Quinta, 23 Agosto 2018 14:25

Viver e morrer em Belém

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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O cadáver  está estirado no meio-fio, tomado por mato, na estrada do Curuçambá, perto do campo de futebol do Vasquinho. Um pano cobre o corpo. Apenas os pés estão visíveis. Uma mulher sentada no que era a calçada, antes de ser tomada pela vegetação; outra mulher em pé e um homem sentado aguardam. Ao lado, numa alta parede descorada e suja, como quase tudo por ali, uma pichação: “SALVE C. V. PA. PROIBIDO ROUBA NA COMUNIDADE”. O verbo foi corrigido. Quem escreveu a frase puxou um traço e acrescentou o “r” no final de rouba. A sigla é da versão paraense do Comando Vermelho, uma das centrais criminais do país, a de maior presença no Pará.

A cena foi registrada pelo fotógrafo Celso Rodrigues e publicada na edição de hoje do Diário do Pará no seu tabloide policial. Sem legenda.

O morto era Edivã Silva Nascimento, de 28 anos, ex-presidiário, que ontem foi ao fórum de Ananindeua para formalizar o fim da sua liberdade condicional, voltando à vida normal, depois de cumprir a pena. Ele foi preso por latrocínio, o crime seguido de morte. Homens encapuzados num carro prata lhe deram cinco tiros.

Meia hora depois, no mesmo bairro do Curuçambá, na área metropolitana de Belém, a vítima era Jefferson Leandro Pinheiro Nascimento, de 25 anos, um foragido Colônia Penal Heleno Fragoso. Ele foi morto com três tiros.

Dois criminosos executados em horários e locais próximos. Por um mesmo grupo de extermínio, em plena luz do dia, diante de testemunhas, protegidos por capuz e talvez tendo recolhido as cápsulas detonadas (ou alguma testemunha as levou ou enterrou)?

A periferia de Belém, entregue á própria sorte, é esse inferno. Viver é perigoso. Viver é uma loteria. Morrer é uma circunstancia, um acaso ou uma fatalidade. A vontade humana é secundária. O governo, um ausente criminoso.

Ler 168 vezes Última modificação em Segunda, 07 Janeiro 2019 14:41

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