Sexta, 19 Janeiro 2018 15:29

A história na chapa quente (348)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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(Publicado no Jornal Pessoal 330, de setembro de 2004)

ELEIÇÃO

A caravana vai passar

 

Dois terços das famílias que moram em Belém vivem com uma renda que varia entre 0 e 5 salários mínimos. Os 25% mais ricos ficam com 55% da renda do município. Para os 25% mais pobres sobram apenas 10% da renda total. A renda per capita dos moradores da cidade representa dois terços da média brasileira.

Segunda mais importante capital do Brasil no começo do século XX, Belém se tornou uma das mais pobres do país neste princípio de século XXI. Nos 1900, seu habitante dispunha de bonde elétrico, iluminação pública a gás, rede de esgoto e outros confortos aos quais poucas cidades brasileiras tinham acesso, além de pleno emprego.

Hoje, o caminho do futuro é muito mais complexo. Quem circula por outras capitais volta com a impressão de que Belém está marcando passo, quando não retrocedendo.

Muitos visitantes, porém, se dizem impressionados com a capital paraense. Essa boa impressão tem uma explicação: o brasileiro não conhece seu país; para ele, a Amazônia está em outro mundo – e esteve mesmo, durante todo o período colonial e boa parte do Império.

Importância estratégica perdida

A boa surpresa é um produto de dois ciclos de investimentos urbanos maciços, que a historiografia nacional do centro dominante praticamente ignora: o período pombalino (comandado pelo déspota esclarecido de Portugal, o marquês de Pombal), na segunda metade do século XVIII, e o meio século de fastígio proporcionado pela exploração da borracha, entre 1860 e 1912, com seu apogeu sob a intendência de Antônio Lemos, um maranhense até hoje tido como o melhor prefeito que Belém já teve.

No primeiro momento, Belém foi preparada para ser a capital do reino português remanescente na América, quando o Brasil se tornasse independente. No segundo momento, se tornaria a mais cosmopolita das metrópoles brasileiras, renovando relações diretas com as metrópoles mundiais.

É por isso que a cidade oferece o espetáculo de uma afluência – ao mesmo tempo internacionalista e localizada – para o qual o visitante não está preparado, vítima de preconceitos e mal-entendidos que remontam ao passado e se mantêm, renovados, no presente.

Mas fora do quadrilátero urbano criado pelo plano pombalino e pela exploração monopolista da borracha (e já se infiltrando nesse reduto de beleza e conforto, à margem das baixadas), o que caracteriza Belém são as marcas de um empobrecimento africano convivendo, conflituosamente, com ilhas de riqueza.

Talvez Belém seja a capital com a maior economia invisível do Brasil. De cada três pessoas que trabalham na cidade, apenas uma tem carteira assinada. Cada pessoa que trabalha sustenta três pessoas que não trabalham, embora em idade produtiva.

Mesmo sem uma quantificação da realidade, ninguém cometerá impropriedade se disser que nenhuma metrópole brasileira tem tantos camelôs quanto Belém. Somados a flanelinhas, biscateiros em geral e outros trabalhadores temporários, esse exército de lumpen proletários, como se dizia antigamente, supera o contingente de mão de obra regular.

O que agrava o problema é a visão que dele o governo tem. Uma anomalia patológica passou a ser considerada natural e, em casos extremos, desejável. A economia informal se espalha como um vírus, que se alimenta de remédios mal receitados ou aplicados sem controle, aumentando sua resistência.

O domínio do caos

Quem percorrer a futura “via dos mercadores”, um projeto da administração Edmilson Rodrigues que, a despeito de seus erros e atrasos, se transformou num abre-alas eleitoral, poderá antever o conflito que eclodirá quando a prefeitura for ordenar a ocupação do calçadão ondulante para que a beleza da rua não seja comprometida e o bondinho possa circular.

No conjunto João Alfredo-Santo Antônio há, atualmente, uma quantidade muito maior de camelôs do que os pontos fixados na calçada para abrigar apenas os vendedores autorizados os únicos que irão permanecer no local. O que acontecerá quando chegar a hora de disciplinar o uso do espaço?

Há vários anos nada se fez de inteligente e objetivo para conter e fazer retroceder essa onda de atividade marginal (ou lateral), reprimindo-a mas, ao mesmo tempo, oferecendo melhores alternativas de trabalho às pessoas envolvidas nessa atividade.

Pelo contrário: por oportunismo ou má-fé, as políticas públicas acabaram por estimular ou induzir essa ameba urbana, que se beneficia do meio-tom e da sombra, que constitui sua cultura. Já há gerações de camelôs e famílias de trabalhadores informais. Eles cresceram nesse universo e esperam estabelecer nele sua sucessão. O que era anomalia tornou-se normalidade.

Quando a margem legal e legítima é esticada e desdobrada para abrigar e acomodar situações que a contrariam ou desafiam, uma teia de negócios e interesses ocultos começa a ser tecida sem que se possa prever até onde ela se prolongará.

Pais de família sérios e trabalhadores ou jovens aplicados, independentemente do que fizerem, estarão servindo de instrumento para sonegação fiscal, desvio de dinheiro, legitimação de atividades ilícitas, comércio irregular, contrabando, receptação e outras contravenções que, uma vez consolidadas, acabam resultando em problemas gigantescos, como o crime organizado. Belém, nesse ponto, se parece cada vez mais ao Rio de Janeiro.

A economia paralela

Esse rio subterrâneo de dinheiro, emergindo em alguns pontos, é que move a cidade, mais do que a atividade econômica explícita e legal. A fachada é enorme, mas atrás dela há cômodos miseráveis. Daí se falar tanto na lavagem de dinheiro na cidade, ou de negócios de fachada.

Em parte, eles explicam certos investimentos que são feitos sem a existência de um mercado visível que os justifique, ou exibições de riqueza sem a correspondente demonstração da renda que as sustente. O que corre “por fora” representa uma demanda reprimida por esses serviços, o que tornou Belém uma cidade terciária tardia – ou equivocada.

Mas não só isso. Belém concentrou o investimento urbano ao longo da história do Pará. Quase todas as cidades do interior, presas ao extrativismo vegetal, eram (ou continuam a ser) pouco mais do que acampamentos de transbordo dos produtos que vinham (e ainda vêm) do hinterland em busca do porto exportador litorâneo, nos quais eram (e são) embarcados para o exterior.

A cidade europeia em que se transformou a capital do Estado na belle époque contrastava (e ainda contrasta) com todas as outras cidades interioranas, havendo entre elas um vácuo abissal. Não só ontem, como até hoje. Basta pensar num único fato: nenhuma das demais cidades fora da região metropolitana, mesmo aquelas que já bateram em 200 mil habitantes, conta com um serviço de UTI em seus hospitais. Pacientes em estado grave têm que buscar auxílio na capital.

Essa circunstância alimenta o contraste entre a face africana de Belém e seu perfil europeu, que encanta o visitante mais atento ao imediato, ainda que mal informado sobre os antecedentes na história. Se o turista pode apreciar a beleza arquitetônica instalada debaixo da cobertura das mangueiras, indo a bairros novos da periferia vai sofrer uma inclemência de deserto sob uma paisagem humana de conflagração social.

A atividade vanguardista, em escritórios bem montados, é vizinha de práticas medievais nas invasões: seres humanos substituindo a tração animal em carroças empregadas ao longo da Estrada Nova, ou queimando madeira no Aurá para fazer carvão vegetal.

Novos hotéis brotam em ruas arborizadas, inclusive sob bandeiras universais (como a do Holliday-Inn), enquanto verdadeiras estalagens da época anterior à revolução industrial irrompem nos subúrbios para acomodar gente como se fosse gado.

Para onde vai?

Para onde irá Belém nesse choque de contrastes aparentemente doidivanas? Uma resposta convincente não está sendo oferecida pela atual temporada eleitoral. Candidatos que não têm a menor responsabilidade para com suas biografias, que por isso ocultam ou maquiam, nem seu discurso tem compromisso com a verdade, dizem o que querem, sem tocar no que devem, indiferentes ao distinto público, que, como papel em branco, tudo aceita.

Consultando os currículos dos candidatos e analisando o que, um tanto toscamente, se pode chamar de seus “programas”, chega-se a uma triste conclusão: a primeira década do século XXI está perdida para Belém. Como as décadas anteriores. Perdida no sentido de que continuará discriminatória, segregacionista, desligada do seu contexto regional.

A rigor, a condição da capital dos paraenses só não é mais grave porque, por inércia, ela continua a usufruir o centralismo espacial dos séculos anteriores. Boa parte dos investimentos que nela são feitos, criando a ilusão de progresso, deve-se a essa polarização. O dinheiro segue para ela porque não há outra alternativa. Ao menos enquanto os espasmos e contrações separatistas continuarem episódicos, desarticulados e inconsequentes.

Quando os impulsos emancipacionistas tiverem consequência e desencadearem a desconcentração espacial do poder, Belém vai gemer como se fizesse parte daquela famosa crônica de Rubem Braga, “ai de ti, Copacabana”, que antecipou a decadência da “princesinha do mar” depois da transferência da capital federal para Brasília.

Belém não geme porque não quer – ou não pode – pensar no futuro e planejá-lo, tendo que vender o almoço para comprar o jantar. Ter que decidir entre um falso médico, apoiado por um médico verdadeiro, mas escapista, e a sucessora de Edmilson Rodrigues, que tenta se dissociar do correligionário sem distanciar-se dele.

Bem que esse podia ser o título verdadeiro da atual campanha eleitoral: “ai de ti, Belém”. Quem ganhe, perderás.

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