Segunda, 05 Novembro 2018 13:04

Lula: não sabe, não fala

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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(Publicado no blog em 24 de setembro de 2014)

Há sete meses a Polícia Federal tenta ouvir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas investigações sobre o chamado mensalão. Até agora os pedidos são na forma de convite, que o destinatário pode ou não aceitar. Se fosse na forma de intimação, em caso de recusa teria que ser levado coercitivamente, obrigado assim a depor. Lula foi apontado como tendo ciência dos fatos e deles se beneficiado por Marcos Valério, o principal “operador” do esquema de propina paga a políticos em troca da votação com o governo.

Valério formalizou suas denúncias junto à Procuradoria Geral da República em 2012, quando já estava condenado, mas ainda sem a sentença. Quando ela veio, pegou a pena maior: foi condenado a mais de 40 anos de prisão por diversos crimes, entre eles o de lavagem de dinheiro. No depoimento, acusou Lula de saber da existência do mensalão e de ter se beneficiado pessoalmente do esquema.

O publicitário mineiro, até então personagem restrito aos limites do seu Estado, disse que repassou quase 100 mil reais através da empresa de um ex-assessor de Lula para pagar despesas pessoais do então presidente em 2003. Declarou ainda que Lula e o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, intercederam junto à companhia Portugal Telecom para que a empresa repassasse R$ 7 milhões ao PT.

As declarações de Valério se transformaram em pelo menos dois inquéritos policiais, que tramitam em Brasília e Minas Gerais. Foram instaurados outros seis procedimentos no Ministério Público Federal para apurar as acusações do operador do mensalão. Desses, pelo menos dois já foram arquivados, segundo apurou a Folha de S. Paulo. Procurado pelo jornal, o Instituto Lula não se pronunciou.

Segundo a Folha de hoje, o ex-presidente (2003/2010) “se esquiva dos ofícios por temer a exploração política das suas declarações, principalmente agora, no auge da campanha eleitoral”. Mas em fevereiro, quando a delegada Andrea Pinho, responsável por apurar as denúncias, em Brasília, começou a fazer os convites, não havia ainda eleição.

A policial não conseguiu até hoje que sua chefia aceitasse transformar o convite em intimação, como a situação já requer. Só obteve o que não pediu: foi removida do cargo que ocupava na Superintendência da PF em Brasília no mesmo mês de fevereiro. Mas continuou à frente da investigação. Mesmo não tendo a obrigação de depor, Lula bem que podia ajudar na apuração que a delegada da PF está realizando, em busca da verdade.

Há caminhos legais para ele se recusar a depor para a delegada, mas, afinal, tanto Lula quanto Dilma Rousseff têm dito – e agora na propaganda eleitoral – que a Polícia Federal só se tornou independente depois que o PT assumiu o governo federal. E que o aparecimento de tantos escândalos de corrupção se deve justamente a essa nova circunstância. Antes, como ressaltou a candidata à reeleição, “tudo era colocado para debaixo do tapeta; agora, não é mais”.

Por que então fugir à responsabilidade de cidadão? Se Lula garante que nada sabia das ilicitudes da sua turma de “aloprados”, era a hora de, confrontado com os fatos, demonstrar sua inocência e contribuir para a apuração de responsabilidade dos faltosos. Seu comportamento se assemelha ao da ditadura militar. Chamado a testemunhar sobre a tortura nos quartéis e repartições públicas, o general Ernesto Geisel, terceiro presidente do regime de exceção, disse que era coisa dos “bolsões radicais, mas sinceros”. Ou seja: pecado venial, remido com meia dúzia de credos.

Seria esse também o pecado dos “aloprados” do esquema do mensalão? Ou, mais uma vez, o que o PT diz não é para levar a sério?

Ler 137 vezes Última modificação em Domingo, 06 Janeiro 2019 09:52

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