Sexta, 14 Dezembro 2018 14:59

Lula: situação se complica

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A cada nova ação instaurada contra ele na justiça, os indícios e provas das acusações feitas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficam mais robustas, como agora que ele se tornou réu na primeira denúncia da força-tarefa da Operação Lava-Jato em São Paulo. O Ministério Público Federal o acusa de lavagem de dinheiro, ao receber um milhão de reais como doação para o Instituto Lula.

O dinheiro seria uma retribuição do grupo empresarial brasileiro ARG pela  influência que o ex-presidente teria exercido sobre decisões do presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang. O líder petista não foi denunciado por tráfico de influência, porque o crime prescreveu quando ele completou 70 anos, em 2015. A denúncia, apresentada no mês passado, foi aceita hoje pela juíza federal Michele Camini Mickelberg, titular da 2ª vara federal de São Paulo.

Segundo o MPF, em 2011, um ano depois de transmitir a presidência para Dilma Rousseff, Lula foi procurado por Rodolfo Giannetti Geo. O controlador do grupo ARG (que também responderá por tráfico de influência em transação comercial internacional e lavagem de dinheiro) lhe pediu que “buscasse o auxílio do mandatário da Guiné Equatorial para que o governo africano continuasse realizando transações comerciais com o Grupo ARG, especialmente na construção de rodovias. A empresa atuava desde 2007 no país africano.

Como uma das provas juntadas aos autos está um e-mail datado de 5 de outubro de 2011, no qual o ex-ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, comunica a Clara Ant, diretora do Instituto Lula, que o ex-presidente lhe dissera que gostaria de falar com Geo sobre seus interesses na Guiné. O ex-ministro acrescentou que a empresa estava disposta a fazer uma contribuição financeira “bastante importante” ao Instituto Lula.

No ano seguinte, o empresário encaminhou por e-mail para Clara Ant uma carta digitalizada de Teodoro Obiang para Lula. Queria entregar pessoalmente a correspondência a Lula e lhe pedir a resposta, que levaria em mãos quando voltasse à Guine,  em 20 de maio de 2012.

Lula escreveu uma carta a Obiang, datada da véspera. Nela, mencionou um telefonema que ambos haviam mantido, acrescentando sua confiança em que a Guiné Equatorial poderia vir a ingressar na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Citou então o empresário, que dirigia uma empresa “que já desde 2007 se familiarizou com a Guiné Equatorial, destacando-se na construção de estradas”. De acordo com a denúncia, Geo teria entregado em mãos a carta de Lula a Obiang.

A força-tarefa da Lava-Jato localizou um registro de transferência bancária de um milhão de reais ao Instituto Lula em 18 de junho de 2012. O instituto emitiu recibo e registrou o valor como doação. Os procuradores federais entendem, no entanto, não se tratar de doação, mas pagamento pelo líder petista ter “influenciado o presidente de outro país no exercício de sua função”. Assim, se caracterizaria a lavagem de dinheiro.

Quando da denúncia pelo MPF, a defesa de Lula sustentou que a iniciativa  “subverte a lei e os fatos para fabricar uma acusação e dar continuidade a uma perseguição política sem precedentes pela via judicial”. Seria mais um “golpe no Estado de Direito”. Ressaltou que a doação foi devidamente contabilizada e declarada, A acusação era apresentada “com base na retórica, sem apoio em qualquer conduta específica praticada pelo ex-presidente Lula”.

Mesmo admitindo-se as alegações da defesa, pode-se perguntar: por que Lula não encaminhou o empresário a Dilma Rousseff, já que a questão, mesmo envolvendo uma empresa particular, tinha implicações com o comércio internacional e a política exterior do Brasil? Ainda mais que Obiang é um ditador, que comanda o país com violência há quatro décadas.

Mesmo que decidisse intermediar pessoalmente a relação, por que Lula não evitou a participação do empresário, o mais interessado no tema, deixando que ele funcionasse como seu pombo-correio? Por que Lula não se preveniu para a acusação eu acabou por lhe ser feita, agradecendo a doação expressiva, mas a dispensando para evitar aproveitamentos e deturpações, de olho no adágio de que à mulher de Cesar não basta ser honesta, mas também parecer honesta?

Ler 79 vezes Última modificação em Segunda, 07 Janeiro 2019 22:03

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