Sexta, 22 Março 2019 08:11

Belém

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Cena 1. O homem chega à padaria, se aproxima do balcão de atendimento e pergunta quanto custa o quilo do pão careca. Uma senhora idosa balbucia alguma coisa para o recém-chegado. Está sendo duplamente desrespeitada: é a cabeça da fila e tem prioridade. O homem, alto, forte e de boa aparência, benevolente e generoso, autoriza uma das funcionárias a atender a senhora. Continua com o seu pedido, recebe o pão e vai para o caixa. Nenhuma das outras pessoas se manifesta, embora com a expressão de desagrado no rosto. A insatisfação é engolida em seco.

Cena 2. Um caminhão de produção de concreto chega para atender a obra em uma residência. A rua é estreita, no centro da cidade. Há vários carros estacionados. Sobra a faixa de rolamento de veículos, ocupada pelo caminhão basculante. O motorista desce do veículo e anuncia para o responsável pela obra que vai colocar um pedaço de madeira no cruzamento da rua com uma avenida para poder entregar o concreto. E ninguém mais entra na rua. A fila cresce, com o coro das buzinas.

Cena 3. Um ciclista vem na contramão exatamente quando um pedestre começa a atravessar uma rua de intenso tráfego, em outro cruzamento. O ciclista quase atropela o pedestre, com a ameaça complementar de jogá-lo contra os carros. O pedestre reclama. O ciclista responde, agressivamente, com um palavrão, olhando feio para o idoso que quase atropelou. Vai embora sentindo-se o senhor do universo.

Num intervalo de menos de 10 minutos, um amanhecer comum na antiga Santa Maria de Belém do Grão Pará, uma das cidades mais violentas do mundo, numa comunidade formada por 1,5 milhão de habitantes regidos pela ética de levar vantagem, sob a tradição do jeitinho brasileiro. E pela sentença do seu maior líder político na fase republicana, o general Magalhães barata, autor da frase lapidar: "lei é potoca".

Ler 146 vezes Última modificação em Sexta, 22 Março 2019 09:43
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