Quarta, 12 Setembro 2018 20:29

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Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Orquídeas da Amazônia

(JP 243, setembro de 2000)

 

Escrevi o texto abaixo para apresentar o CD Olá, Belém. Cantos do Portal da Amazônia, produzido por Carlos Lima e lançado no início do mês em Belém.

Todas as cidades do mundo são diferentes umas das outras. Mas poucas são únicas. Paris é uma delas: toda a sua beleza é uma construção humana, que deixou a natureza do lado de fora. Ou Veneza, acampada em palácios sobre canais de um pântano salino. Ou, apesar de tudo, Belém.

O que faz Belém ser única no planeta? O engenho de uma arquitetura europeia transplantada ipisis literis para o trópico amazônico, em seu interior, mas esnobando-o (ficou até de costas para o rio/rua). Resultado do empenho de uma elite momentaneamente endinheirada de continuar esse projeto, um século depois, na elástica era da borracha. A síntese de um sincretismo acasalado na malevolência. Disso surgindo a cor, o cheiro, o gingado, a cama, a cozinha, a rua, a calçada, os beirais, o telhado, os ais.

Quem chega a Belém percebe logo essa diferença, vendo e sentindo, razão e instinto, um mundo aquém e além do cálculo. As ruas podem estar esburacadas, o lixo é capaz de estar esparramado, o esgoto visível a céu aberto, as marcas do abandono e da incúria. Mas essa gata borralheira, que já foi princesa, pode voltar aos seus encantos num zaz-traz. Eles estão escondidos, mas ainda existem, latejantes, pedintes. Temos feito muito para acabar com o que resta, mas nem essa terrível elite dirigente conseguiu deixar a terra completamente arrasada. A terra fértil ainda se oferece à fecundação.

Como a deste disco. Ouvindo com atenção, temos a sensação de que são músicas do exílio. Cantores e compositores reunidos neste CD cantam a saudade, lamentam a perda. Mas não deixam de registrar a beleza, de acreditar no futuro, mesmo que ele seja a volta. Estão exilados no Rio de Janeiro ou em São Paulo, mas também na própria Belém, sob os escombros da mais bela cidade que os portugueses construíram fora da terra natal, como se estivessem na ilharga do Tejo. E que índios e caboclos decoraram com suas flores e encheram dos odores das suas pripriocas, para as festas de sempre, festivas mesmo ou guerreiras, de verdade. Não surpreende que cantem o merengue, o carimbó e o bolero como se manejassem o fado, abrindo portas para o Caribe (pela verve de Paulo & Ruy Barata) e para as noites boêmias sem fim (com Elói Iglésias) e com um tema lançado ao ar (de Chico Sena).

Se é tão grande a nossa riqueza e tão única a nossa identidade, por que temos que invejar a Bahia, propõe Osvaldo Oliveira, fazendo uma correlação que não nos deixa mal. O cancioneiro deste disco é de primeira linha, com seus hinos sentimentais (ao invés da convencional grandiloquência), presentes de Edyr Proença (um deles com Adalcinda Camarão, cabocla de exportação), e as diferentes visões desta cidade à beira da idade quatrocentã, encantadora para peregrinos mais antigos, como Luiz Gonzaga, e para exilados musicais do passado (o rústico Osvaldo Oliveira, voz dos subúrbios agitados), verso de trovadores como João de Jesus e Alcir, Serrão e Guilherme.

O negócio é seguir os artistas deste CD, flautistas de Belém: rir e chorar, cantar e dançar, através de qualquer forma, expressar o nosso amor sofrido e resistente por Santa Maria de Belém do Grão-Pará, a flor amazônica da Terra, deste país que se chama Pará, de Paranatinga, das barrancas do Guamá, recebendo as águas do Moju, do Tocantins, do Acará, do Guajará, da Gaia & de todo o planeta do rio-mar, amém. Além.

Ler 149 vezes Última modificação em Segunda, 07 Janeiro 2019 20:47

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