Segunda, 26 Fevereiro 2018 12:41

E agora, Belém?

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Belém naufragou hoje.

Belém sempre vai ao fundo quando chuvas fortes coincidem com maré alta. Mas os estragos eram amplamente compensados pela importância da irrigação da área e pela certeza de que metade da chuva amazônica, que vem do mar, continuava a passar pela capital do Pará, rumo ao hinterland, cada vez mais desnaturado em sertão pelo desmatamento e a devastação em geral (a outra metade das chuvas resulta da evapotranspiração das plantas, em crescente chacina).

Até algum tempo atrás as pessoas sabiam quais eram os pontos de alagação da cidade. Era possível contorná-los e levar a vida debaixo d’água (no passado, com os apetrechos necessários: galocha sobre o sapato e capa plástica com sua touca, mais o complemento – nem sempre usado – da sombrinha ou do guarda-chuva; era um amazônica que ia para o trabalho ou a escola. hoje, é um falso novaiorquino ou miamense).

Nos últimos anos deixou de haver locais críticos. Como 40% do perímetro urbano fica abaixo da cota quatro do nível do mar, a maior parte da cidade é inundada. O avanço das águas e sua maior altura são funções da impermeabilização do solo pelo seu asfaltamento ou forma equivalente de compactação, a opção pelo crescimento vertical, que adensa a ocupação humana do espaço nos arranha-céus, o aterramento das drenagens naturais ou sua obstrução, o lixo infernal e outras mazelas exageradamente belenenses.

Em algumas partes da cidade, o pedestre e o motorista ficam ilhados pela subida avassaladora da água. É um transtorno. Pior é para os moradores das áreas atravessadas por canais, que substituíram – com prejuízo – os igarapés. Suas águas fétidas e poluídas transbordam, penetrando nas residências e tornando os moradores reféns dessa prisão aquática por um ou mais dias.

Para consternação do suspeito orgulho da cidade, um dos seus points, a Doca de Souza Franco, mostrou o que é por debaixo da maquilagem mal feita: um esgoto a céu aberto. Uma água negra cobriu a avenida e foi bater nas casas e demais edificações da área mais valorizada, onde despontam dois símbolos do desajuste esquizofrênico da urbe com a sua paisagem natural: as torres gêmeas de 40 andares, Sun e Moon.

Cidade de administradores desatinados, de elite indiferente e egoísta, de povo inerte e submisso, massacrado pela ignorância, a doença, a péssima educação, os maus tratos e gerações de políticos cada vez piores. Cidade que perdeu o rumo e o prumo, incapaz de se ajustar ao seu sítio pantanoso e ricamente drenado, negando seu território e ofendendo a razão de ser da sua história.

A chuva, bênção dos céus, virou instrumento de tragédia, fonte de dramas e sofrimentos. Somatório de Sodoma e Gomorra numa versão tropical que nega a si mesma – e pagará cada vez mais caro por isso.

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