Quinta, 25 Abril 2019 13:51

Na "alta sociedade"

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Belém é uma cidade festeira. Nas melhores festas, em boates, costumam se reunir grupos de amigos, que se comunicam diretamente, pelo convício diário, ou pelas redes sociais. O que os une é a mesma origem social: são de classe média ou - para os padrões locais de renda - de classe alta. A maioria se conheceu em colégios pagos, frequentados pela elite da cidade, como o Nazaré, o (já extinto) Moderno ou o Ideal, para o histórico dessas pessoas, com idades em torno de 30 anos, muitas delas já com formação superior.

O consumo de drogas, para as que as experimentaram ocasionalmente ou delas se tornaram usuárias, começou no ensino médio; em  alguns casos, até antes. O início pode ter sido com bebida alcoólica ou a maconha comum, depois substituída pela erva muito mais potente, o skank. A progressão no consumo, chegando ao vício e à dependência, foi numa escala de crescente periculosidade (comprimido de ecstasy, papel de LSD e gota de ácido lisérgico puro) e de custo. Só quem tinha mais dinheiro, seu próprio ou conseguido com os pais, pôde seguir nessa escala.

João de Deus Pinto Rodrigues era um deles. Filho de João Rodrigues, um dos donos da maior rede de supermercados do norte do país, o Líder, podia bancar os seus gastos e de amigos que o cercavam, como líder do grupo. Animava ou promovia festas privadas, em boates ou nas luxuosas casas da sua família, em Belém e em Salinas, com farta circulação de álcool e drogas químicas. Podia incluir remédios tarja preta, sobretudo ansiolíticos, como o Rivotril, que ele tomava, misturado com álcool, que potencializa os efeitos do medicamento.

De 3 para 4 de janeiro de 2015 ele reuniu na residência de Salinas amigos que tinham participado de uma festa numa barraca de praia, no estilo de sempre. A manhã já avançava quando ele começou a passar mal. Perdeu a consciência, teve convulsões, vomitou. Duas amigas que o socorreram testemunharam um episódio de overdose. Mas atribuíram a culpa a Jeferson Michel Miranda Sampaio, amigo de João, apontado como fornecedor de drogas. João conseguiu se recuperar.

Menos de dois meses depois, em 27 de fevereiro, ele bancou a festa de aniversário de um dos amigos, Leonardo Redig, na boate Element Clube, no bairro do Reduto, em Belém. Novamente ele começou a delirar, se convulsionar e vomitar por overdose, que misturou álcool, ansiolítico, maconha e gota. Sua condição física e mental foi se agravando, enquanto os amigos tentavam ajudá-lo. Quando ele perdeu a consciência e desmaiou, ficando inerte, um amigo, médico, chamado em sua casa por telefonema, o socorreu.

Já haviam se passado pelo menos 20 minutos, seguindo-se 10 até a chegada do médico. Quase todos os convidados tinham carros. Nenhum teve a iniciativa de levar João imediatamente para um hospital. Alguns estavam drogados. A esmagadoar maioria dos 40 presentes, drogados.

A condição de João era de tal gravidade que o amigo decidiu levá-lo para o hospital da Unimed, o mais próximo. João seguiu direto para o atendimento de urgência e emergência, mas não respondeu aos procedimentos de reanimação e morreu menos de um minuto depois.

A princípio, parecia o desfecho fatal de mais um episódio de overdose ou consumo exagerado de droga por parte de João de Deus, que era reincidente, conforme reconheceu de público seu tio, Oscar Rodrigues, o principal executivo do grupo Líder, em uma mensagem que postou no seu Facebook, negando qualquer procedência à alegação do irmão, pai de João, de que se tratava de um inusitado crime de overdose por encomenda (o possível mandante nunca foi identificado). Depois, a situação passou para homicídio. O responsável pela morte seria Jeferson Michel, acusado de traficar drogas.

Ele tentara colocar a gota na boca de João em Salinas, sendo impedido por Maria Clara Kalil Hage. Menos de dois meses depois, ele estava na festa na boate, onde teria sido flagrado tentando colocar gota numa embalagem de suco de fruta. O próprio João o impediu de ser expulso. Os dois teriam saído juntos, foram ao estacionamento e juntos de lá voltaram. Em seguida, João começou a se sentir mal. Michel lhe teria dado uma dose exagerada do líquido de ácido lisérgico, a gota. No cadáver, a necrópsia encontrou, além do ácido, muito álcool, maconha e diazepan.

Michel está sendo julgado neste momento pelo 2º tribunal do júri do Estado pelos crimes de homicídio e tráfico de droga. A sessão está em curso. À parte a acusação, o que está em questão subjacente é o consumo de droga, frequentemente em quantidade excessiva, ocasionalmente ou por vício, em ambientes públicos e privados, em festas ou em outras circunstâncias, individualmente ou em grupos, trocando mensagens em redes sociais, incluindo conversas sobre uso e tráfico, ao longo de anos, por gente daquela que, nas colunas sociais da imprensa, é considerada "alta sociedade, a elite, sem providências de pais e autoridades que impeçam desfechos como o de João de Deus Pinto Rodrigues.

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