Quinta, 21 Junho 2018 17:18

Belém (10)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
Avalie este item
(0 votos)

FLANANDO PELA CIDADE

 

Carreira

A grande razão para as mais significativas trocas de partido, na temporada que irá até os primeiros dias de outubro, é o receio do quociente eleitoral por alguns candidatos potenciais à disputa de 2002. Partidos maiores e com nomes de grande apelo político exigem votações mais significativas para garantir a eleição dos seus candidatos. Quem tem dúvida das suas bases de votos prefere legenda menor, onde o piso é mais baixo.

É esse o caso do ex-prefeito Sahid Xerfan, que deixou o PPB e ainda não decidiu em qual legenda vai se acomodar? Xerfan foi uma das mais poderosas (e simpáticas) eminências pardas nos bastidores políticos em Belém, quando recusava todos os convites para combinar sua condição de empresário com a de político, preferindo transitar entre todos. Acabou não resistindo à mosca azul. A picada foi desastrosa. Não conseguiu se tornar um bom político (ou um político profissional) e deixou de ser um empresário ousado.Ou empresário, ponto.

Voltou à política no cargo de vereador, começando pelo verdadeiro começo de carreira. Mas parece não acreditar na sua vitória para deputado estadual dentro do PPB, depois de ter tido uma votação significativa no conjunto da Câmara, mas abaixo das expectativas que se tinha em relação a ele. Vai atrás de outro partido, menos exigente. Corre o risco de colecionar mais legendas do que vitórias eleitorais. Um destino duro, que talvez Sahid Xerfan não mereça, por uma perspectiva, a da sua pessoa, mas que está começando a fazer jus, por seus erros.

(outubro 2001)

 

Ideias urbanas

As empregadas domésticas dão um toque de originalidade ao amanhecer em Belém. Elas surgem nas ruas com a luz do dia em seu traje padrão (camiseta, short e sandália), atrás do pão ainda quente e cheiroso ou do leite fortalecedor para seus patrões. Desfilam para os profissionais do alvorecer, provocando suspiros e fugidias declarações de amor: padeiros, entregadores de jornais, vigias ou integrantes da geração saúde, no seu jogging matutino. Algumas parecem ter pulado da cama para a rua. Outras fizeram baldeação diante do espelho, incorporando os benefícios da maquilagem para melhor impressionar a plateia ocasional. A rua que começa a se iluminar para a atividade cotidiana é seu reino.

Para saudar essa contribuição colorida ao nosso alvorecer, a prefeitura bem que podia promover um concurso anual, algo como miss simpatia, exclusivamente para empregadas domésticas. Elas se inscreveriam na Fumbel, a fundação cultural do município, submetendo-se a uma seleção prévia. Um determinado número delas (30?) participaria de um desfile em traje típico (o tal conjunto camiseta-short-sandália) em um local (ginásio de esportes, talvez) que pudesse abrigar um grande público.

As três primeiras receberiam o mesmo prêmio, em quantidade decrescente, conforme a classificação: roupa, bolsa de estudo e dinheiro. Os patrões teriam direito a um certificado de participação e foto oficial com as vencedoras. Apenas as três vitoriosas não poderiam participar do concurso seguinte.

Para animar a cidade, a PMB também podia ressuscitar o concurso anual sobre os melhores jardins de Belém e criar premiação para o melhor trabalho de restauração de imóveis de valor histórico e arquitetônico. Finalmente, lançar um programa de apoio a associações de amigos de bairros, de monumentos ou de atividades culturais na cidade.

A prefeitura podia adquirir prédios tombados e cedê-los, por comodato, a essas entidades, impondo-lhes como contrapartida a manutenção da edificação. Podia também assumir a legalização e o apoio técnico às associações já existentes ou com sede própria adquirida. Um setor na Fumbel seria incumbido de acompanhar as atividades dessas associações e reuni-las em congresso uma vez por ano.

Ideias simples, mas que podem ter uma boa repercussão na vida de uma cidade engolida pela rotina da indiferença ou da inconsciência de si.

(outubro 2001)

 

Mau exemplo

Em duas semanas, a prefeitura de Belém fez a recuperação da praça D. Pedro II, ao custo de 10 mil reais. No próximo dia 19 a placa que assinalou essa obra vai comemorar um ano de vida, fincada no maltratado gramado do local, mais conhecido como largo do palácio. A poucos metros dali, outra placa da prefeitura anuncia a recuperação, em três semanas, da praça d. Macedo Costa, projeto de R$ 15 mil. A obra foi concluída há alguns meses, mas quem passa por ali fica sem saber ao certo porque essa placa, mais recente, omitiu informação que consta da anterior, sobre o início dos serviços.

O autor das duas placas, o mesmo, deve ter-se “esquecido” desse item para não ser mais incomodado. Afinal, a administração municipal, em ambos os casos, está dando mau exemplo: o que devia ser uma prestação de contas ao contribuinte sobre a aplicação do dinheiro dos impostos se transformou numa peça de propaganda, um outdoor disfarçado, poluindo visualmente as praças, enfeiando o gramado e manipulando o transeunte, mesmo que subliminarmente.

Mas ele, passando pelo largo da Sé e vendo a placa, altaneira como se a obra estivesse por começar, estranhará se já observar algumas rachaduras nas calçadas recentemente construídas e os primeiros remendos na praça, reformada para integrar um circuito cultural na Cidade Velha que se completará não se sabe quando. Talvez no segundo mandato do alcaide. Que essa talvez seja a finalidade de tantas placas obsoletas ou despropositadas que a prefeitura fincou na cidade, indiferente aos códigos municipais que deveria aplicar ou deles ser a guardiã.

(agosto 2000)

 

 Aterramento

Desde 1982, quando pequenas empresas foram contratadas por empreitada para fazer aterros nas baixadas, como forma de beneficiar o candidato ao governo do Estado apoiado pelo governo federal (no auge da cisão Jarbas Passarinho/Alacid Nunes), o aterro das áreas alagáveis de Belém não era um instrumento tão importante numa eleição quanto na disputa deste ano pela prefeitura da capital paraense.

Com a diferença de que agora os recursos não apenas são muito superiores a tudo o que já foi aplicado num período eleitoral, como o governo do Estado conseguiu incluir o aterro como um item do programa de macrodrenagem das baixadas, que tem financiamento internacional do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Ou seja: se não legalizou, ao menos institucionalizou o que antes era uma prática administrativa (ou política) lateral para efeito eleitoral. São 7,5 milhões de reais em aterro para beneficiar 75 mil pessoas.

Agora fica a dúvida: esse dinheiro todo que o governo gastará em aterros tem alguma coerência e consistência de programa ou de projeto? Não será um aterrar de quintais sem racionalidade, anarquicamente realizado pela população, remanejando problemas ao invés de resolvê-los? E, talvez, tendo ao fim o resultado de 1982: a derrota do candidato do aterro.

(setembro 2000)

 

Atenção

A casa rosa (ou rosada), uma das mais belas edificações da Belém colonial, na Cidade Velha, está pintada de nova, na cor original. Se é para marcar o necessário trabalho de recuperação do solar, que alguns atribuem a Antonio Landi, parabéns. Mas que não signifique vestir a rigor um candidato a defunto. Pintar por fora já é alguma coisa para uma construção que permaneceu até recentemente entregue à ação do tempo.

Melhora a aparência e combina com a pavimentação da rua Siqueira Mendes, a primeira aberta na cidade, feita pela prefeitura (primeiro – e até agora único – passo do circuito cultural prometido para a Cidade Velha). A grande ameaça, porém, está por dentro, nas infiltrações e nas fissuras nas paredes, que continuam as mesmas.

Atenção, portanto.

(Setembro 2000)

 

Vazio

Quem chega a Belém, é aporrinhado pela demora na retirada da bagagem, que fica num compartimento acanhado, e dá de cara com uma escada, sofre as consequências de uma obra inacabada. Com a segunda etapa, o aeroporto adquirirá sua configuração de projeto, eliminando os evidentes problemas atuais. Mas se os 16 mil metros quadrados de área construída já estão amplamente ociosos, como evitar a sensação de vazio quando a complementação acrescentar ao terminal outros 11 mil m2 (e mais 16 milhões de reais aos R$ 20 milhões já investidos)?

Belém necessitava desse aeroporto que está aí. Como está, ele já seria satisfatório, tanto para a demanda de hoje, quanto para a que se pode projetar para os próximos anos. Maior, exigiria medidas laterais para incrementar atração turística e a capacidade produtiva de Belém.

Nenhuma das duas necessidades foi suprida: há menos voos de chegada e de partida da capital paraense, há menos gente querendo vir até ela, há menos oferta de vagas para saídas e a carga aérea não cresceu. O aeroporto se restringiu a um bom contrato e a uma excelente vitrine. Instrumento de desenvolvimento, por enquanto, ele está muito longe de ser.

É o que dá quando o mais importante é a própria imagem e os ganhos da empreitada.

(setembro 2000)

 

Desperdício

Três lojas geminadas da João Alfredo, entre a Campos Sales e a Padre Eutíquio, no centro velho de Belém, foram poupadas dos monstrengos de alumínio que cobriam suas fachadas. Só essa operação de desmonte já permitiu recompor sua bela feição original, do início do século. Um ar de bom gosto passou a dar um descanso à visão dos transeuntes mais atentos, criando uma ilha de prazer naquela algaravia de cores e formas desconexas.

Todos os demais lojistas vizinhos deviam seguir esse exemplo. Mas ficar nele. O conteúdo dos prédios foi inteiramente descaracterizado. Restou uma carcaça oca, apenas paredes externas, que dão sustentação a estruturas metálicas de galpões. A recuperação, restrita à fachada, vai dar ao local a vida de um cenário de cinema, com o inconveniente de que ali a vida é para valer.

Não dá para fazer um trabalho mais sério de reconstituição dos prédios de valor histórico e arquitetônico da cidade? Já não está na hora de, na substituição do velho supostamente descartável pelo novo alegadamente funcional, respeitar o senso estético e a consciência histórica como critérios de decisão sobre o que fazer?

 Muitas vezes não está em causa nem mesmo uma economia de custo, mas um pouco de inteligência e bom senso. Substitui-se algo de maior valor por outro de valor inferior, frequentemente, por pura insensibilidade. E às vezes sai até mais caro.

Os responsáveis pela intervenção, como no caso das três lojas, desperdiçam uma rara oportunidade de receber um elogio sincero, desinteressado e gratuito.

(setembro 2000)

 

Rouquidão

Se é o centro do saber organizado e – em certa medida – desinteressado, a universidade (federal, de preferência) já deveria ter criado um grupo de trabalho (interdisciplinar e interinstitucional, agindo através de audiências públicas) para estudar a redivisão do Pará. Não como tema acadêmico, mas uma questão vital para os desorientados habitantes da segunda maior unidade federativa de um país cuja grandeza territorial é um fator de permanente perturbação da sua governabilidade.

Apesar do passionalismo que costuma provocar, esse é um tema maltratado, manipulado, desvirtuado, distorcido. Mas é um tema essencial na agenda do futuro do Estado. Merecia ser tratado com grandeza, inteligência, sensibilidade e coragem. Quando nada, para desfazer a abordagem maliciosa dos que, num e noutro sentido, usam a questão para dela tirar benefício. Ouvindo a voz das ruas e trazendo para o campus os interlocutores qualificados, a universidade faria ouvir a sua voz, tão necessária e tão ausente.

(setembro 2000)

 

 Cobrança

Depois que o prefeito Hélio Gueiros inaugurou, com foguetório e fanfarra, seis quadras de asfalto na rua Antônio Barreto, agora é a vez do prefeito Edmilson Rodrigues inaugurar um dos três andares do Palacete Bolonha. Não há dúvida sobre o mérito da iniciativa municipal, interrompendo o sono profundo das administrações anteriores em relação ao valioso prédio. É a propaganda eleitoral razão suficiente para essa pantomima, que compromete o tom de seriedade sem o qual a perenidade desse tipo de trabalho fica ameaçada?

A propósito: bem que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) podia informar quem fez a pintura e a (má) maquilagem da casa rosa (ou rosada), a mais valiosa das edificações coloniais, na primeira rua de Belém, a Siqueira Mendes. Já começo a achar que essa intervenção foi realizada com a intenção de aplacar os ânimos e desviar a cobrança de uma restauração para valer.

(outubro 2000)

 

Vanguarda municipal

Se, por acaso, a prefeitura levasse a sério a sugestão aqui feita, de criar uma empresa imobiliária municipal, o primeiro teste a que poderia submetê-la seria fazê-la participar de concorrência pública para a elaboração de um cadastro dos imóveis de valor histórico e arquitetônico da cidade e um plano de uso para esses bens da cidade. A empresa municipal participaria sem privilégios dessa licitação nacional, através da qual surgiria uma listagem completa e rica de informações sobre todas as construções com – vamos supor – mais de 50 anos, remontando aos prédios coloniais. Simultaneamente, a empresa vencedora faria um plano de ação que a prefeitura seguiria para conseguir manter e valorizar esses imóveis, integrando-os inteligentemente (e harmoniosamente também) à vida da cidade.

Qualquer pessoa habituada a caminhar por Belém descobrirá pérolas arquitetônicas e de grande valor para a memória da cidade perdidas em áreas às quais não se atribui maior significado, ou mesmo conjuntos que não são corretamente avaliados. Muitas vezes, nem seus proprietários ou moradores se dão conta do valor dos imóveis.

Temos uma tendência de chorar (lágrimas de crocodilo, para muitos) sobre as ruínas coloniais e o massacre do circuito do centro comercial velho, mas esquecemos do restante da cidade. Ela apresenta, ao observador mais atento, um caleidoscópio de estilos, a partir da segunda metade do século 19, que não pode ser desprezado, nem mantido sob uma incúria criminosa.

Mesmo nas áreas mais velhas, fora do quadrilátero das mangueiras, que tanto encanta os visitantes (às vésperas do baile da ilha fiscal), há verdadeiras preciosidades da arquitetura que vem desde o art-nouveau. O trabalho de consultoria, que poderia testar a empresa municipal, daria partida a uma nova política municipal para Belém, se na PMB ainda houver pessoas dotadas de non-chalance suficiente para ouvir os outros, mesmo que anatematizados bom belzebus. Ou, pelo menos, capazes de escapar à quadratura edmilsoniana do círculo.

(março 2001)

 

Reduto redivivo

Incluí no roteiro da última caminhada domingueira pela cidade a Companhia Athlética, uma combinação de centro esportivo, de ginástica e de lazer que está tendo sua construção concluída, no Reduto. Um amigo que cruzou comigo pelo local perguntou se era obra do governo. Respondi que não. Na inspiração da pergunta estava implícita uma crítica sutil ao governo e um elogio desbragado ao dono do empreendimento.

Depois da Estação das Docas (cujo custo, global e definitivo, superou 30 milhões de reais), o morador de Belém parece convencido de que só os cofres públicos são capazes de suportar uma obra que quadruplica seu valor original (sem contar o capital de terceiros), se aprimora na qualidade do material de construção e no acabamento e tem sofisticação incomum para os padrões do mercado local.

Se o construtor da Companhia Athlética fosse dar ouvido aos seus interlocutores, jamais erigiria a obra prestes a arrematar. Belém não estaria em condições de remunerar e sustentar uma obra com tal qualidade, visível para quem passa ao lado mesmo antes da inauguração, graças aos vidros panorâmicos que expõem à curiosidade pública o enorme salão de ginástica. Mas Miro Gomes encasquetou: ou faria uma obra de primeiro mundo, ou nada faria. Fez. E está de parabéns.

Mas já agora sua academia parece uma pérola incrustada na lama. A lama abstrata (e também concreta, a cada aguaceiro) deriva da ausência do governo. A Companhia Athlética está cercada por depósitos de contêineres e o acesso está bloqueado porque fecharam a rua da Paz, deixando as artérias circundantes esburacadas. Se é para mudar a zona portuária, não é suficiente investir (ainda que desbragadamente) apenas no cais. É preciso mudar a concepção de toda a área até agora classificada de retroporto. Ali já há escola, centro de atendimento médico, bares, restaurantes, boates. A única ausência é a do governo.

Como os particulares fizeram ou estão fazendo a sua parte, aplicando capital de risco e tendo uma presença pioneira, é a vez de o governo, na retaguarda que lhe cabe em tais situações, complementar os investimentos, planejar e ordenar o uso para que equipamentos e atividades se integrem no usufruto da cidade e espraiem os seus benefícios.

O velho e querido Reduto, maltratado nos últimos tempos, pode ressurgir no asfalto como a flor drummondiana.

(março 2001)

Ler 34 vezes
Mais nesta categoria: « Belém (9) Belém (11) »

Comments fornecido por CComment