Quinta, 07 Junho 2018 15:21

Belém foi ao fundo

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Até algum tempo atrás Belém era conhecida por sua chuva constante quase o ano inteiro. Os encontros eram marcados antes e depois das chuvas. Elas caíam regularmente, amenizando a siesta dos belenenses depois do almoço, quando a canícula se tornava abrasiva, atenuando-se a partir das três da tarde, com a ajuda da chuva.

Ela persiste, mas já não é risonha e franca, muito menos ordeira. Os milhares de milímetros que caem anualmente não seguem mais uma ordem nem se espalham pelos seis meses do período do inverno (que só se distingue do verão pela quantidade de chuva). Quando chuvas fortes coincidem com a maré alta, Belém vai ao fundo. Afundou algumas vezes nesta saison.

Pontos de inundação sempre fizeram parte da paisagem da cidade. Casas alagadas também. Mas agora a capital paraense abriga cenas inéditas de carros boiando na água, sendo arrastados pela correnteza e ruas nas quais não se vê o asfalto. Elas viram córregos. Pessoas ficam ilhadas por um tempo que pode ser longo, no ritmo da vazante, que demora mais. Já não se podem marcar mais compromissos para antes ou depois das chuvas. As águas impõem a sua ação crescentemente voluntariosa.

Apanhada de surpresa pela novidade e por sua própria imprevidência, a cidade começa a se perguntar se sempre foi assim ou se está ficando assim por uma combinação de componentes – permanentes e novos. Belém foi instalada num terreno pantanoso no início do século 17. Seu ponto mais alto não chega a 20 metros. Mais de 40% do seu perímetro urbano fica abaixo da cota quatro do nível do mar.

Os muitos igarapés e demais cursos d’água que a cortavam em todas as direções, deixando nesgas de terras mais altas, além do alcance do movimento diário das marés, foram sendo aterrados desde então. O aterro se tornou objeto de desejo de todos que queriam se livrar das águas.

Era moeda de troco nas eleições: os candidatos espalhavam terra pelos subúrbios e ganhavam simpatia – e votos. Valia qualquer tipo de aterro, inclusive lixo. Muitas terras aparentemente firmes têm lixo por baixo.

Aterramentos sem qualquer planejamento, inclusive nos cursos d’água, o adensamento da ocupação humana (hoje com 1,4 milhão de habitantes), com a opção de crescer para cima (o prédio mais alto tem 40 andares, mas há dezenas com mais de 30), a obstrução dos bueiros e muito lixo abandonado nas ruas ou atirado aos canais estão reduzindo ainda mais as áreas imunes às inundações, são os itens de uma agenda problemática.

Este é um fator das cheias, que se amiúdam e se avolumam. Mas há outro, tão ameaçador a médio e longo prazo. Belém não parece, mas é quase uma cidade litorânea. Uma enorme baía de água doce separa a cidade do Oceano Atlântico, mas a água salgada penetra pelo estuário nas marés altas. A variação da maré tem uma amplitude significativa. Em determinados momentos ela invade o continente. Afinal, 60% da população do Pará (de pouco mais de oito milhões de habitantes) moram a até 60 quilômetros da costa.

Mesmo assim, Belém nunca mereceu um estudo de caso em função da especificidade da sua posição geográfica, num dos mais complexos estuários do país. O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas examinou os casos de Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e o vale do Itajaí, mas excluiu a imensa costa do Norte do Brasil.

Assim, permanece como uma interrogação fugaz, mas começando a se tornar presente: se realmente o nível do mar estiver crescendo por causa do aquecimento global, Belém irá desaparecer?

As especulações existem, embora ainda sem criar uma questão de expressão coletiva. Mas que o temporal do dia 4 pareceu um dilúvio, ah, isso pareceu.

(Publicado no site Amazônia Real)

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