Terça, 06 Fevereiro 2018 15:33

A CPI e os coretos

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
Avalie este item
(0 votos)

O presidente da Câmara de Vereadores de Belém, Mauro Freitas, anuncia que vai mandar instalar uma CPI para esclarecer o desaparecimento dos coretos da praça de Nazaré, segundo noticia hoje o Repórter 70, coluna de O Liberal, jornal que o vereador presenteou com um anúncio personalizado, sem se saber até hoje se o pagou do próprio bolso ou com recursos do erário.

O dinâmico presidente não precisa dar-se a esse trabalho. O destino dos polêmicos coretos foi esclarecido quase sete anos atrás, no Jornal Pessoal (que não aceita publicidade). Reproduzo a matéria que escrevi, com base no testemunho do cidadão apontado como o autor do desaparecimento dos coretos, o engenheiro Mauro Porto, que foi prefeito de Belém.

Segue-se o texto.

Uma lenda de 40 anos, mas tida como verdade inquestionável, é des­feita nesta edição do Jornal Pesso­al: de que o prefeito biônico de Be­lém, Mauro Porto, tinha mandado des­montar os coretos do largo de Naza­ré e os levado para sua residência (ou sitio), em Petrópolis, no Rio de Janei­ro. Eu próprio endossei a história. Na época em que o fato teria ocorrido, eu morava em Sao Paulo, onde fiquei de 1969 até o final de 1974, com um intervalo de permanência em Belém. Quando voltei, era uma das histórias que se contava na cidade. Tentei con­firmá-la. Nunca consegui.
Por linhas tortas, isso acabou acon­tecendo, a partir de uma nota que es­crevi para a coluna Memória do Co­tidiano.

Dizia o texto:

“Pouquíssimas pessoas sabiam quem era o engenheiro carioca Mauro Fer­nando Pilar Porto, quando o governa­dor Alacid Nunes o nomeou prefeito de Belém, em março de 1970. Nessa épo­ca, nas capitais, o cargo era preenchi­do por indicação direta do governador do Estado. 0 prefeito era uma espécie de secretário especial para o municí­pio, subordinando e dependente ao che­fe do executivo estadual. No auge do regime militar, iniciado seis anos an­tes, prevalecia a ideia de que tecno­crata, ainda mais quando de fora do local era o mais indicado para os prin­cipais cargos públicos. Porque sabia o que fazia e não tinha vínculos limita­dores. No caso de Mauro Porto não houve mesmo limitações. Dele, restou na memória que conseguiu levar os belos coretos que havia na praça de Nazaré, instalando-os em Petrópolis. Mágica tecnocrática”.

Pouco depois, recebi a seguinte mensagem do personagem, que me surpreendeu em todos os sentidos, por seu conteúdo e pelo seu bom humor e espírito de tolerância:

“Por um mero acaso, ao pesqui­sar ‘Mauro Fernando Pilar’ na Inter­net para identificar um homônimo que me estava criando um problema, dei com esse texto, na sua ‘Memória do Cotidiano’.

Lúcio Flávio Pinto, pense um pou­quinho, por favor.
Mauro Fernando Pilar Porto, prefei­to tecnocrata de Belém, ‘conseguiu le­var os belos coretos que havia na praça de Nazaré, instalando-os em Petrópolis’.

Como ele fez essa mágica?

As oito colunas de ferro fundido, que havia para levar, teriam ido 3.300 km de caminhão, pela inacabada Be­lém-Brasilia?

Ou, talvez, sendo os militares tão poderosos, transportados pela FAB para o Rio de Janeiro, e de la para o sitio em Petrópolis?

Mas… Como um simples capitão engenheiro poderia ter um sitio em Pe­trópolis durante os ditos ‘anos de chumbo’, em que a corrupção era ine­xoravelmente reprimida, e um Presi­dente da Republica demitiu um irmão por haver utilizado o carro de uma empresa (“demitido você já está, de­volva o carro para evitar sua prisão”)?

O inspirador-coordenador da refor­ma da praça foi o Evandro Simões Bonna, benemérito diretor do Círio de Nazaré, competente e incorruptível ‘sub-prefeito’ de Icoaraci, desde os tempos de Stélio Maroja. Em 1970, na última noticia que tive por ele, os restos mortais dos coretos estavam nos porões da Basilica, para serem remontados em Icoaraci, se va­lesse a pena reaproveitar.

E lá ainda estavam quando um juiz apressado erradamente arquivou a ‘ação popular’, juntamente com a ação de danos morais que fiz contra o poli­tico do PMDB (nem sei mais quem foi, Moura Palha, talvez?) o autor da ir­responsável denúncia, em 1973. É pos­sível que ainda estejam lá.

Eu ficaria bastante grato se você, com a sua retidão de jornalista, inves­tigasse esse assunto e nos contasse o final da história”.

Agradeci ao ex-prefeito pela men­sagem e pelo seu desejo de esclare­cer de uma vez esse episódio, dispon­do-me a participar dessa empreitada. Para tanto, solicitei-lhe que me escla­recesse qual sua participação (e da prefeitura, institucionalmente) na mu­dança da praça de Nazaré. Assegu­rei-lhe a publicação da sua carta. Ele prontamente me atendeu. Mandou um novo texto, mais completo, que se se­gue, além dos documentos comprovan­do tudo o que dizia.

Por se tratar de uma peça histórica, reproduzo-a na integra. Diz Mauro Porto:
“Quanto à obra da Praça de Nazaré”

Minha participação na retirada dos coretos é mais ou menos como a de Pilatos no Credo: aprovei a execução de um projeto que chegou pronto as mi­nhas mãos.

Quem primeiro conversou comigo sobre a óbvia necessidade da obra foi o Evandro Bonna. Todos os que vive­ram na época com certeza se lembram da pobreza campestre daquela enor­me praça de terra, esburacada todos os anos pelas barracas e o movimento do Círio.

Segundo Bonna, o que desejavam os diretores da festa era uma praça pavimentada com toques de verde, com lugares pré-programados para in­serção dos suportes dos balcões e coberturas. Quando me foi trazido o projeto pela comissão, acompanhada pelo Secretário de Obras, não tive porque negar a aprovação.

Cabe aqui uma observação esclare­cedora: não é bem verdade que naque­la época o prefeito das capitais era uma espécie de secretário especial, escolhi­do por indicação do governador.

O fato é que o governador fazia uma lista quíntupla, mas a indicação vinha de cima. No meu caso, fui escolhido por [general Garrastazu] Médici [terceiro presidente do regime militar pós- 1964], por ser conhecido dele e de [ge­neral João] Figueiredo, quinto e últi­mo presidente do ciclo, que se esten­deu ate. 1985] por meu trabalho ante­rior no Amazonas (de 1964/1967 fui Diretor fundador e Superintendente Geral da implantação da Companhia Amazonense de Telecomunicações).

A Camtel, bem antes da criação da Telebrás, aprontou a nova rede telefô­nica de Manaus, com interurbano para as principais cidades do interior, bem à tempo da inauguração da Zona Franca. Fui trazido a Belém para fa­zer o mesmo aqui e, depois de dois anos presidindo a Cotelpa, de repente me fizeram prefeito.

[O governador] Alacid [Nunes] só fez pressão para que eu nomeasse dois secretários escolhidos por ele, coinci­dentemente para as secretarias mais importantes, da Fazenda e de Obras.

Mantive os dois o tempo que foi necessário para ficar claro que se consideravam mais secretários do Estado que do Município, e troquei os dois por gente escolhida por mim.

Assim, as obras da praça de Nazaré foram inicialmente tocadas pelo [José Maria] Brito, depois pelo Mario Elisio Motta Pereira, sempre com a sempre bem-vinda assistência do Bonna.

Quanto à questão da “ação popular” e minha inoperante defesa.

Morando no Rio de Janeiro, só quan­do comecei a ser citado como revel “por morar em lugar incerto e não sabido”, é que me dei conta do espetáculo que estava sendo montado ao meu redor. Como os advogados que seriam minha primeira escolha declararam-se impedi­dos por trabalharem na Prefeitura, con­tratei o Paulo Klautau, indicado pelo Al­debaro. A carta dele foi uma paulada.

Exigiu nada menos que um “down pay­ment” de sete mil e quinhentos dólares, e parcela igual a ser paga “no despacho do Juiz de Direito da Vara da Fazenda Muni­cipal”, onde corria a “ação popular”.

Paguei imediatamente o que foi pe­dido, isso em junho de 1977, com ins­truções muito claras de que a ação te­ria que ser levada até o completo des­mascaramento da farsa.

Semanas tornaram-se meses, meses viraram anos, até que, em janeiro de 1981, sem conseguir mais que evasivas quanto à solução da ação popular, e da nossa ação de danos morais, que a demora e a repercussão do caso tinha tornado imprescindível , escrevi ao que então era o causídico sênior do Escritó­rio Klautau.

A resposta do Paulo Klautau é uma obra prima de irresponsabilidade profis­sional, que é desnecessário comentar.

Termina assim: “Creia, no entanto, que levei a efeito, e prosseguirei a envi­dar todos os vigores (!!), no sentido de encontrar breve e definitiva solução para a causa”.

Nunca consegui receber dele qualquer informação por escrito, e muito menos o texto de qualquer ar­gumento ou ação que tenha sido pro­posta por ele.

Não teve nem a hombridade de co­municar o arquivamento do processo. Tive conhecimento disso por terceiros.

Que providencia tomei, em vista disso? Nenhuma. Conheço muito bem o pais em que vivo.

Com meu abraço, e um bocado de nostalgia, saudade dos meus tempos de juventude, e dessa magnífica Amazô­nia a que dediquei quase dez anos de minha vida”.

De fato, as peças desmontadas dos coretos foram guardadas no porão da basilica de Nazaré pelos padres reden­toristas, mas eles se recusaram tanto a prestar informações sobre o material como a informar sobre o destino dado ao acervo, quando procurados, uma única vez, logo que a celeuma come­çou. Agora, com o testemunho de Mau­ro Porto, talvez se sintam na obrigação de se manifestar a respeito, ao invés de tomar decisões unilaterais, como acon­teceu com os púlpitos da igreja.

Finalmente, a verdade começa a emer­gir das cinzas da memória. Quem puder acrescentar um ponto que relate seu conto.

(Jornal Pessoal – agosto de 2011 – 1ª quinzena)

Ler 122 vezes

Comments fornecido por CComment