Sábado, 23 Março 2019 18:11

Paris/Belém

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A cidade é a maior criação humana. Nenhuma cidade é mais humana do que Paris, obra múltipla e sublime do homem. Nela, a natureza nada mais é do que cenário. Às vezes, como no inverno rigoroso ou nos transbordamentos do Sena, a natureza ameaça a construção humana. Mas é só às vezes. No mais, o grande presente, Paris o oferta aos que caminham pelas suas ruas - sem pressa, sem olhos cobiçosos, sem a sofreguidão do consumo ou a medíocre esperteza turística.

Só o caminhar compassado, langoroso, ao sabor da melancolia simbolista dos seus poetas, é premiado. Só ele permite ver cada recanto humano nas construções da cidade, nos seus becos, museus, buquinistes, igrejas, em casas que adquirem sentido e sentimento pelo conhecimento vívido, da grande literatura francesa, não dos guias obtusos. Paris se oferece ao que a ama e, ao visitá-la, nela deixa, recriada, parte do que a cidade ofereceu, seu frisson civilizado.

São sentimentos que partilho com meu leitor enquanto acompanho Salvatore Adamo, da minha remota adolescência, envelhecido como eu, dirigindo um táxi pela praça da Ópera, dividindo C'est ma vie com Isabelle Boulay, na tela do vídeo, enquanto a chuva desce - agora mais amiga - do céu cinzento de Belém do Pará, livre do sol sempiterno, cidade que amo, na qual a natureza clama ao seu péssimo habitante que a trate à altura da obra da natureza em volta dele. Belém, que deveria tomar sempre Paris por modelo, sem perder a origem lusitana, adaptada aos trópicos exuberantes e predominantes, com sua inigualável marca amazônica, na síntese (por enquanto, utopia) da inteligência de quem é a obra suprema de Deus, o homem.

Mas aqui, infelizmente, e cada vez menos, se esqueceu do que é.

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