Sexta, 15 Junho 2018 16:18

Belém (8)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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FLANANDO PELA CIDADE

(Textos reproduzidos em dossiê especial do Jornal Pessoal de 2014)

Alerta

Quem passa em frente ao belo palacete Faciola, na esquina da avenida Nazaré com a Doutor Moraes, pode experimentar duas sensações.

De alívio, pela iniciativa da prefeitura de evitar o desabamento do prédio. De consternação, pela demora dessa iniciativa. As amarrações metálicas deixam, mesmo no leigo, a impressão do dano talvez irreparável aos traços originais da construção, que já cedeu bastante, provocando rachaduras mais profundas nas paredes.

Por isso, é com o senso de urgência que alerto para caminho idêntico que está seguindo uma das duas construções do início do século, na esquina da rua Santo Antônio com a Leão XIII, no centro comercial da cidade. A cada dia aumentam as fissuras na parede frontal do lindo prédio de quatro andares, que, ao lado do seu irmão siamês do outro lado e da Paris n’América, mais em frente, trouxe um pedaço de Paris para Belém, integrando um dos poucos conjuntos arquitetônicos que ainda sobrevive no “Belocentro” de outrora.

Vamos esperar que rache de vez?

Cobrança

Hélio Gueiros (prefeito de 1993 a 1996) inaugurou, com foguetório e fanfarra, seis quadras de asfalto na rua Antônio Barreto, entre os bairros de Fátima e Umarizal. Seu sucessor, Edmilson Rodrigues (1997/2003), embora adversário, seguiu o exemplo: inaugurou um dos três andares do Palacete Bolonha.

Não havia dúvida sobre o mérito da iniciativa municipal, interrompendo o sono profundo das administrações anteriores em relação ao valioso prédio, no bairro de Nazaré, no centro da cidade. A propaganda eleitoral sempre foi razão suficiente para essa pantomima, que compromete o tom de seriedade sem o qual a perenidade desse tipo de trabalho fica ameaçada. Mas ninguém parece mais ligar para essa coisa de seriedade.

Enquanto o prefeito fazia a inauguração festiva de um terço da obra, um particular pintava e maquiava a casa rosa (ou rosada), a mais valiosa das edificações coloniais, na primeira esquina da primeira rua de Belém, a Siqueira Mendes, na Cidade Velha. O objetivo da intervenção privada se assemelhava ao da ação pública: aplacar os ânimos e desviar a cobrança de uma restauração ara valer. E de uma inauguração completa.

Ideia

Sugeri que a prefeitura apoiasse a formação de associações de amigos de bairros cedendo-lhes próprios municipais. Depois ampliei a proposta. Nos prédios, de valor histórico ou arquitetônico, que a prefeitura viesse a comprar e ceder para essas entidades, em regime de comodato, também seriam instalados centros de convivência para pessoas agora classificadas como da terceira idade.

Essas casas seriam equipadas com bibliotecas, material para práticas de lazer (como diversos tipos de jogos) e assistência psicológica e social. Seriam mais voltadas para trabalho mental e intelectual (o físico poderia continuar a ser realizado nas ruas ou em academias).

Cada centro teria como sua principal tarefa coletar, organizar e publicar os testemunhos dos moradores mais antigos do bairro, funcionando como um museu da imagem e do som. A prefeitura cederia equipamentos para a gravação em vídeo dos depoimentos e auxiliaria o trabalho de transcrição e edição do material num livro, por ela própria publicado. Os membros do centro se encarregariam de todo o trabalho de produção e distribuição do livro, transferindo a renda para um fundo de manutenção do centro.

Um supervisor da prefeitura funcionaria como interlocutor junto ao grupo de moradores, estabelecendo critérios e regras para a aprovação da edição inaugural. Outras se seguiriam à medida que novos depoimentos fossem obtidos. No prazo de cinco anos, uma equipe consolidaria essas publicações num livro com a memória oral da cidade.

Como laboratório para o projeto, a prefeitura instalaria a primeira dessas casas na Cidade Velha. As outras seguiriam as solicitações dos moradores dos demais bairros.

Trânsito

Mais de três anos depois do início das obras, o governo finalmente conseguiu concluir, em dezembro de 2000, a construção da sede do Detran na avenida Augusto Montenegro. O preço de largada era de 4,5 milhões de reais. O de chegada, ao fim de uma cascata de aditamentos, foi de R$ 6,2 milhões. Era necessário chegar a esse investimento? Justificava-se imobilizar tal dinheiro no Detran quando a determinação superior era para a municipalização do trânsito?

Municipalização em termos. O trânsito continua a ser um monstro bifronte. Além de as atribuições serem repartidas entre a Ctbel e o Detran, em partes irracionais, um órgão costuma avançar na seara do outro. A disputa se vale das imprecisas fronteiras e se alimenta da rivalidade entre as administrações municipal e estadual.

Quem paga a conta é o pato, isto é, o cidadão.

Bacia do povo

Se a previsão dos meteorologistas se confirmar, o inverno castigará muito a população de Belém, com ênfase nos que moram nas diversas bacias hidrográficas da cidade. Andei no fim de semana de inverno 2010 por uma delas, incluída como extensão (e antecipação) da bacia da Estrada Nova.

As obras já realizadas estancaram na rua Fernando Guilhon. Mas entre ela e a Pariquis, onde estão as obras executadas (boa parte delas com qualidade a desejar e deteriorações já pronunciadas), ainda há muito por fazer. Dificilmente isso será feito com as chuvas antecipadas e engrossadas. Os canais deverão transbordar. Seus efeitos se agravarão pelo fato de que, mesmo os trechos já canalizados dos igarapés, se transformam em fossas negras a céu aberto.

É uma falta de higiene espantosa. Em alguns trechos, como no canal da Doutor Moraes, a “urbanização” é neologismo para um crime. As árvores plantadas nas margens foram postas abaixo. Onde antes, mesmo com as condições ruins de drenagem, havia um cenário até bucólico, surgiu uma paisagem árida e agreste. A circulação de pessoas é sob um sol inclemente e sem qualquer proteção contra as chuvas.

Vendo esse tipo de urbanização devastadora, é impossível não imaginar que se faria muito melhor usando a hidrossemeadura nas encostas dos canais, para conter a erosão, árvores em suas bordas e dragagem constante no seu leito. Além de adotar uma política constante, marcando a presença do poder público, interagindo com a população e conscientizando as pessoas.

Ao ver os dois imensos terrenos que o grupo Líder possui na bacia também surgiu a ideia de que os espaços podiam ser transformados em bosques (aproveitando o grande açaizal nativo que lá subsiste) e parques poliesportivos para a população, totalmente carente de lazer (bom e gratuito). Governo e prefeitura se juntariam para desapropriar os dois terrenos, partilhando sua gestão conforme cada uma das suas especializações. Seria muito melhor do que o complexo comercial que se pretende implantar ali. E seria também uma forma de a família Rodrigues se redimir por ter dado motivo para o rompimento da unidade toponímica do bairro do Jurunas, com a mudança do nome da rua Apinagés.

Seria tão bom se todos se mobilizassem para assumir o comando do uso dessa área abandonada e maltratada.

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