Sábado, 11 Maio 2019 10:22

E agora, "seu" zé?

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Quando postei o texto 5.000 deste blog, o leitor Thirson Rodrigues de Medina fez o seguinte comentário:

Lúcio, sua resiliência é impressionante.

Reescreve a história do jornalismo, principalmente o amazônida.

Em um futuro, aonde seus registros jornalísticos, constituírem o cerne de velhos cronicões, serás comparado a um Atlante, que sustentou sozinho e nu financeiramente o jornalismo “raiz” se comparado a times de jornalistas contemporâneos que realizam verdadeira força-tarefa,sem o que, não conseguiriam empreender o que você sozinho, jornalista pré-cambriano, produz, com esforço sobre-humano e desaviando ambas as naturezas: a reação humana e o “verão e inverno amazônico”.

Primeiramente, saúde. Em segundo, que consiga a gleba amazônica tão sonhada. E, em terceiro, força, diante dos pataços das hordas de súcias.

Felizmente, com esta colocação, o generoso Thirson me poupou do constrangimento de escrever o que ele escreveu, com maior propriedade e legitimidade. É uma tradução - concisa e precisa - do desafio que enfrento há muitos anos, desde a primeira adolescência, quando comecei a escrever em busca de um leitor externo (até então, eu supunha que meus cometimentos eram poesias, contos e crônicas, para consumo exclusivamente interno). Na forma de jornalismo profissional, essa busca completou 53 anos no último dia 6, quase cinco meses antes que eu completasse 17 anos, estudante do saudoso Colégio Estadual Paes de Carvalho, que as desastrosas gestões posteriores reduziram a escombros, incapazes de compreender o significado da melhor educação.

Quando meu artigo sobre o fim da Segunda Guerra Mundial foi publicado, na primeira página de A Província do Pará (ao lado dele, saiu o aviso fúnebre dos quatro anos de morte do grande jornalista e intelectual Frederico Barata), eu estava pronto para entrar numa redação e escrever sobre a Amazônia. Aquela Amazônia do Tapajós, onde eu nascera, a mil quilômetros da costa brasileira, mas com um modo de vida litorâneo, e de Belém, aonde passaria a viver a partir dos cinco anos. A Amazônia extrativista, de civilização ribeirinha, que só ia mais fundo, na direção da terra firme, até onde a força muscular do seu habitante lhe permitia ir, pela mata cada vez mais densa, e voltar ao ponto de partida, no rio.

A Amazônia pela qual trilhei acompanhando meu pai, nas suas excursões políticas, ou seguindo mentalmente os autores que eu encontrava na sua biblioteca, como o navegador (e puxa-saco do coronel José Júlio de Andrade, o despótico e carismático dono do rio Jari, coronel de barranco como Porfírio de Miranda no Xingu) Raymundo de Moraes, de tantas histórias maravilhosas. Ou o exilado Vianna Moog, que me levou às terras altas da margem esquerda do rio Amazonas, com a altanaria narcisista dos bandeirantes e expedicionários. Ou o sereno imigrante português Ferreira de Castro e sua selva de homens e seringais. E por muitos outros livros impressionistas, de viagens e testemunhos, que pouca gente ainda lê e raros editores se dispõem a republicar. Talvez porque essa Amazônia, que já foi também minha, acabou ou esteja acabando.

De certa forma, eu me acabo com ela. Tenho procurado me manter na linha de frente da sua defesa e de combate aos colonialistas de todos os matizes. Já me defrontei pessoalmente com vários deles, personagens de grande poder (até mesmo admiráveis), desde que tive um tête-à-tête com o engenheiro e empresário Eduardo Celestino Ribeiro, autêntico - em versão atualizada - bandeirante paulista, passando pelo tycoon americano Daniel K. Ludwig, até os espécimes políticos de uma elite bem ruim, como a paraense. E sobrevivi.

Mas sinto que parte considerável de mim se foi nessa guerrilha sem trégua. É a percepção que se impõe em momentos de cessar-fogo, como este, que me proporciona a inexplicável incompetência de uma provedora de meios de comunicação, que o PT de Lula pretendia transformar em multinacional brasileira, graças a favores e subsídios estatais. A conta de chegada me é apresentada às vésperas dos 70 anos, pesada, questionadora, desafiadora e desgastante.Exaurindo as energias e tornando cada vez mais improvável o retorno ao front.

Adoecido, excluído da aposentadoria por tempo de contribuição (por culpa própria e de empregadores que, ao longo de sete anos, descontaram a previdência do meu contracheque sem recolher o dinheiro ao cofre da viúva estatal, cheia de caprichos para com seus privilegiados barnabés e extensões clientelistas e de compadrio), tendo que batalhar por cada tostão obtido no selvagem mercado da exclusão, vejo meu jornal em papel se inviabilizar sem que seja substituído pela crença pessoal nesta tecnologia, maravilhosa quando usufruída a voo de pássaro, sem incomodar o pensamento e qa consciência, esta droga (no sentido estupefaciente) digital.

O que fazer? Para onde ir? Como seguir sem a companhia do leitor comprometido com o mesmo objetivo? Como acreditar no que virá se a cada novo ano o que veio só fez abrir mais um pouco o buraco sem fim da sujeição colonial, tingida de colorido, perfumada por mensagens publicitárias, vendida como néctar dos deuses?

Se, em tais encruzilhadas, é caminhando que se encontra o caminho, então caminhemos - se caminhar ainda for possível. O dia de amanhã, com mais silêncio ou um novo eco de resistência, responderá.

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