Quarta, 20 Junho 2018 16:49

Belém (9)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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FLANANDO POR BELÉM

 

Nazica

O poeta e burocrata Affonso Romano de Sant’Anna viu o seu primeiro Círio há uns 14 anos. Voltou a Belém neste Círio 2000 para se extasiar com a festa religiosa e profana, além de participar de um forum sobre leitura “no belo campus da Unama”. De volta ao Rio de Janeiro, escreveu para O Globo uma crônica, na qual registra a relação dos paraenses com sua padroeira, Nossa Senhora de Nazaré: “E a intimidade que os paraenses têm com sua santa é tanta, que a chamam domesticamente de Nazica, como se fosse uma comadre. No Pará, até os ateus se agarram à Nazica na hora do aperto”.

Continua afiada a verde ficcional do escritor. Disso, não há dúvida.

(Novembro de 2000)

 

Marajó

Quem vem passear em Belém chega com um destino na ponta da língua: o Marajó. Com todos os imprevistos que possa enfrentar, volta da ilha encantado. Mas raramente volta. Certamente voltaria mais vezes se houvesse uma eficiente conexão entre o continente e a ilha e, dentro dela, um esquema moderno de recepção, atendimento e orientação. Mais do que tudo que possa produzir, Marajó é turismo. Mas turismo não dá em árvore. Nem pode ser criado como gado solto em pasto sem fim – e sem trato, o boi criando o criador e não vice-versa.

É desnorteante o contraste entre o potencial do Marajó e sua pobreza, talvez o mais baixo índice de desenvolvimento humano do Pará. Essa situação pode começar a mudar agora, quando surgem evidências de um entendimento comum sobre os problemas e uma busca conjunta de solução. O status quo não está sendo mais aceito. A atitude de esperar uma solução vinda de fora e do alto também começa a ser deixada de lado. Os marajoaras querem encontrar um novo caminho.

Uma boa ideia poderia ser a criação de uma empresa pública (mas de direito privado), a ser formada pela subscrição de ações pelas prefeituras do arquipélago, outras empresas públicas e pela sociedade em geral, desde que haja uma campanha de sensibilização.

Uma empresa com a missão de providenciar a infraestrutura e formar a mentalidade sem as quais a busca do desenvolvimento autossustentável será uma quimera ou uma retórica. Uma empresa de fomento, que pode vir a precisar menos de capital material do que de vontade e lucidez de ideias e iniciativas. Uma versão adaptada, melhorada e atualizada do que foi a Chesf, a Companhia Hidrelétrica do Vale do São Francisco.

Não custa pensar na ideia. Aliás, custa: descartar a rotina do atraso.

(Fevereiro de 2001)

 

Poluição                                                                                                                                                                                                                                                                           Se o filho leu o artigo do pai, bem que o secretário municipal de assuntos jurídicos Egidinho Sales podia dar consequência prática ao justo protesto do também advogado Egydio Sales contra a poluição visual de Belém. Bastava dar um parecer mostrando a ilegalidade da permanência de placas da prefeitura em logradouros públicos, uma vez cessado o motivo que lhes deu causa.

Na praça D. Pedro II, felizmente, uma placa horrorosa, que completaria dois anos em setembro, foi retirada. Provavelmente por conta das ligeiras melhorias que estão sendo feitas ali. Mas, 50 metros adiante, uma placa ainda maior permanece fincada no gramado da praça dom Macedo Costa, entre as igrejas da Sé e de Santo Alexandre, numa flagrante contravenção ao código de posturas.

Se Egidinho nada fizer, doutor Egydio, puxe as orelhas dele.

 

Mudança

O trânsito alucinado de Belém não pode dispensar as “araras” eletrônicas e nem o policiamento ostensivo, sem o qual educação do trânsito é para quem sobreviver à guerra não declarada sobre quatro rodas. As araras perderam o seu poder quando a prefeitura terceirizou – e ainda terceirizou mal – o serviço. Como ele envolve o poder de polícia com faturamento, para poder voltar tem que ser monopólio do poder público, sem delegação.

Já quanto ao policiamento, a administração pública não precisou ser constrangida pela via judicial: corrigiu espontaneamente. Demorou, mas corrigiu. Ao invés dos desacreditados “vermelhinhos”, já estão nas ruas guardas fardados com mais adequação à natureza do serviço e à expectativa do cidadão.

Pode ser que assim Belém consiga recuperar o tempo perdido e poupar vidas.

 

Saudade

A Telemar conseguiu uma façanha: fazer-nos sentir saudades da Telepará. Essa parecia que ia ser uma privatização benfazeja. Mas se tornou um tormento ou uma fonte de irritação permanente para o público, desrespeitado desde detalhes simples (como ser atendido em sotaque cearense pelos telefones de serviço da empresa) até agressões abertas, como essa conta extra remetida por uma empresa relapsa ao seu impotente cliente e enfiada goela adentro sem a menor cerimônia, com tal impropriedade que a justiça se viu obrigada a sustá-la.

Diante do quadro de deterioração, só nos resta uma palavra de ordem: Telepará, go home.

(Julho de 2001)

 

Cidade

Caminhar pela parte velha de Belém é ser candidato a testemunha de destruição. Pode-se ver um prédio velho entrar em decadência, exibir seus sinais de fratura e ruir, ou pegar fogo, sem a possibilidade de um final feliz, o poder público entrando em ação preventivamente ou os donos das edificações cientes de suas responsabilidades sociais.

Na semana passada o casarão da avó de Beatriz veio abaixo de vez. Dias depois, um novo incêndio no comércio, um permanente barril de pólvora a exigir que os bombeiros dali não se distanciem. Na rota da caminhada matutina, ainda pude ver fogo e antever o desabamento das paredes ocas que restaram. Já vi três desabamentos na atual temporada. É um número que diz mais sobre a condição da Feliz Lusitânia do que seus oásis de beleza ou sua propaganda de leveza.

(Julho de 2001)

 

Marketing

A prefeitura de Belém está fazendo a “reforma da urbanização” da Braz de Aguiar, a rua que já foi a nossa Augusta. Por “reforma da urbanização”, entenda-se construir floreiras (ainda sem flores, só concreto) nas esquinas, com o avanço da calçada, obra de 150 mil reais que se arrasta há três meses, sem justificação plausível para essa lentidão, exceto, talvez, justificar a expressão de puro (e vazio) marketing na enorme tabuleta afixada na calçada.

 

Muralha

Pelo jeito, nem a prefeitura e nem o CREA deram o ar de suas graças na obra não identificada que está terminando de fechar uma das janelas para o rio, no Porto do Sal, a despeito de denúncia feita na edição anterior deste jornal. Quando lá passei no último fim de semana, o muro, reforçado, já estava concluído. Sem uma placa sobre a responsabilidade do serviço. E sem nenhum bom senso, é claro.

 

Calamidade

Vai chegar o dia em que a Telemar se transformará em caso de calamidade pública no Pará, unindo gregos e troianos contra ela. Ainda que, para registrar a queixa unânime, todos tenhamos que ligar para Fortaleza e ficar na linha enquanto engenhocas de gravação eletrônica continuarão a nos embromar. E Ofender.

 

Landi

As comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil foram um bom pretexto para Belém redescobrir o maior dos seus arquitetos, o bolonhês Antônio José Landi, que aqui esteve há mais de dois séculos. Uma bela exposição na maior de todas as obras de Landi, o atual Museu do Estado, e um rico álbum sobre a Amazônia Felsínea foram os pontos altos desse capítulo das comemorações. Mas foi pouco.

Sugeri que a “casa rosa”, na primeira rua de Belém, a Siqueira Mendes, a mais importante casa particular da Belém antiga, fosse transformada num Museu Landi, reanimando a tradição na Cidade (ex) Velha. Nada. Defendi a restauração da igreja de Sant’Ana, a mais querida das realizações do artista italiano, onde diz a lenda que ele foi enterrado. Silêncio absoluto.

Outro dia entrei na igreja: que tristeza! Infiltrações sem conta não só estão destruindo as pinturas e afrescos, mas também começando a ameaçar a estrutura do prédio. A igreja tem atividade incomum, exercida, porém, sob um teto precário e diante de uma praça aviltada.

Vamos aguardar um desabamento para fazer alguma coisa, às pressas, mal feito, para o marketing ver?

(outubro 2001)

 

 Centro melhor

A vereadora Ana Júlia Carepa, líder do PT na Câmara Municipal de Belém, apresentou na semana passada um projeto de lei “baseado nas interessantes sugestões” que fiz na matéria “Salvar o centro”, publicada no meu Jornal Pessoal.

Ana Júlia se declara “receptiva a novas sugestões” que possam ser apresentadas ao seu projeto, “seja para dar subsídios outros a essa proposta seja para sugerir novas ações”. Embora ela tenha certeza “de que o Governo do Povo está no caminho certo”, não considera que “a missão está cumprida, antes, pelo contrário, muito ainda há por fazer e só com a participação de todos daremos continuidade aos avanços”.

O projeto de lei cria o cadastro de imóveis de valor histórico do centro de Belém, que incluirá o nome do proprietário do imóvel, sua condição legal e sucinto diagnóstico da sua situação física. Depois de notificados para fazer o cadastramento, os proprietários terão dois meses “para expor o que pretendem fazer com esses imóveis”, sujeitando a sanções legais se não atenderem a convocação no tempo hábil.

A prefeitura deverá constituir uma linha especial de crédito, com recursos próprios e de outras instituições que atuam na área, destinada a recuperar os imóveis de valor histórico. Caso os proprietários não se interessem em assumir essa tarefa, poderão assinar um contrato de mútuo com a Fumbel (Fundação Cultural do Município de Belém), que se valerá dos recursos alocados para esse fim. Recuperando os imóveis, a Fumbe,m poderá alugá-los, dando preferência ao uso residencial ou algumas atividades comerciais (padarias, mercadinhos, restaurantes e artesanato regional). Trinta por cento da renda iria para o proprietário.

Com seu projeto, a vereadora Ana Júlia Carepa acredita que a prefeitura poderá fazer “um diagnóstico mais preciso a respeito da situação legal e de fato” do centro histórico da cidade, proporcionando à população “uma outra visão” dessa área vital de Belém.

O projeto é importante e merece o apoio de todos, para dar-lhe apoio e mais força, inclusive com as críticas e sugestões dos interessados: os que amam Belém e querem melhorá-la.

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