Segunda, 29 Janeiro 2018 16:55

Veja errou

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Veja desta semana traz na capa duas fotos do Lula na prisão. Uma, de 1980, é verdadeira, registra sua prisão no Dops (a polícia política) de São Paulo, quando ele era dirigente sindical no ABC paulista. A outra foto foi montada pela revista sobre uma foto atual do envelhecido ex-presidente, que tem uma faixa sobre o peito apontando-o como condenado.

A prisão de Lula em 1980 foi num Brasil sob a ditadura, com o último militar posto (e imposto) na presidência da república, o general João Batista Figueiredo, à frente do pior dos governos de exceção. Foi uma prisão extremamente arbitrária e ilegal de alguém que exercia os seus direitos políticos e de cidadania, nos limites de tolerância da ordem jurídica (ou anti).

Seu carcereiro, Romeu Tuma, delegado do Dops (e depois senador por São Paulo), e seu filho, o ex-deputado federal Romeu Tuma Jr., que (ironicamente) viria a ser secretário nacional de justiça do governo Lula, depois rompendo com ele, garantem que o então sindicalista era informante da polícia e foi tratado com todas as deferências na prisão.

É uma acusação séria, carente ainda de prova. Independentemente dela, Lula garantiu seu lugar na história (e sua vitória na principal disputa eleitoral do país, por suas vezes), com sua atuação à frente dos trabalhadores de São Paulo. A prisão, com todas as suspeições que possam haver, honra a sua biografia.

Dar a essa foto a companhia de uma segunda foto, montada, e justaposta a ela, foi uma decisão infeliz da revista. Tanto porque traduz uma dose de ressentimento, raiva ou ódio incompatível com o tratamento jornalístico adequado para questão de tal importância e gravidade, como porque pode ter uma interpretação oposta à talvez pretendida pela publicação.

A primeira prisão foi injustiça e ilegal mesmo num regime de exceção como aquele. Já a segunda, não – ao contrário do que alegam os defensores de Lula. Foram respeitadas todas as prerrogativas do acusado, o direito ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal.

Mais do que isso: ele pôde responder ao processo em liberdade, ao contrário de outros indiciados da Lava-Jato, inclusive políticos e mesmo correligionários e companheiros de governo, como o ex-ministro Antonio Palocci, ainda na cadeia.

O único constrangimento de Lula foi a condução coercitiva para depor, em seu domicílio, em São Paulo, suficientemente explicada e defendida pelos desembargadores que o condenaram no Tribunal Regional Federal da 4ª região, em Porto Alegre.

Eles lembraram que Lula foi acompanhado pelos advogados e pôde se manter em silêncio, quando quis. A condução tornou-se necessária porque a primeira tentativa fracassara, por tumultos realizados pelos adeptos de Lula. Já no depoimento em juízo, Sérgio Moro admitiu que o réu, se desviando das perguntas, fizesse discurso político, que caberia melhor em um palanque eleitoral.

Veja, portanto, igualou imagens completamente distintas e opostas, não deixando, por isso, de conferir certo status de legalidade à total  ilegalidade e horror da ditadura, contra a qual se  insurgiu, mantendo-se em posição altaneira, até negociar o fim da censura, a um preço exagerado, que provocou a redução da independência da revista.

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