Terça, 06 Fevereiro 2018 14:59

A história na chapa quente (355)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Parto urbano

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 332, de outubro de 2004)

A réplica dos bondinhos que circularam em Belém entre o final do século XIX e a metade do século passado, trazida de Santos, foi deixada, durante três semanas, no meio da feira do Açaí, no Ver-o-Peso, enquanto aguardava pelo dia do seu funcionamento.

Como aquele é um ambiente hostil, dois guardas foram mantidos de vigília no local para evitar depredações e vandalismo. Mas a tensão era tanta que novo destino foi dado ao bondinho. Ele foi recolhido à garagem. Um dia sairá para sua volta triunfal, se esse dia chegar.

Eis aí um retrato da atuação da prefeitura de Belém no projeto Via dos Mercadores. Mesmo sem estar finalizado, poder-se-ia dizer que o projeto representa a melhor intervenção do poder publico no ponto de partida de Belém desde que o centro velho entrou em decadência.

Há um equilíbrio entre o revestimento original das ruas, de paralelepípedo, e a nova calçada. As luminárias introduzidas destacam as fachadas das lojas (embora fosse recomendável reaproveitar os lampiões anteriores, muito bonitos).

Agora os camelôs vão ter que trabalhar em pontos fixos na calçada, em módulos padronizados,  de ferro, de propriedade do poder público. O espaço seria correto se não fosse, acima de tudo, limitado: os vendedores não vão poder montar lojas ao ar livre, com o estoque de que hoje dispõem.

O espaço, exíguo, não permitirá que quatro ambulantes trabalhem no mesmo quiosque, como era o plano inicial. Mesmo dois vendedores por lote já será problemático. O que poderia ser uma boa ideia tornou-se irreal porque não houve consulta aos beneficiários nem debate com os interessados. Os camelôs prometem resistir. Até hoje não ocuparam os quiosques.

Pela primeira vez, porém, os comerciantes foram convencidos a retirar da fachada de seus estabelecimentos aquelas horrorosas placas metálicas ou de acrílico. Por milagre, a maioria dos prédios poderá voltar ao seu perfil original. Apenas as edificações levantadas no imediato pós-guerra, que substituíram os prédios construídos nos anos anteriores, não têm mais jeito. E como são feias.

Surgiram numa época de adesão irrestrita e incondicional ao modernoso, a um estilo dito funcional. Infelizmente, porém, algumas fachadas estão sendo pintadas em desacordo com o padrão europeu que se impôs em Belém, agora se deslocando culturalmente para o Caribe, de cores mais fortes e contrastantes. Nosso padrão é o Teatro da Paz, não o Teatro Amazonas, de Manaus.

O bondinho é completamente ocioso nesse projeto, além de ter sido um gasto considerável, que teria mais retorno se fosse aplicado em outra serventia. Se for pago, terá pouco público. Se for grátis, precisará de controle para não sofrer pronto desgaste. Não lhe poderá faltar policiamento, de qualquer modo, principalmente se atrair turista.

Vai sofrer algum grau de reação dos usuários da área, mas a prefeitura precisará impor normas mais rigorosas para o uso desse espaço, valorizado pelos investimentos de todos os cidadãos, sobretudo os nativos. É bom não esquecer que parte considerável tanto dos vendedores autônomos quanto dos atuais lojistas é formada por imigrantes, vários dos quais dispostos a se estabelecer na terra, mas diversos deles por aqui apenas de passagem.

A Via dos Mercadores só não está tendo seu valor reconhecido (independentemente de seu custo elevado) porque está demorando muito mais do que seria razoável esperar, revela a descoordenação da administração municipal e exibe um traço marcante nos oito anos do governo Edmilson Rodrigues: incapacidade de realizar obras conforme um planejamento mais consistente, que poupe recursos, abrevie prazos e opte pelo melhor que for acessível.

A Via dos Mercadores não é obra de 1,99, muito pelo contrário. Mas deu essa impressão durante grande parte do seu laborioso parto.

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