Sábado, 06 Janeiro 2018 13:49

Os erros do lixão de Marituba

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Com o artigo a seguir publicado, que enviou para o blog, o professor Aurélio Picanço avança consideravelmente na adição deinformações e análises sobre o grave problema do aterro sanitário de Marituba, tratado popularmente por lixão. Todos ganhariam se as autoridades respondessem aos questionamentos do autor .

Após a leitura de todo material divulgado no seu blog sobre o problema no Aterro Sanitário da Região Metropolitana de Belém gostaria de apresentar alguns argumentos para ampliar o debate sobre o problema.

O que estamos vivendo é o produto de um grande problema que nenhuma autoridade política do Estado e de Belém quis resolver durante anos, que era o lixão do Aurá. Por anos, foi muito mais cômodo ter um lixão (imagino que todo esse chorume que hoje se acumula no AS de Marituba sempre foi para os igarapés próximos ao Aurá).

Pior: ter um lixão deixou Belém acéfala do ponto de vista técnico e operacional quando o assunto é operação de um aterro sanitário de grande porte.  Não há em Belém a expertise técnica para operar um aterro sanitário, pior nas nossas características climáticas amazônicas, que já explico.

Para iniciar, que fique claro que lixão e aterro sanitário são estruturas distintas. Aterro sanitário é uma obra e um serviço. Uma obra de engenharia que deve ser operada corretamente (e monitorada) até o dia de seu encerramento. Local em que todos os cuidados com a saúde da população e meio ambiente devem, ser priorizados, desde a sua concepção até a sua finalização.

Para um aterro sanitário receber o primeiro caminhão de lixo muitos passos devem ser vencidos, como estudo de seleção de áreas, estudo de impacto de vizinhança, projeto básico, estudos de impactos ambientais e o projeto executivo do aterro. Cada projeto e estudo desses há uma figura importante, que são os engenheiros e técnicos responsáveis.

Muito me assusta em todo esse impasse não se questionar um posicionamento dos projetistas. Um dos produtos do projeto de um aterro sanitário (existe uma norma exclusiva da ABNT que define o conteúdo de projetos de aterros sanitários para resíduos sólidos urbanos) é o manual de operação do aterro sanitário. Lamentavelmente, é muito comum o famoso “copia e cola” desse manual de outros projetos já executados.

Nitidamente, ocorreu um grande problema operacional e, talvez, de projeto (só teria certeza se avaliasse o projeto) nesse aterro sanitário. Vou abordar alguns deles:

1) Nitidamente, há um erro de concepção na escolha da tecnologia de tratamento do chorume. Não que o sistema de osmose reversa não consiga tratar chorume, mas que ele sozinho não o faz do ponto de vista técnico. É um sistema considerado polidor, ou pós tratamento. Antes dele são necessárias várias outras tecnologias para melhorar a qualidade do chorume e para defender o meu sistema de osmose reversa, que gera um subproduto, que é o concentrado.

2) Claramente, houve erro no cálculo da produção de chorume no aterro. Posso falar que esse tema é complexo, pois a maioria dos métodos de cálculo do chorume são empíricos e baseados nos dados climatológicos. Aqui retorno a esse tema, pois operar um aterro sanitário de grande porte em uma região de elevados índices pluviométricos não é simples.

Aí acredito que foi o maior erro operacional e, talvez, de projeto. Para simplificar e esclarecer: na operação de um aterro tenta-se ao máximo evitar que a água da chuva entre em contato com o lixo exposto, pois a consequência será o aumento da produção de chorume. O que se faz para evitar esse contato? Deve-se cobrir o lixo com material impermeável (normalmente argila).

Aqui, uma dúvida que tenho. Se perguntar para qualquer criança em Belém que horas chove mais, a resposta será imediata: à tarde. Ou seja, a rotina operacional deve cobrir o lixo sempre no início da tarde e voltar a operar no final da tarde e à noite. A rotina operacional de um aterro sanitário modifica por completo os horários da coleta de lixo na cidade.

3) Para mitigar a grande geração de chorume foram construídas lagoas de acumulação. Uma solução que remedia, mas não soluciona o problema. Não existe no mundo algo semelhante a isso. Uma aberração! Um aterro com 17 lagoas. Milhões de metros cúbicos de chorume. Um absurdo!

Me pergunto: já li várias matérias nos últimos dias que a empresa já tem uma forma de tratar e remover esse chorume, inclusive fora do aterro. Onde? Se não há em Belém uma estação de tratamento de esgoto, quanto mais de chorume.

A empresa já deveria ter adquirido uma nova estação de tratamento de chorume. Já existem até estações compactas, que atendem a vazão produzida real, que agora é conhecida. Indico uma estação que mescle unidades de tratamento químicos com biológicos com seu efluente sendo direcionadas para as unidades de osmose reversa, que deve ser ampliada.

4) Muito me espanta que problemas operacionais existam em um aterro privado, onde os municípios pagam caro para dispor seus resíduos. Aterros que devem ser constantemente fiscalizados pelos órgãos ambientais do município e estadual. São erros básicos para uma empresa que opera mais de 20 aterros no Brasil.

Por fim, sinceramente, acredito que urgentemente os municípios da RMB devem buscar uma nova área para construção de uma aterro sanitário. Claramente, a construção das lagoas no aterro de Marituba ocupou a área em que seriam depositados os resíduos no futuro. Não se sabe a amplitude do problema, se essas lagoas foram protegidas por mantas, se tiveram a sua base compactadas para evitar infiltração do chorume no solo. O tempo está passando e a solução definitiva não está próxima.

Um diagnóstico do problema se faz necessário e com urgência. Soube que um grande profissional está ajudando a Universidade e a prefeitura de Marituba, que é o professor Mario Russo, um dos maiores especialista em aterros sanitários do mundo.

O que era uma esperança para um dos maiores desastres ambientais de Belém, que era o lixão do Aurá, tornou-se outro grande problema, cujo final não está nítido no horizonte. Que todos aprendam com os erros e que eles não se repitam

Aurélio Picanço

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Belenense com orgulho e paixão. Engenheiro sanitarista (UFPA). Mestre e doutor em saneamento com ênfase em resíduos sólidos (EESC-USP). Professor da graduação e mestrado em Engenharia Ambiental na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Autor de livros na área de resíduos sólidos e de mais de 50 artigos técnicos sobre resíduos sólidos em revistas e congressos.

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