Domingo, 12 Agosto 2018 13:36

Pela cidade

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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De vez em quando, faço longos passeios de inspeção pela cidade, como flaneur e como jornalista. Hoje cedo circulei pela Campina e a Cidade Velha. Descendo pela João Alfredo, a principal via do decadente e deteriorado centro comercial, me surpreendi pela ausência do mercado dos produtos piratas. Milhares de CDs, DVDs e outras bugigangas eletrônicas e digitais são ali comercializadas. A pirataria sempre foi retomada depois que alguma batida repressiva passava. Agora chegou ao fim ou é mera deferência ao dia dos pais?

A doca do Ver-o-Peso, com seu ponto central, a pedra, na qual os peixes mais baratos são expostos e comercializados, tinha poucos barcos e poucos fregueses. Não estava tão cedo quanto costuma ser a minha incursão por ali, mas também estranhei. Com a maré baixa, a sujeira de sempre era um banquete para dezenas de urubus. Quando a água subir, o que restar – plásticos, latas e vidro, sobretudo – agredirá ainda mais a poluidíssima baía do Guajará, se dissipando até chegar ao mar, que saberá então da incivilidade dos paraenses (não os acaraenses arquetípicos de Haroldo Maranhão).

No largo da Sé, a frustração do projeto do secretário de Cultura, de ali instalar um polo de gastronomia, tirou o interesse dele pelo local. O ar de abandono e desleixo está caracterizado pela inatividade do caro chafariz importado, que está em longa manutenção, tão longa que o limo e a vegetação rasteira crescem, muito obrigado, dr. Paulo.

A parte mais cara, difícil e complexa realizada, o palacete Pinho recuperou sua imponência e importância. Anos de indefinição da prefeitura exigem que ele volte a ser recuperado, tão sem uso quanto o chafariz, que deveria atrair e deslumbrar os visitantes ou passantes. Vidros quebrados de janelas, deterioradas, pintura descascada, vegetação invasiva, abandono – o contraste é brutal ao lado, com a bela casa da pintora Dina Oliveira, que mantém seu casarão nos trinques, com recursos próprios. Atestado da incompetência do poder público – e não só municipal. E da população, que assiste a tudo bestializada, como os brasileiros em geral diante do nascimento noturno da república.

O Bar do Parque que se vê agora, ao amanhecer, nada tem a ver com a tradição do local. O ambiente está mais adequado a um bom café da manhã, o que era impossível, mais recentemente e sempre. Mas é ambiente para turista ou belenense de alto poder de compra. Os produtos são todos caros.

O sanduíche que homenageia o extinto (em má hora) Café Santos (leitão acebolado no pão careca) sai por 20 reais. No velho café do comércio ficaria por pouco mais de um terço desse valor. Um pão na chapa custa R$ 5,00, o mesmo preço de uma tapioca na manteiga; com ovo, vai para R$ 6,50.  Não dá para dizer por quanto sairia o café da manhã porque o cardápio não traz o café. Mas não custaria menos do que R$ 15. O prato mais caro é um file tornedor com arroz à portuguesa e farofa de ovo: R$ 58.

Os concessionários do quiosquue investiram muito para enterrar o Bacteria’s Bar dos últimos tempos, que era um atentado à saúde e ao bem estar, suficientemente sujo e perigoso para afastar velhos clientes. Mas o projeto do novo Bar do Parque é equivocado. Suas instalações são acanhadas demais para um estabelecimento que se dispõe a oferecer café da manhã, almoço e jantar. O serviço é prejudicado. O atendimento fica tumultuado. E caro o bastante para reduzir – talvez demais – a freguesia. E culturalmente desvinculado da tradição da “casa”.

Como antigo frequentador do velho e bom Bar do Parque, espero estar errado na avaliação. Se estiver certo, que os novos concessionários corrijam os erros da sua concepção maneirista para que Belém volte a ter um dos seus pontos mais deliciosos, com preços, qualidade, segurança e usufruto, graças à sua localização.

Ler 137 vezes Última modificação em Segunda, 07 Janeiro 2019 17:57
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