Segunda, 13 Maio 2019 10:22

A morte dos sonhadores

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Como pode "um simples canalha matar o rei"? perguntam Beto Guedes e Ronaldo Bastos numa lindíssima canção que compuseram para Milton Nascimento no início dos anos 1980. A pungente revolta dos dois compositores é partilhada por um número crescente de pessoas, atingidas diretamente pelos crimes ou informadas sobre assassinatos cometidos por motivos pueris, torpes ou pela felonia do crime de encomenda, praticado por milícias ou pistoleiros contratados individualmente para eliminar desafetos ou (na perda especificamente lamentada pelos artistas do Clube de Esquina de Belo Horizonte) sonhadores.

Não um sonhador qualquer, de ocasião, do sonho fácil e efêmero: o sonhador que "já sonhou demais", sonhando sem parar porque embarcou no trem da história e não se acovardou, como os que se escondem diante de um novo mundo. São as pessoas indispensáveis, as que fazem a máquina do tempo andar mais rápido, de forma mais justa ou mais humana. 

Por que então, estrela amiga, "você não fez a bala parar?", cobram Beto e Ronaldo pela voz cristalina de Milton Nascimento, talvez num balanço das mortes infames dos anos de chumbo e na premonição das mortes infames sob a democracia que se avizinhava. Por que essa ave-bala continua a voar sobre a cabeça dos seres humanos, vítimas da canalhice de outros seres ditos humanos, como também cobrava o poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto?

Ao leitor, a pergunta.

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