Quinta, 08 Novembro 2018 14:09

O desastre continua

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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(Publicado no blog em 8 de fevereiro de 2015)

Noticia a grande imprensa nacional que desde o início do escândalo criado pela Operação Lava-Jato, a presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, pediu demissão por três vezes. Sua superiora e amiga, a presidente Dilma Rousseff, a confirmou no cargo, a despeito do enorme custo – imediato e futuro – de manter uma diretoria que se esvaía com a perda de confiança e credibilidade. Foster era competente e honesta, por isso devia continuar à frente da maior empresa do país.

Provavelmente ela já não tinha mais dúvida de que sua biografia estava destruída, depois de 30 anos de trabalho na mesma empresa, na qual galgou do mais humilde cargo ao mais elevado de todos, tornando-se uma das pessoas mais influentes na oitava economia mundial.

Decidiu recuperar um pouco do seu respeito assumindo corajosamente a responsabilidade por um dos maiores desastres empresariais da história do Brasil. Admitiu que em 31 dos 52 ativos contabilizados da Petrobrás havia um excesso de valor equivalente a 88,6 bilhões de reais. Evidentemente, essa diferença não resulta apenas nem principalmente da corrupção que a força tarefa adida ao juiz Sérgio Moro apura, mas também de descontrole administrativo.

A Petrobrás deixou de ser rigorosa na apuração do seu patrimônio. A leniência, irresponsabilidade ou leviandade na condução e apropriação de valores patrimoniais certamente é produto – ao menos em boa parte – da infiltração de dirigentes corruptos em combinação com políticos também corruptos e empresários corruptores, que sabotaram por dentro a Petrobrás.

A presidente não gostou do que leu e chamou Foster ao Palácio do Planalto. Anos de amizade e de declarada confiança vieram abaixo numa conversa de quase duas horas, que deve ter sido muito dura. Mas a presidente da estatal resolveu aceitar permanecer no cargo até que estivesse encaminhado ou pronto um balanço auditado da empresa. Se até junho esse serviço não estiver concluído, credores podem antecipar o vencimento dos seus títulos e a Petrobrás terá que honrá-los. O caldo entornará de vez.

De volta ao Rio de Janeiro, Graças (no plural mesmo) Foster encontrou sua diretoria rebelada contra o governo. A renúncia, que devia ter sido apresentada meses antes, mesmo que todos os diretores fossem pessoas acima de qualquer suspeita, foi precipitada. E, por incrível que pareça, apanhou desprevenido o sócio controlador de uma estatal que tem milhares e milhares de acionistas, pessoas físicas ou jurídicas.

Dilma Rousseff, indiferente ao significado mais profundo da crise, resolveu fechar o perigoso vazamento com um tampão utilitário. Mandou um presidente que cumpre suas ordens, por mais que já esteja provada a incapacidade de a presidente da república ser uma adequada dirigente de uma empresa do porte da Petrobrás (sem falar no país).

Na pressa, colocou num cenário em chamas alguém que chega com um rastilho de pólvora, o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine. Mesmo que ele consiga se livrar das acusações que já traz consigo de favorecimento a uma amiga e outras coisas mais, inclusive a suspeita de declaração incorreta de renda à Receita Federal, sua presença levou a uma observação melancólica: com a demissão de Foster, o Conselho de Administração da Petrobrás perdeu o único dos seus integrantes que entendia de petróleo. Todos, agora, são neófitos na matéria.

Talvez nem fosse necessário adotar o critério da especialização para o preenchimento do cargo. O problema é que o governo repetiu o mesmo erro que levou ao agravamento da corrupção na Petrobrás. O nome do substituto de Foster já circulava pela mídia antes de qualquer comunicação oficial ao próprio Conselho de Administração ou à Comissão de Valores Mobiliários. Mais uma vez uma formalidade essencial do processo foi ignorada para que a vontade majestática da chefa do governo passasse a ter força de lei. Às pressas, para criar um fato consumado,mesmo que desastrado.

Pelo jeito, a crise vai continuar. E se agravar ainda mais.

Ler 141 vezes Última modificação em Domingo, 06 Janeiro 2019 12:09

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