Sábado, 10 Fevereiro 2018 17:22

Cidade sofredora

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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O BRT de Belém começou a ser construído em janeiro de 2012, a partir de um projeto elaborado por japoneses duas décadas antes. Era simples: uma via expressa de 20 quilômetros entre o largo de São Braz, em Belém, e o distrito de Icoaraci, Iria beneficiar mais de 600 mil pessoas, espalhadas ao longo do percurso, com a redução em 70% no tempo de viagem entre os dois extremos das linhas. Elas seriam servidas por ônibus de luxo, com ar condicionado, e a tarifa dos veículos comuns. A obra deveria estar concluída em um ano e meio, ao custo de 430 milhões de reais, que nem espanto provocou. Tudo era divino e maravilhoso.

Seis anos depois, uma cratera se abriu na pista expressa do BRT, no meio do trajeto pela avenida Almirante Barroso, onde nela se finda a avenida Júlio César. Descobre-se que o buraco resultou do desgaste precoce do piso. A pista podia ser a mesma das demais vias (asfaltadas) de circulação na mais importante avenida da cidade, como em outros BRTs.

Mas a administração de Duciomar Costa queira um serviço de mais qualidade (e mais caro): mandou construir uma plataforma de concreto mais elevada e protegida por blocos de concreto (sobre a qual trafega não uma grande frota de ônibus especiais, mas quatro – ou dois? – veículos, na companhia dos velhos e sofridos ônibus da capital paraense, aos quais foi acrescentada a placa de expressos, que os libera de controle e lhes autoriza a função de matadores de pedestres).

O problema é que a plataforma começou a se deteriorar rapidamente, talvez porque a concretagem, que nem precisaria existir, onerando o orçamento da obra (que, já agora, ninguém sabe e ninguém viu), não foi boa. Já vai pro brejo antes mesmo que as sete estações da Almirante Barroso (do total, exagerado, de 23), à exceção de duas, tenham começado a funcionar, embora prontas (e, aliás, também precocemente envelhecidas, exatamente pela falta de uso).

Um obra que deveria durar 18 meses já se prolonga por 72 meses, sem uma conclusão. Um incômodo brutal, introduzido na vida de 600 mil pessoas, pelo menos, embromadas pela promessa de serem recompensadas com o serviço concluído, inferniza quase um terço da população da região metropolitana por desídia, incúria, incompetência, má fé ou, talvez, corrupção nos executores da obra, um trambolho surreal a desafiar a compreensão e a tolerância humanas. O transeunte vê o tempo passar sem o fim do drama, às vezes tragédia, e o dinheiro público se esvair, como a turbulenta corrente das chuvas a alagar uma cidade que teima em ignorá-la.

E se cala. E nada faz. E se acomoda. E parece querer a punição que lhe aplicam, entre uma e outra vil eleição. Ô cidade masoquista sta Santa Maria de Belém do Grão Pará, outrora conhecida como a heroica, por sua resistência aos desmandos dos seus representantes – e déspotas, como o caudilho Magalhães Barata, que inspirou a evocação, agora feita em torno de mediocridades por outras tantas mediocridades.

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