Segunda, 12 Novembro 2018 14:44

O golpe dos R$ 3,3 bilhões

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Apenas com uma procuração e um substabelecimento falsos, uma quadrilha quase se apossou de 3,3 bilhões de reais do Banco do Brasil em Belém. O “quase” ficou por conta da então juíza Vera Araújo de Souza (promovida posteriormente ao desembargo por merecimento) e da desembargadora Marneide Pereira Merabet, que autorizaram o saque do dinheiro, apesar da fraude evidente, tão grosseira ela era.

No final do ano passado, o Conselho Nacional da Justiça aplicou a pena máxima prevista na legislação, por considerar que as duas magistradas agiram de forma negligente no processo. Elas foram aposentadas compulsoriamente no cargo em que estavam, com o vencimento que recebiam, em torno de 30 mil reais.

Já o cidadão mineiro Francisco Nunes Pereira tenta limpar seu nome, utilizado pelos três integrantes da quadrilha, Antônio Vallinoto Neto, Juarez Correa dos Anjos e Antônio Carvalho Lobo. Os problemas do administrador de empresas, hoje com 66 anos, começaram em 1994, quando seus documentos (carteira de identidade e CPF) foram furtados.

Uma pessoa de Goiânia ligou para ele e lhe informou que seus documentos estavam sendo usados para compras feitas no mercado local. Francisco fez o devido registro na delegacia de polícia em Tatuí, Minas Gerais, mas não se livrou dos falsários, que continuaram a se valer dos documentos. Por isso, seu nome foi lançado na ficha suja da Serasa e do SPC.

Em 2011 ele veio a Belém para ser acareado com os três estelionatários, que admitiram não conhecer o verdadeiro dono dos documentos que utilizavam para aplicar seus golpes em várias cidades brasileiras. A inocência de Francisco Nunes foi provada, mas ele continua a su peregrinação para se livrar da má fama que ganhou injustamente. E de forma absurda.

A HISTÓRIA DO GOLPE

Tem-se uma ideia da grosseira armação colocando-se na posição de um juiz de direito, em cujo gabinete se apresenta um cidadão para dizer que lhe será apresentada uma ação, que acabara de ptocolar. Nela, pede “apenas” que você mande bloquear 3,3 bilhões de reais, que estão depositados em contas dessa pessoa no Banco do Brasil. Não depositados na véspera ou um mês antes, mas há três anos.

Tratava-se de um volume dinheiro 65 mil vezes maior do que os R$ 51 milhões apreendidos pela Polícia Federal e atribuídos ao ex-deputado federal e ex-ministro Geddel vieira Lima, na maior apreensão de dinheiro vivo da história do Brasil. Equivaliam na época a 20% do orçamento anual do Pará, o 9º Estado em população do Brasil.

Durante os cinco anos, o dinheiro teria permanecido parado nas contas, sem aplicação e, por isso, sem qualquer rendimento. À taxa de 1% ao mês, daria ao seu dono R$ 33 milhões de juros. Viraria um dos homens mais ricos do planeta.

Este é o sumário de uma das mais escabrosas e inacreditáveis histórias da justiça do Pará e do Brasil, concluída no dia 12 de dezembro de 2017.

Foi quando o Conselho Nacional de Justiça, à unanimidade, condenou as desembargadoras Marneide Trindade Pereira Merabet e Vera Araújo de Souza à pena de aposentadoria compulsória pela conduta negligente nessa tentativa de golpe bilionário aplicada por uma quadrilha de estelionatários ao Banco do Brasil, em 2010.

A história começou com uma ação surpreendente proposta pelo falso advogado do falso Francisco Nunes Pereira, de usucapião especial. Mas a propriedade que ele pretendia garantir para si não era um imóvel, rural ou urbano, como seria de se esperar.

Sua ação de usucapião era inédita: ele pretendia se apossar de 2,3 bilhões de reais, na época (R$ 3,3 bilhões em valor atual). Alegava que essa fortuna estava na sua conta havia três anos. Não sabia quem fizera o depósito. Mas pedia à juíza que recebesse a ação e a deferisse.

A juíza (depois desembargadora, promovida por merecimento) Vera Araújo de Souza, sorteada para receber o processo, não hesitou: de imediato, apenas quatro dias depois de distribuída a ação, instruída exclusivamente por cópias, e sem que o inacreditável valor em causa provocasse qualquer suspeita.

Em liminar, sem consultar a parte, nem o Ministério Público, determinou que o Banco do Brasil se abstivesse de movimentar os R$ 2,3 bilhões, que pertenciam ao autor do incrível usucapião. O não cumprimento acarretaria a multa de R$ 2 mil diários.

Foi um corre-corre no banco, que despachou seus advogados para um contato com a juíza da 5ª. vara cível do fórum de Belém. Eles lhe mostraram a falsidade do extrato bancário, fabricado por quadrilha especializada em golpes contra a instituição bancária.

Tentativas semelhantes aconteceram no Distrito Federal, Santa Catarina, Alagoas e outros Estados, apenas com pequenas variações no modo de agir, através de procuradores diversos e a prática de se acostar apenas cópias documentais ao feito. A fraude já fora reconhecida em sentença nos autos de processo semelhante que tramitou na justiça do Distrito Federal.

Na conversa, a juíza admitiu que tomou a decisão por “pressão de cima”. A pressão sofrida “advém da necessidade de despachar o alto número de processos conclusos às varas e gabinetes”, informou depois, em sua defesa no CNJ, consertando o que insinuara, sugerindo pressão de alguém superior a ela. Acrescentou que não jogaria fora cerca de 33 anos de magistratura. Não se pronunciou sobre o pedido de reconsideração formulado pelo banco.

Além de notificar a polícia civil do fato, o banco recorreu através de um instrumento chamado agravo regimental, juntando a sentença da justiça de Brasília. Relatora do caso, a desembargadora Marneide Merabet indeferiu o pedido do BB de suspender o efeito da sentença de primeiro grau.

Mesmo com a cópia da decisão judicial anexada aos autos, exigiu que o banco comprovasse o que já fizera: que se tratava de uma fraude e que o dinheiro alegado não estava depositado nas contas do autor da ação.

Sem decisão favorável no âmbito do tribunal, o banco formulou queixa à corregedora nacional de justiça. A ministra Eliana Calmon, do CNJ, deferiu a liminar e determinou a suspensão da ordem de bloqueio. Ela observou que as magistradas não se portaram com a “prudência, serenidade e rigor técnico” que o Estatuto da Magistratura, o Código de Ética da Magistratura e o caso requeriam, diante da farta documentação sobre a prática de fraude, atestada em sentença judicial anterior.

No curso da instrução da ação, foi constatado que o nome da desembargadora Marneide Merabet e do marido dela constavam da agenda telefônica do autor da demanda.

Com a quebra do sigilo telefônico dos investigados, durante o inquérito instaurado junto ao Superior Tribunal de Justiça para apurar suposta prática de crime de corrupção passiva por parte das duas magistradas, foi localizado um contato telefônico de Marneide com o autor da demanda e com o advogado que atuou nos autos antes da distribuição do feito.

Já a Receita Federal detectou indícios de movimentação financeira irregular por parte da desembargadora Merabet em 2010.

Oito dias depois da concessão da liminar, o advogado Antonio Carvalho Lobo, que representou o autor da ação, protocolou o pedido de desistência à juíza Vera Araújo. Intimado a se manifestar, o Banco do Brasil apresentou sua concordância, mas sem prejuízo das providências necessárias de ordem penal e administrativa. A juíza então homologou a desistência.

Na defesa da sua filiada, a Associação dos Magistrados Brasileiros acusou o banco de agir de má-fé, ao aceitar o fim da ação, mas continuar a cobrar providências, e de acusar a juíza de ter desconsiderado laudo e decisão provenientes da justiça do Distrito Federal porque tanto o laudo como a sentença foram apresentados nas petições de defesa,

A aposentadoria compulsória é a pena mais pesada que um magistrado pode receber no Brasil. Graças a ela, as duas desembargadoras foram para casa com direito a receber em torno de 30 mil reais de aposentadoria, depois de terem posto sob ameaça o sistema financeiro nacional. O CNJ acabou por atribuir seus erros a negligência e imperícia, não a má fé ou corrupção.

Ler 102 vezes Última modificação em Domingo, 06 Janeiro 2019 11:00

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