Quinta, 14 Junho 2018 16:08

Belém (7)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Da saudade ao tempo presente

(Artigo de 2012)

Belém da Saudade, um álbum que mostra a Belém do início do século XX em cartões-postais da época, foi lançado em 1996 pela Secretaria de Cultura do Estado. ao preço de 100 reais. Só circulou entre a elite. Não sem razão: publicação com tal sofisticação só pode custar caro mesmo, tal a qualidade da impressão e da edição (272 páginas ricamente ilustradas, com capa dura e formato grande).

Mas o governo teria feito um excelente investimento cultural quando tirou uma terceira edição, em 2004 (que custa nos sebos atualmente entre R$ 350 e R$ 500). Poderia revê-la e aumentá-la, subsidiando a distribuição gratuita de exemplares por toda a rede pública de ensino (ao menos de 2º grau) e universidades, além de centros de pesquisa e órgãos de classe. Além de a incluir na bibliografia obrigatória de referência.

Ao restringir as ilustrações a cartões-postais, os organizadores do álbum (Rosário Lima da Silva e Paulo Chaves Fernandes) empobreceram o referencial iconográfico. Lacunas se tornaram inevitáveis, afetando a plena reconstituição visual da cidade no apogeu da riqueza derivada da exploração da borracha. Mas o trabalho é suficientemente bom para encher de saudade, tristeza e melancolia o belenense que compara a sua cidade ao alvorecer do século XX com a Belém do século seguinte.

A cidade era, então, a terceira mais importante do país. A medida da sua atual significação está na ignorância que lhe dedica a imprensa nacional ao tratar das eleições municipais. Ela nunca é incluída em nenhuma das rodadas de pesquisa do Jornal Nacional, a janela eletrônica do país made in TV Globo. Sua única posição de destaque em toda a campanha é negativa, como, três eleições atrás, apareceu com o terceiro maior índice de candidatos com processos na justiça; também estava em terceiro lugar quando esse número incluía apenas os processos por crimes graves, abaixo apenas de Salvador e do Rio de Janeiro (em posições alternadas nas duas estatísticas).

Quem vem a Belém, hoje, ainda pode perceber as marcas do projeto de metropolização da cidade financiado pela borracha e conduzido por uma elite europeizada. A capital paraense tinha importância decisiva não só porque a borracha era o segundo item na pauta de exportações do Brasil, mas porque a vontade de construir uma cidade única, ao ser retomada, não começou do zero. Já havia o acervo deixado pelo iluminismo pombalino, que aqui fincou sua segunda marca mais significativa.

Ao contrário da outra, firmada em Minas Gerais, a daqui não dependeu de uma base econômica, de uma produção existente: a urbanização de Belém atendia um imperativo geopolítico e a uma visão estratégica, tecidas desde os primórdios da colonização. O retorno do investimento, se viesse, viria depois. Na cidade foi construída a base para algo muito maior, que alguns interpretam como a provável nova sede do império lusitano, mas que seria a sua última base colonial no continente americano.

Por isso, Belém exibe uma cativante feição europeia no álbum editado pela Secretaria de Cultura do Estado, um perfil inusitado, original, encantador: voltada para dentro de si, é uma cidade portuguesa, barroca, um quisto cultural encravado na floresta tropical, que lhe serve de moldura, sem invadi-la. Há algo semelhante no mundo? Não havia, é o que a mensagem visual dos cartões-postais transmite.

O que sobrou é tão pouco, na visão dos que acompanham a desmontagem dessa herança, desde antes e por dentro, mas é muito ao primeiro contato dos que aqui chegam com uma expectativa mais sensível. Certamente, o que não sucumbiu a essa selvagem destruição urbana ainda é capaz de sustentar esperanças e alimentar projetos de recuperação e restauração. No entanto, jamais voltaremos a ser o que fomos até há pouco tempo – e poderíamos ter continuado a ser com um pouco mais de inteligência, bom senso e sensibilidade no trato da cidade.

Não surpreende que as declarações prestadas na época pelo romancista amazonense Milton Hatoum a Elias Pinto no Diário do Pará soassem tão reconfortadoras e ilusórias ao mesmo tempo. É natural o amor à primeira vista a Belém porque a cidade é encantadora, ainda é única em seus escombros, vestígios e testemunhos sobreviventes.

Esse elogio estrangeiro, vindo de fora ou mesmo de dentro das nossas fronteiras, como o de Hatoum, pode reanimar o compromisso dos belenenses, já um tanto (ou muito) desesperançados, embrutecidos pelos maus-tratos mantidos há décadas. Mas a messe excede a compreensão do visitante, que geralmente se restringe ao que chamei de “quadrilátero das mangueiras”, a parte mais antiga e glamourosa da cidade. Ou que, ao transferir sua desilusão com a cidade de origem, tende a edulcorar a cidade projetada.

É o caso da relação de Hatoum com Manaus. A capital baré sucumbiu à padronização e uniformização a que o crescimento artificializado da Zona Franca a induziu. Ela tem viadutos, ruas asfaltadas, funcionalidade, estandardização, mas perdeu a alma – ou a vendeu na tenda do arrivismo e da mentalidade mercantil. Virou uma sub-Hong-Kong amazônica.

Chegar a Belém e sentir seu cheiro, suas cores, seu casario colonial remanescente, a Cidade Velha parada no tempo (mas para cada casa ainda com valor arquitetônico ou histórico, há 8 ou 9 já descaracterizadas), é uma festa, o desabrochar de uma cidade com marca e registro próprios resistindo ao massacre extra e intramuros.

Mas fora do quadrilátero das mangueiras e de seu apêndice neocolonial, a miséria e a deterioração do padrão de vida nada ficam a dever a Manaus, ou a Calcutá. Nessa matéria, Belém foi ficando para trás no cenário nacional, tão desvalida que se entrega ao primeiro aliciador, a promesseiros primários, mas ardilosos.

Está à frente de qual capital brasileira quando se trata de recolher e tratar o lixo, os esgotos, a água, todos os serviços básicos, as normas de convivência, a dignidade e a decência cidadã (que extrapole a linguagem propagandística)? Quem viaja e faz comparações chega a conclusões desalentadoras. Se já fomos a terceira capital brasileira, hoje estamos no rabo da fila, em alguma posição entre o 15º e o 20º lugares.

Mas ainda somos a capital cultural, intelectual, científica e educacional da Amazônia. Tentar recriar uma cidade industrial ou reviver a função de entreposto comercial da região se tornaram metas fora do nosso alcance. Contudo, desenvolver os atributos que a cidade já possui parece ser o caminho natural: Belém como espelho e projeção do que vai pela bacia amazônica e do que dela sai para o mundo.

Mas como fazer isso? E quem deverá fazer essa transição? Antes disso: cadê o projeto dessa transição, capaz de preservar o acervo existente e construir a nova base da hegemonia científica, técnica, cultural e intelectual de Belém, ajustada ao tempo atual e ao futuro, integrada ao espaço mundial?

Eis um tema para meditações. Ainda mais porque ele não está na agenda dos candidatos à eleição deste ano, nem na agenda das elites dominantes da cidade. Ou seja: está fora do horizonte projetável. Mas, felizmente, ainda dentro do campo de invenção humana.

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