Sábado, 03 Novembro 2018 12:39

Carta de Pequim

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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No final do mês passado, o “Coletivo Esquerda Brasileira na China” divulgou uma Carta de Pequim. Não foi sem tempo. Os integrantes do grupo tomaram, na China, iniciativa que a esquerda brasileira deixou de adotar, o que seria de grande significado prático e teórico. O atraso – evidente e lamentável – permitiu que o presidente eleito Jair Bolsonaro assumisse proeminência para abrir um debate que talvez seja o mais importante do comércio exterior brasileiro. Mas tirando o monopólio dos agentes econômicos. E não deixando Bolsonaro conduzi-lo livremente.

Os exportadores, que logo reagiram, são os maiores beneficiários da posição que a China inicialmente assumiu e consolidou nas relações de troca entre os dois países, superando os Estados Unidos e destronando-o da sua tradicional posição de liderança. Não só na compra de produtos brasileiros, especializados em commodities, como minério de ferro, soja e carne. Também na aplicação de capital estrangeiro, seja de investimento, financeiro e de risco.

Em mais um dos seus impulsos estabanados e desinformados, Jair Bolsonaro anunciou que iria examinar para rever a relação entre Brasil e China, que estaria sendo mais favorável aos chineses, principalmente na dominação de uma vasta infraestrutura (ferrovias, energia, portos) destinada a aumentar o volume e a intensidade das exportações para a Ásia, que colidiria com as determinações da segurança e da soberania nacional. Logo, ele moderou o tom e deixou imprecisa essa abordagem. Ela é extremamente complexa e delicada, com capítulos favoráveis e desfavoráveis aos parceiros, mas sempre crescente.

O Brasil não pode se dar ao luxo de iniciar um contencioso agressivo com os chineses e muito menos se enfileirar com a posição americana de Donald Trump. A equidistância do maior confronto comercial da agenda mundial é indispensável. E a revisão, cautelosa, ainda que firme e esclarecida, urgente e inadiável, com uma visão profunda de cada parte e do todo.

A esquerda nacional tem andado sobre ovos na apreciação objetiva, realista e esclarecedora dessas relações por motivo ideológico, conforme atesta a Carta de Pequim do coletivo brasileiro formado na capital chinesa. Afinal, a China é autodeclarada comunista. E inegavelmente é, pelo prisma político. Pelo econômico, nem um pouco. É tão ou mais capitalista do que os Estados Unidos.

As empresas chinesas que têm investido maciçamente em linhas de transmissão de energia na Amazônia e se aproximam do controle das grandes hidrelétricas da região e dos planos ferroviários e hidroviários são estatais. Nada a ver com a ação de uma Hydro, com a maioria do capital sob o controle do governo norueguês, que é capitalista? Ou é possível aproximá-las numa análise isenta de premissas políticas e ideológicas?

A manifestação do coletivo brasileiro em Pequim merece ser considerada como estímulo à inserção da “questão chinesa” na Amazônia, com atraso de mais de duas décadas. Por isso, transcrevo a parte do documento que trata especificamente do tema, deixando de lado uma distorcida abordagem da questão política nacional que começa com este parágrafo:

“O golpe parlamentar contra a presidente democraticamente eleita, Dilma Rousseff, no dia 31 de agosto de 2016, deflagrou uma crise político-econômica sem precedentes na história da república brasileira”.

O mais elementar senso da realidade histórica imporia pelo menos declarar que o tal golpe agravou a crise. Mas deflagrá-la é mais um exemplo do revisionismo histórico típico dos sistemas ditatoriais, que impõem sua versão como a expressão da verdade absoluta, inquestionável, da qual resultam atos como a proscrição de Trótski da história da revolução russa (inclusive da sua iconografia) por Stálin.

Segue-se a apreciação do coletivo para o necessário debate. Limitei-me a abrir parágrafos para facilitar a leitura.

CARTA DE PEQUIM

Na esfera internacional, o candidato [Bolsonaro] tem adotado posições perigosas à [a] respeito das relações Brasil-China. Eivado de um anticomunismo atroz, Jair Bolsonaro declarou em diversas ocasiões sua oposição à presença chinesa no Brasil, prometendo medidas contra o país asiático em diversas dimensões. Apesar de as economias chinesa e brasileira estarem em um ponto de profunda simbiose, não se pode ignorar estas ameaças.

Assim, dois episódios recentes ilustram o perigo que a candidatura de Bolsonaro representa para a política externa brasileira. Em maio de 2018, o ex-militar fez uma viagem pela Ásia onde privilegiou uma visita à Taiwan, irritando as autoridades chinesas e ferindo o princípio da China Única assumido pelo próprio Brasil. Em outubro de 2017, em Miami nos Estados Unidos, em um evento informal da comunidade brasileira, Bolsonaro bateu continência para a bandeira estadunidense, transparecendo sua preferência de alinhamento geopolítico.

Vale ressaltar que, além de a China consistir na maior parceria estratégica do Brasil, a cooperação sino-brasileira se insere em um projeto de horizontalidade na política internacional, no qual iniciativas como os BRICS buscam reconfigurar as características de subalternidade e desigualdade que tradicionalmente sintetizavam as relações internacionais e a governança global.

A candidatura de Bolsonaro em suas palavras e promessas negam a própria história do Brasil e das instituições nas quais ela se funda. Suas inverdades e sonegações históricas violam o direito à memória e ignoram o enfrentamento histórico às injustiças e ao fortalecimento da estabilidade da nação e sua credibilidade internacional.

Por tais razões, parte da comunidade brasileira na China tem se articulado para discutir os impactos desse projeto ideológico para o Brasil, e ratificar seu rechaço ao que ele representa em múltiplas dimensões. No primeiro turno, Bolsonaro ganhou com expressiva maioria nos colégios eleitorais estabelecidos pelas representações diplomáticas do Brasil na China. Ainda que pareça quase inexplicável o fato de brasileiros residentes em um país autoproclamado socialista e com forte viés estatizante escolherem um candidato que representa a antítese de tudo o que eles vivem e experimentam no país asiático, este resultado é um irônico retrato das contradições pela qual o Brasil passa.

É preciso ter clareza que dia 28 não é apenas um segundo turno de eleição presidencial, é um plebiscito entre civilização ou barbárie, entre democracia e ditadura. Fascismo não é coisa de filmes, é real e já está fazendo vítimas por todo o país. A indiferença pode cobrar um alto preço e, portanto, exige de todos um posicionamento. Dessa forma, como coletivo de profissionais, estudantes, acadêmicas(os), cidadãs(os), reforçamos o movimento nacional e global em suporte ao “#ELENÃO” e contra a fascitização da sociedade brasileira, porque não queremos fazer do nosso passado colonial e ditatorial um permanente presente, e porque queremos seguir construindo nossa brasilidade na diversidade e no pluralismo.

O Brasil é um país complexo cujos problemas não apareceram do dia para e noite e não desaparecerão desta forma. Não há saídas fáceis, mas o caminho é persistir no fortalecimento da nossa democracia, na expansão de conquistas civilizatórias para todo o conjunto da população brasileira, na luta contra a desigualdade social, no combate a qualquer tipo de discriminação e violência contra minorias.
*Coletivo esquerda brasileira na China é composto por brasileiros residentes na China e se organiza principalmente através da plataforma de mensagens instantâneas WeChat, onde articula debates e encontros presenciais

Ler 82 vezes Última modificação em Domingo, 06 Janeiro 2019 12:12

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