Quarta, 04 Julho 2018 08:54

Belém (24)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Nova capital: uma conurbação tucana

(Jornal Pessoal, 2001)

Poderoso, quando forçado a polemizar, jamais cita o nome do contendor ao qual está se referindo. Não podendo conter sua reação, pune o desafeto impingindo-lhe o anonimato. E trata de desqualificar o argumento contrário atribuindo-lhe ignorância, despreparo, primarismo. Não é ao crítico que responde, mas a si mesmo. Lambe as feridas abertas. Crê no poder miraculoso de sua saliva.

Foi agindo assim que o governador Almir Gabriel deu o tom da tréplica na controvérsia sobre o seu projeto de estabelecer em Belo Monte, no Xingu, a nova capital do Pará. Sustenta que Belém vai sofrer, sim, uma pressão demográfica capaz de transformá-la numa megalópolis de 8 milhões de habitantes dentro de quatro décadas.

Desdenha de quem (até aqui, só eu), estabelecendo um paralelismo entre Belém e Manaus, coloca a capital amazonense no lugar que foi da capital paraense como metrópole da Amazônia, simplesmente por já possuir mais habitantes.

Esse intragável crítico – deve ter pensado sua excelência, antes de falar aos repórteres – desconhece o fenômeno da conurbação, por isso proclama semelhante besteira.

De fato, o município de Manaus tem população superior ao de Belém, mas a área metropolitana da capital do Pará supera em habitantes a da capital do Amazonas. Manaus não se espraia por municípios vizinhos, incorporando-os ao seu tecido urbano, “conurbando-os”. Mesmo porque já concentra metade da população do Estado baré. O interior se pulveriza demograficamente em um território de 1,5 milhão de quilômetros quadrados.

Incorporando Ananindeua, Marituba e Benevides, a população metropolitana de Belém vai a 1,8 milhão de habitantes, número que daria razão ao governador. Daria, se o melhor critério da verdade fosse o solilóquio (ou o monólogo).

A unidade de referência da análise era o município, não a área metropolitana, Recorrer à metropolização ao se referir a uma das capitais, restringindo o limite municipal às demais, é cometer um insanável erro metodológico.

Tão imperdoável quanto achar que um sociólogo razoavelmente bem formado pode não saber o que significa conurbação (o sociólogo, por sua vez, não põe em dúvida o profundo conhecimento do governador em questões médicas, eximindo-se de ir desafiá-lo nessa seara para não se expor ao ridículo).

Aceitando-se a indução do governador para uma análise metropolitana, ainda assim se verifica que a conurbação, ao invés de agravar a situação de Belém nesse conjunto, a alivia. Entre 1996 e 2000, Belém registrou uma taxa de incremento demográfico (2,84% ao ano) inferior às de Marituba (11,26%), Benevides (5,88%) e Ananindeua (3,59%).

Parcelas crescentes da população imigrante já não se instalam na capital, preferindo as cidades satélites. A entrada líquida também foi atenuada pela saída de moradores da capital para os municípios metropolitanos (e para outros, na margem oposta do Guamá).

Esse movimento espontâneo pode ser incrementado se o governador considerar sua contestação um pouco mais do que retórica, interferindo para que a área metropolitana de Belém deixe de ser apenas um título pendurado na parede.

A integração entre os municípios “conurbados” pela capital é mínima. Motivos não faltam para eles se unirem, mas a política age no sentido do desentendimento, uma política rasteira, personalista, imperial. Se conseguisse estabelecer políticas comuns, complementares, afinadas, o governador faria muito mais em favor de Belém do que transferindo a capital para outro lugar.

Mas enquanto isso não acontece, deve-se levar em consideração o município, que exerce sua autonomia e jurisdição apenas dentro do seu limite territorial. Com o projeto de Belo Monte, não há dúvida que o governador está desferindo um golpe mortal em Belém. Tirar-lhe a condição de sede administrativa do Estado significa privá-la dos meios que já possui para enfrentar os mesmos problemas, agigantando-os, por consequência. O resto é ciência tucana. Talvez bruxaria.

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