Sábado, 19 Janeiro 2019 12:27

Eunice nota mil

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A manchete da primeira página de O Liberal de hoje é dedicada à paraense que tirou a nota máxima na redação da prova do Enem. Não houve exagero na decisão editorial. O fato merecia até um sinal de exclamação no título da matéria, para traduzir com exatidão o entusiasmo dos conterrâneos de Eunice Costa, de 24 anos, moradora do Benguí, bairro pobre da periferia de Belém.

Ela foi um dos 55 candidatos (de um total de 3,3 milhões que fizeram o teste, para 5,5 milhões de inscritos, com uma abstenção de 24%) a tirar a nota máxima na redação, alcançando os mil pontos. É a elite das elites. Em compensação, 113 mil tiraram zero - ou porque deixaram a página em branco, fugiram do tema ou copiaram o tema motivador.

O tema deveria ter sido considerado fácil: "a manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet". A dissertação deveria ser complementada por uma proposta de intervenção.

Os jovens são usuários (geralmente abusivos) da rede mundial de computadores. Deveriam ter alguma intimidade com o tema. Mas não têm. São usuários apressados, superficiais, intensos na permanência diante da máquina, mas não na reflexão sobre o que ela significa. São, portanto, vítimas de uma tecnologia à qual se entregaram como meros consumidores. Com seu comportamento à mercê da manipulação.

Eunice mesmo se surpreendeu pelo tema. Teve uma boa assimilação por intuição (revelou-se inteligente e perceptiva), experiência (concluiu o curso médio em 2011 e desde então faz vestibular) e uma circunstância especial (abandonou os cursinhos e passou a estudar sozinha, recorrendo a ajuda externa apenas para melhorar em redação). Sua trajetória de estudante desafia as explicações convencionais e generalistas sobre a qualidade da educação no Brasil. Deveria impor aos pesquisadores e ao governo uma profunda revisão sobre a melhor maneira de enfrentar as desigualdades sociais e econômicas para possibilitar o mínimo de isonomia aos pretendentes ao curso superior.

O jornal O Estado de S. Paulo mostrou, hoje, que alunos pobres têm apenas 0,16% de possibilidade de estar entre os melhores do Exame Nacional do Ensino Médio, o meio mais eficiente de chegar à universidade. Já os estudantes com nível socioeconômico maior, têm 25% de oportunidade de estar entre os grupos com as maiores notas.

Logo, a atual política de inclusão escolar através de cotas na entrada na academia é de baixa eficiência, quando não ilusória - ou vã.

Eunice Costa é uma heroína. Desde 2013 ela tenta o curso de medicina, mas não permitiu uma análise sobre as suas chances de, finalmente, ser vitoriosa nessa opção. Ela se recusou a revelar a sua pontuação geral, que inclui, além da redação, as questões objetivas da prova. Um detalhe, é claro, que não ameaça a importância da façanha que ela realizou, mas priva a opinião pública de ter acesso a uma informação importante.

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