Quarta, 14 Março 2018 10:42

O impeachment (5)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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O futuro para trás

(31/8/2016)

Fiquei feliz quando Mário Vargas Llosa não se elegeu presidente do Peru. Tinha certeza de que ele não conseguiria manter, no exercício desse cargo político, a qualidade que tinha e tem como intelectual de múltiplas habilidades.

Mas fiquei esperançado quando Fernando Henrique Cardoso se elegeu presidente. Sua dimensão intelectual era inferior à de Llosa, mas ele tinha mais condições de ser o chefe da república brasileira. Sua obra sociológica admite pertinentes contestações, mas era sólida. Já exercera as funções senatorial e ministerial. Não caía de paraquedas na principal cadeira do Palácio do Planalto.

Era um grande organizador, tinha senso de humor, sabia ver a realidade e possuía uma cabeça arejada no curso da sua vida. Percorrera com proficiência pelo menos três línguas estrangeiras. Debatera com gente de excelente nível em vários países. E se tornara companheiro de viagem de mestres, amigos e admiradores (vários dos quais viriam a romper com ele), dos quais incorporara o saber e aos quais transferira seus próprios conhecimentos.

Era um luxo para o Brasil ter um presidente como FHC, reconheceu o brizolista Darcy Ribeiro, também um portentoso intelectual convertido em nada sábio político. A vaidade, porém, muito mais do que as más companhias, fizeram o príncipe da sociologia brasileira cometer erros em demasia.

Dois deles, as privatizações, não tanto por elas em si, mas pela forma ruinosa da execução da maioria delas, e o demoníaco instituto da reeleição (porque implantado num país de poder hipertrofiado e concentração de riqueza criminosa ), arruinaram o seu legado.

Ainda assim, ele foi positivo por outros atos, muito certos, dois dos quais são notáveis e se tornaram marcos históricos o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Com esses dois instrumentos, o Estado, menor do que a elefantíase que lhe penetrou as raízes e o tornou um monstro burocrático, poderia ser eficiente, justo e digno.

O PT, tão da esquerda quanto FHC, seu aliado pelos muitos anos de oposição ao regime militar, foi contra ambos, como tinha sido contra a constituição-cidadã de 1988 de Ulysses Guimarães. Tomou essa posição sem sustentá-la numa crítica tecnicamente convincente. Usou alegações ideológicas e raciocínios políticos, que ocultavam o que, na verdade, o fazia adotar uma postura tão frágil: a disputa pelo poder.

O PT não podia se aliar a FHC não tanto por ele aplicar um modelo de social-democracia mal adaptado ao Brasil e nem tanto por ser um ajuste ao modelo de globalização, que manteve a péssima distribuição de riqueza do mundo, mas porque os petistas tinham seu próprio projeto poder. As duas máquinas não cabiam no mesmo espaço.

No entanto, mesmo com todas as arestas existentes entre os dois partidos mais preparados para uma coalizão e dos erros do governo tucano, a transição de FHC para o líder operário Luiz Inácio Lula da Silva(e não para o correligionário José Serra) foi um momento emocionante, um marco da democracia nacional.

De alguma forma, a transformação continuaria e, como aconteceria, abrindo caminho para os deserdados pelo poder, os milhões de brasileiros nunca convidados para a ceia da riqueza.

Lula começou o seu governo fazendo esse ajuste e iluminando as esperanças em um Brasil mais justo e equilibrado. O problema é que ele já estava se livrando da pesada (porém digna) bandeira que assinalara sua gloriosa biografia.

Suas convicções, ideias e mesmo atitudes já vinham sofrendo a ação corrosiva dos charutos cubanos, vinhos importados, moradia confortável que nada lhe custava (porque ele jamais perguntou pelas origens e fontes desses bens, seus e da família), gente fica e perfumada, conversas em torno de cifrões e negócios, bastidores distintos do palco público e por aí em diante.

O carisma era o mesmo, o profundo conhecimento do seu povo se mantinha, mas o projeto de Lula era o de um Lula poderoso, pai dos pobres, aos quais podia se permitir o acesso a uma mesa secundária de partilha de bônus ou gorjeta, mas parceiro dos ricos.Manteria a tendência de crescimento exponencial do patrimônio dos maiores acionistas do PIB com o – inédito para os padrões recentes – crescimento aritmético da parte que cabe aos pobres.

Um vértice do lulismo foi a forte expansão do consumo através do crédito fácil, mas com juros astronômicos, que reduzia o potencial de poupança a um efetivo endividamento pessoal e familiar, “como nunca dantes na história”.

O emprego cresceu, em parte pela desoneração dos gastos dos empregadores, mas parte maior dos subsídios (que se multiplicaram e se multiplicaram como “nunca dantes”, criando a maior geração de bilionários de tamanho mundial no Brasil) não reverteu ao salário: foi incrementar a renda, que, multiplicada, foi drenada – de forma lícita ou ilícita – para o exterior.

Esse modelo artificial e perigoso de crescimento ainda estava na sua fase de vitalidade quando estourou o escândalo do “mensalão”. Mais bem alimentado, empregado e com acesso a bens de consumo que antes lhe eram interditados, o povo achou que aquela história confusa era coisa dos inimigos fanáticos do grande presidente, o maior da história.

Não era – e depois de ler os documentos da CPI, qualquer cidadão honesto esperaria que Lula corrigisse aquela prática malsã,. Ela apontava para a formação de algo que ainda não existia na corrupta brasileira: uma organização criminosa unindo e coordenando as pontas – até então soltas – dessa economia informal e ilícita, de empresários a políticos, nos extremos do desvio de dinheiro, passando por executivos de estatais, de onde vinha o dinheiro para irrigar essas plantas carnívoras.

Mas Lula nada fez. Pessoalmente, criei uma metáfora para explicar a permanência do presidente, do seu partido e da sua equipe nesse esquema: a síndrome do Harry Potter. Eles achavam que colocando sobre si o manto do herói ficariam invisíveis. Afinal, eram os profetas dos novos tempos, os artífices da nova ordem, os abridores dos mares vermelhos da esclerosada república mandonista e elitista, dos eternos conspiradores.

Com essa legitimidade auto conferida, os petistas desandaram a cometer desatinos, a se expor num jogo que antes era praticado nos bastidores, a reinventar a roda, a reescrever a história conforme seus interesses, assumindo uma esquizofrenia emoldurada esplendidamente nas 14 horas em que Dilma Rousseff tentou defender o seu mandato no Senado, anteontem.

De qual história ela estava tratando? Que país saía da sua paleta verbal como o nirvana, o céu, a utopia do bem-estar, multicolorido e ensolarado? Como ela podia reivindicar inocência se a corrupção, os desvios de função, os erros, as fraudes e tudo mais ocorriam no âmbito da sua jurisdição, primeiro como ministra, depois como presidente da república?

Depois de 40 minutos de uma conversa com ela, sem ouvir uma só observação, o senador Delcídio Amaral, que foi líder de Dilma e do PT no Senado, um técnico efetivo, o que ela nunca conseguiu provar ser, que se enredou na corrupção, saiu com uma das pérolas desse capítulo: era é uma autista. E de fato é, como se viu ao longo daquelas sofridas 14 horas de auto isolamento, de fala para dentro de si, de conversa com seu ego, de abstração do mundo.

É muito triste ver chegar o fim de um ciclo da esquerda no poder com um saldo tão negativo, com tantas bandeiras rasgadas, sonhos desfeitos, ruína e desolação. O pior castigo que o país irá pagar por esses desatinos será contemplar Michel Temer e, depois do primeiro susto, perceber que o Brasil está andando institucionalmente décadas para trás no tempo. Só o cidadão ainda tenta seguir em frente, atrás de um futuro de verdade, no qual as muitas fantasias do PT se tornarão partículas que se desfazem no ar.

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