como Fernando Henrique Cardoso, também os praticaram. Por que não foram processados? Se a ofensa à Lei de Responsabilidade Fiscal foi violada, a pena proporcional ao delito podia ser uma multa, nunca o afastamento da função.

É punição abusiva. Inclusive porque começou num ato de vingança do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, por não conseguir fazer valer a sua chantagem à presidente para que ela o ajudasse a manter o seu cargo e o seu mandato.

Esta é a essência do argumento da defesa da presidente. Mas 2014 pode ser visto por outra ótica. Incapaz de bem gerir um país grande e complexo como o Brasil, a administração de Dilma Rousseff tratou de tapar os buracos que começaram a se abrir nas contas públicas.

A primeira medida foi maquiar a contabilidade. Rubricas foram alteradas, lançamentos ocultados e todo o sistema financeiro fraudados para tirar a transparência do registro numérico do desempenho do governo e sua ação lesiva. Foi esse o primeiro sinal amarelo de que as coisas não iam bem e exigiam correção. O que não foi feito e acarretou a perda pelo Brasil da nota de investimento das agências de risco.

O artificialismo foi-se extremando não só pela má gestão mas também porque o preço a pagar para a reeleição de Dilma se elevava à medida que a data da eleição se aproximava. O governo precisava gastar ainda mais, não só para manter os programas sociais, sua maior fonte de votos, como para manter engrenagens de geração de dinheiro do caixa 2, “não carimbado”, conforme o próprio (então) presidente Lula admitiu em Paris, tentando desviar o foco das atenções (que seriam retomadas pela Operação Lava-Jato).

Para vencer no 2º turno com 3% a mais de votos do que o seu competidor, a máquina pública foi usada além do nível do abuso praticado, há quase 20 anos, pelo PSDB para conseguir criar a reeleição e beneficiar com essa inovação perversa o presidente que estava no exercício do cargo, Fernando Henrique Cardoso.

Terminada a eleição, a porta do armário se rompeu, as comportas ruíram e a crise emergiu com uma violência nunca vista na história do Brasil em tão curto período de tempo. Tudo mudou – das expectativas dos brasileiros à realidade contábil, fiscal, monetária, econômica, financeira e tudo mais.

Um país que caminhava para se conciliar com seu destino de grandeza derrapou e saiu da estrada do progresso, patinando na história, se distanciando dos países com os quais antes se ombreava, milhões de empregos foram extintos, empresas fecharam e um tsunami atravessou todo país, atingindo a todos os brasileiros indistintamente.

A elite branca, brindada com recursos públicos subsidiados, como nunca antes, mostrou que os petistas eram intrusos na festa que eles próprios criaram ou avalizaram, imaginando-se suficientemente brancos para merecerem figurar no dito popular: “eles são brancos, eles que se entendam”.

Eike Batista desmoronou, mas a plutocracia paulista sobreviveu para renegar o até então companheiro de viagem, descartando-o e derrubando-o de sua presunção e arrogância, a partir de uma concepção desastrosa: de que o Brasil pode ser uma Bolívia, uma Venezuela ou um México. Para o bem e para o mau, o Brasil é muito maior do que esses países.

O povo, mais uma vez, vê, bestializado, como na proclamação da república, chegar ao fim a era do petista. No meio de um jogo sujo, cheio de vícios, corrupção, cinismo e tudo mais humano, demasiado humano, o fim do PT que deixou de ser PT, mesmo com um horizonte incerto e temível, é melhor que o Brasil amanheça assim amanhã.

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