Domingo, 11 Novembro 2018 14:33

O shopping, o caos e a omissão

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Dentro de uma semana, o shopping Boulevard completará nove anos de funcionamento em Belém. É considerado o estabelecimento de elite do setor, frequentado pelos clientes com maior poder de compra. Principalmente por um detalhe: fica às margens da Doca de Souza Franco, avenida que se tornou um dos points da cidade, ponto de convergência e espaço de caminhada (o “footing”) de parte da elite, que mora no bairro com o metro quadrado mais caro da capital paraense.

Por ironia, num passado já remoto, o Umarizal foi local de concentração de moradores negros, instalados em pequenas casas geminadas, com seus hábitos e sua cultura, principalmente musical, simbolizada pelo filho de escravos, encadernador emérito, violonista dos melhores e compositor de raro repertório Tó Teixeira. Ainda hoje, sua marca maior é o antigo igarapé das Almas, hoje transformado no canal da Doca, na paisagem reconstruida: do curso d’água livre, ao esgoto canalizado a céu aberto; das casas de madeira da baixada da Marechal Hermes para as torres gêmeas de concreto com 40 andares, as mais altas de Belém.

Os frequentadores do shopping, como os atletas pasteurizados, só veem o presente, regozijados por estarem no topo da pirâmide social. Eles limitam a sua visão ao prédio de concreto. São indiferentes ao desperdício dos seus andares mais elevados para uso como garagem (de acesso exageradamente inclinado), que poderiam servir como privilegiado observatório da paisagem para a baía do Guajará e o rio Guamá, ajudando os belenenses a  se livrar do seu emparedamento medieval do bioma amazônico.

Mais indiferentes ainda são os frequentadores do templo do comércio de griffe aos lados e aos fundos do caixote de concreto, onde estão algumas das vias de maior fluxo do maltratado bairro do Reduto, glorioso num passado ignorado. Desde que a obra começou e ao longo dos 22 meses da sua duração, uma realidade estava escancarada pelos seus 35 mil metros quadrados de área bruta: seria conflituosa a convivência do bairro com aquela irrupção estranha e agressiva à realidade em torno dela. Os moradores vizinhos são atormentados nos fins de semana e nos feriados festivos pelo congestionamento de carros, agravado pela incivilidade dos motoristas, que se aproximam daquele centro de consumo movidos pela selvageria de compradores compulsivos e pela pressão da falta de alternativas de lazer na cidade.

Mas há um tormento diário para todos aqueles que circulam pela área do shopping a partir das 10 horas de todas as manhãs. Em qualquer horário, na saída dos carros estacionados nas garagens do estabelecimento: sem espaço para manobra, eles saem diretamente na rua, quase atropelando pedestres desatentos e engrossando o fluxo dos veículos externos. No horário de abertura das lojas os caminhões de abastecimento estacionam dos dois lados da rua Aristides Lobo, manobrando de um lado para outro sem levar em consideração a fila única dos que querem passar e são bloqueados. Que gritem, reclamem e esperneiem: seus ecos morrerão no deserto institucional.

É claro que, criado o mal, é preciso resolver os seus efeitos danosos (e daninhos). O shopping, não podendo ser implodido, tem que funcionar. Mas as pessoas precisam ser respeitadas. Logo, por que a ausência mais notada, religiosamente mantida, de guardas da Ctbel? Por que, sabendo da situação, da múltipla e constante infração ao código de trânsito, eles não aparecem no local para conciliar o conflito cotidiano e impor o mínimo de respeito às leis? Por que se negam a cumprir o seu dever e suprir a clamorosa falha, mais grave ainda porque previsível?

Quem souber a resposta, que a apresente.

Ler 165 vezes Última modificação em Domingo, 06 Janeiro 2019 11:03
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