Quinta, 01 Fevereiro 2018 13:56

Lula e o drama brasileiro

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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A confirmação da condenação na justiça federal de 2º grau não afetou o prestígio popular de Lula. Ele ainda é o maior líder político do país e o mais forte candidato à presidência da república em outubro. É o que diz o resultado da pesquisa do DataFolha, divulgado ontem pelas emissoras de rádio e TV, e hoje pelos jornais.

Lula já está eleito? Essa demonstração de força fará recuar os seus perseguidores, assumidos ou disfarçados? A manifestação do povo obrigará a justiça a voltar atrás na decisão que tomou até agora e terá que inocentá-lo? Não haverá mais o risco de prisão?

Fato real e concreto é a força de Luiz Inácio Lula da Silva. Seu carisma e a legenda em torno dele lhe possibilitam contornar a verdade, quando ela lhe é desfavorável, e dar credibilidade ao seu discurso, mesmo quando falso. Parecer inocente mesmo quando é culpado. Confirmar o que já proclamou: o maior presidente da história do Brasil. E por isso voltará ao cargo.

Lula continua a ter pouco mais de um terço dos votos. É um patrimônio valioso. No momento, único. Podem dizer tudo que quiserem dele, esse bloco de eleitores não mudará o seu voto. Ele é vinculado ao distributivismo da gestão Lula.

Mesmo primário, mesmo sustentado num aumento de consumo sem equivalente poupança, substituída pelo endividamento, é uma conquista real para esses milhões de brasileiros antes marginalizados pela ferooz elite nacional.

Mesmo um projeto verdadeiramente reformista, como o que comandou a antropóloga Ruth Cardoso, a mulher do então presidente Fernando Cardoso, embrião dos programas sociais do PT, foi tímido, vacilante, ambíguo, medroso. Não colheu os frutos das sementes que plantou. A maior parte delas foi espalhada ao vento.

Jader Barbalho tem quase o mesmo terço do eleitorado no Pará. Antônio Carlos Magalhães tinha até mais na Bahia. Ademar de Barros, também excedia em São Paulo, de onde Jânio Quadros saiu para impor a maior vitória de um candidato à presidência da república até então, 1960. Getúlio Vargas é lembrado até hoje, em grande medida porque descendentes dos marginalizados da época dele ainda acolhem o legado que seus antecessores lhes passaram.

Líderes populares, de prestígio e aclamados pelo que fizeram podem se tornar negativos. Lula seria negativo se tivesse vencido Collor em 1989 ou FHC nas duas eleições seguintes. Ele não conseguiria arrumar e ordenar o Brasil, mesmo que a conta dessas mudanças por dentro (principalmente no capítulo escandaloso das privatizações) fosse cara, como foi. Lula jamais criaria uma moeda, como a que resiste até hoje, impávida, o real.

Tocado por sua brilhantíssima estrela, Lula assumiu o topo do poder no país quando já era possível gastar – e errar. Gastou e errou à larga. Cometeu o desatino de colocar Dilma Rousseff para sucedê-lo, na esperança de ser sua eminência parda – como acabou sendo, para tentar salvá-la do desastre total, de a pior presidente da história nacional. O resultado foi um rombo desmesurado, que inclui a figura de Michel Temer.

Se for candidato e se for eleito, Lula voltará ao poder na hora errada, para uma missão para a qual não tem competência, não afina com o seu modo de agir. O Brasil de agora precisa realmente de um estadista. Lula pareceu ser numa conjuntura favorável.

Na de agora, sua face verdadeira aparecerá. Mas talvez os brasileiros venham a pagar um preço ainda mais caro do que o da reforma liberal de FHC. Exceto se o esquema de dar um troco aos pobres e uma grana preta aos ricos for reeditado. E os canais de vazamento da coerrupção forem rebartos, numa volta inversa do parafuso

Depois de quase quatro anos de Lava-Jato e do que aconteceu em sua órbita, não tenho mais dúvidas de que Lula foi o eixo da maior e mais organizada corrupção “sistêmica” que já houve no Brasil. E que essa corrupção contaminou a essência do governo do PT, descaracterizando-o, viciando-o.

O melhor que a justiça pode fazer, como fez a oitava turma do TRF4 no primeiro julgamento, é dar um tratamento profundamente técnico aos processos, seguindo com rigor e honestidade a norma legal para a apreciação e definição dos atos de Lula, afastando a mácula que lhe tentam impor, de uma ação política, de uma vingança, de uma conspiração.

Se, ainda assim, o povo eleger Lula, que arque com as consequências. Também se erra na democracia. Na democracia brasileira, muito, exageradamente. Mas ela ainda é melhor do que o seu oposto, a ditadura.

Ditadura? Nunca mais. Podia ser assim com Lula também.

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