Domingo, 03 Junho 2018 11:28

Brasil: tudo errado

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Pode ter havido locaute por trás da greve dos caminhoneiros, mas, havendo ou não, ao se prolongar além do limite do razoável, da prudência e do sinal vermelho de alerta, seus efeitos políticos se tornaram óbvios. Por serem políticos, irão causar prejuízo mais pesado e efeito mais duradouro do que os 100 bilhões de reais calculado até agora como sendo o seu custo e o mês ou dois de que o país precisará para se recuperar do seu desdobramento. Os caminhoneiros se tornaram os personagens principais da eleição de outubro.

Provavelmente, a esmagadora maioria deles abandonaria o protesto quando 14 das suas reivindicações, incluindo todas as principais, foram atendidas pelo governo federal. Talvez nenhuma greve realizada nos últimos anos (ou em muitos anos) no Brasil tenha sido tão bem sucedida. Por fragilidade, fraqueza, maquiavelismo primário ou despreparo, o governo foi surpreendido pela vitalidade do movimento e seguiu de recuo em recuo até que, sem saída, aceitou voltar à política de subsídio do óleo diesel, cujo custo foi estimado em R$ 13,5 bilhões.

Já era um precedente grave diante do que foi um dos piores legados dos governos petista, sobretudo de Dilma Rousseff: o populismo na formação de preços dos serviços públicos e dos produtos essenciais. O risco de transbordamento dos favores aos caminhoneiros para a gasolina e o etanol era enorme, conforme está sendo provado. Ainda mais em ano de eleições gerais – e eleições com, o maior grau de incerteza e de polarização desde a volta à eleição direta.

Uma vez feitas essas concessões, só restaria a um governo minimamente merecedor desse nome recorrer ao rigor e à força para acabar com o movimento se os caminhoneiros não retornassem imediatamente ao trabalho. Sem autoridade, sem credibilidade e já sem a legitimidade elementar que possuía, o governo seguiu de contradição em contradição, sempre recuando – e sempre atribuindo à sua tibieza um valor democrático inexistente, de opção pelo diálogo e a conciliação. Como se a democracia fosse incompatível com a existência de limites.

A continuidade artificial da greve levou à consequência lógica: eventuais conquistas diretas, que nunca foram exatamente trabalhistas ou de melhoria das condições de trabalho, foram substituídas por plataformas políticas, como o fim do governo Temer e pedidos de intervenção militar na forma de golpe de Estado;. Qualquer compreensão ou mesmo condescendência deveriam ter acabado também. A desobstrução das estradas e a garantia ao direito essencial de ir e vir teriam que ser garantidos nem que fosse à custa do confronto com os piquetes selvagens que se formaram, por inspiração deliberada ou em função da grossa fraqueza da autoridade central.

Essa combinação ruinosa levou os cidadãos a atos de loucura e irracionalidade, a sofrimentos brutais, ao estado de emergência social, ao desastre. calamitoso Além disso,quebrou a espinha dorsal do país. Sua reconstituição demorará muito tempo e exigirá mais gastos e sacrifícios. A revolta, a indignação, o medo, a incerteza e outros sentimentos danosos fermentam o clima eleitoral favorável a um messias, ao salvador da pátria e a uma nova interrupção da sequência e do avanço democrático, mesmo sem a necessidade de um golpe de Estado.

É uma perspectiva angustiante porque a paralisação mostrou que o brasileiro comum, o cidadão de rua, quer trabalhar, quer construir a sua vida, quer paz e ordem para criar a sua carreira, a sua família, o seu país. As longas e demoradas filas em postos de abastecimento de combustíveis se tornaram o símbolo dessa tenacidade. Dificilmente, porém, quem passou por essa tormenta voltará integralmente ao mundo anterior. Sua paciência pode ter acabado e sua confiança na delegação de poder destruída.

O Brasil, este gigante de riquezas, grande por sua própria natureza, viveu um episódio errado, na hora errada, sob o comando de pessoas erradas. Como reparar a combinação de tanta coisa errada?

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