Segunda, 18 Junho 2018 16:39

Belém (8)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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FLANANDO PELA CIDADE

 

Pedagogia

Tudo o que o prefeito Edmilson Rodrigues fez após o susto eleitoral de outubro/novembro (susto que não admite) reforça um traço do seu perfil: ele é daqueles que não esquecem o que aprenderam e nada aprendem. Ao que parece, está disposto a construir a desgraça do PT à sombra do seu monumento, em cuja base de bronze se poderá ler: “o resto é o resto”.

(janeiro de 2001)

 

Praça

Graças, principalmente, a Augusto Meira Filho, Belém recuperou sua mais bela praça, a da República, que definhava na passagem da década de 60 para a de 70. É uma das mais valiosas joias da cidade. Não pode voltar a ser destruída por essa combinação de vandalismo particular com omissão oficial.

A falta de uma regulamentação do uso do logradouro e de um seguro cumprimento das suas previsões tem feito agravar as chagas que sistematicamente estão sendo abertas na praça. Não se volta mais integralmente ao status quo ante, mesmo com as vassouradas que se seguem às apresentações, ou os paliativos à utilização do lugar como sítio de moradia, um uso mais do que indevido, agressivo.

Ou a prefeitura restabelece as posturas municipais naquilo que já está se tornando uma terra de ninguém, impondo a reconciliação da praça com sua natureza e serventia, ou a sociedade trata de suprir essa lacuna, antes que os males isolados se fundam num mal maior, talvez definitivo.

 

Doença urbana

No censo de 1991, Belém era a 32ª cidade do país em número de favelas, com 20 delas. No último recenseamento, do ano passado, pulou para a 10ª colocação, já com 93, bem aproximada das cidades que estão nas posições seguintes (Salvador, com 99; Osasco e Belo Horizonte, ambas com 101). Foi a cidade brasileira na qual mais cresceu a quantidade de favelas nesse período: 365%. Em Guarulhos, segundo lugar em termos percentuais (e em 4º, em números absolutos), a expansão foi de 112%. A favelização em Teresina, terceira em incremento, foi de 93%.

Pode-se imaginar como virão os números em 2010 se o governador, mudando a capital, a pretexto de desestimular a migração para Belém, privar a cidade dos meios que, em tese, possui para enfrentar esse problema, mas que não usa, ou usa mal.

O maior problema de Belém, hoje, está dentro dela mesmo. E, à falta de cuidados adequados, ou mesmo de sensibilidade para descobri-los, diagnosticá-los e tratá-los, crescem patologicamente, como um tumor maligno.

Uma comparação, aliás, feita bem a propósito.

 

Louros

A Fumbel, a fundação cultural de Belém, terá lá seus motivos para se considerar injustiçada por certos avaliadores do seu trabalho. Mas, ao responder às críticas e cobranças, não pode incluir entre as obras que realizou as restaurações dos palacetes Bolonha e Pinho, malmente iniciados, e do chalé Tavares Cardoso, um arremedo do original.

No caso das obras no palacete Pinho, na Cidade Velha, a casa vizinha da pintora Dina de Oliveira, restaurada com recursos próprios e extremo bom gosto, serve de contraste gritante e indicador do muito que ainda falta ser feito (se o será, ainda sob a atual administração, é uma dúvida cabível) no solar da família Pinho.

 

Inteligência

As elites belenenses não são lá muito sensíveis para o patrimônio histórico e arquitetônico que figura em seus inventários, recebidos tanto como um bem material quanto como um estorvo. É muito difícil mudar essa mentalidade, uma das raízes do desapreço pelo serviço público. Periodicamente um prédio de alto valor para a cidade é posto abaixo, um jardim é sacrificado, objetos são contrabandeados para fora.

Talvez já esteja na hora de a prefeitura pensar em criar uma empresa imobiliária municipal, através da qual iria progressivamente comprando os prédios tombados da cidade, recuperando-os e dando-lhes uma destinação inteligente de mercado. Para isso lançaria mão da dívida ativa e dos instrumentos de política urbana, se necessário constrangendo, rigorosamente dentro da lei, as vontades à diretriz de preservação, conservação e ajuste dos bens de interesse arquitetônico e histórico. Favorecendo, é claro, os que se incorporarem a esse esforço de salvação da cidade, que já tarda.

Acabaria por mostrar aos nossos empedernidos e insensíveis herdeiros imobiliários que manter em pé e íntegro seus patrimônios pode dar lucro e não apenas irritação.

 

Centro velho

A propósito da sugestão que fiz de criação de uma empresa imobiliária municipal, encarregada de adquirir e administrar imóveis de interesse arquitetônico e histórico para a cidade, um arquiteto observou: o alvo principal não deveria ser a atividade comercial, mas o uso residencial desse patrimônio.

A empresa pública municipal alugaria as casas restauradas a pessoas que se dispusessem a morar no centro velho da cidade (abrangendo do Comércio à Cidade Velha), hoje em acelerado processo de esvaziamento. A destinação residencial poderia ser adotada mesmo que, eventualmente, no térreo, continuasse a funcionar uma loja – como, aliás, era a característica desse perímetro até anos atrás, quando a insegurança foi provocando a expulsão dos antigos moradores.

Com a reutilização do centro para fins residenciais, atividades comerciais de apoio (padarias, farmácias, restaurantes) para lá também voltariam, espontaneamente ou mesmo induzidas a tal pelo poder público, mas com mercado disponível.

A prefeitura entraria com a proteção, através da guarda municipal, e outras medidas de apoio e estímulo, se possível em conjunto com o Estado. Certamente pessoas que foram obrigadas a fugir dos altos aluguéis para a periferia, havendo ou não residido antes no centro, teriam interesse por uma proposta como a sugerida.

Dá para pensar nela?

(Março de 2001)

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