Segunda, 25 Junho 2018 17:29

Belém (11)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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FLANANDO POR BELÉM

 

Boulevard

Agora que o Reduto está sendo valorizado pelos investimentos privados, a prefeitura podia aproveitar a reabertura da rua de Belém (e não da Paz) para a reurbanização completa da área que vem sendo usada como retroporto. Já que o governo do Estado pretende manter seu polêmico projeto de usar a Alça Viária para acelerar a transferência do porto de Belém para Vila do Conde, no vácuo desse remanejamento entraria a administração municipal para transformar a área num verdadeiro boulevard, o único que subsiste da tentativa de transplante da fisionomia parisiense para o trópico amazônico.

A tarefa consistiria em restaurar e salvar os belos casarões que permanecem heroicamente na Castilhos França, recuperar a sua praça e eliminar todos os depósitos de contêineres que se aquartelaram entre a praça Waldemar Henrique (ex-Kennedy) e a Doca de Souza Franco, ajardinando e arborizando todo o perímetro, para integrá-lo ao conjunto (ainda que um tanto disforme) já existente, formado pela Estação das Docas, as duas praças beira-rio da prefeitura e as novas instalações criadas pelos investidores privados no Reduto.

Olhando do alto essa paisagem, gostei do resultado do exercício de imaginação, que mudaria completamente a feição atual desse trecho da cidade, recompondo o que fora Belém quando era a porta de entrada da Amazônia. Sem precisar gastar rios de dinheiro. Apenas usando a criatividade, a energia e a força da vontade de querer fazer.

(abril 2001)

 

Urbe doente

Terminou com um final adequado a novela do “buraco da Palmeira”: a prefeitura arrematou a área por 1,9 milhão de reais, quase R$ 3 milhões abaixo da avaliação oficial (tendo em contrapartida, porém, o enorme IPTU ainda a pagar). Mas outra novela de gosto duvidoso está para começar: o destino a ser dado à valiosa área, encravada no centro da cidade.

A PMB se tornou dona do terreno sabendo o que fazer nele: um centro comercial combinando lojas-âncoras e pequenos estabelecimentos de ambulantes, tendo uma garagem no subsolo. Convinha ao governo municipal, porém, submeter seu projeto à discussão pública antes de pôr em prática suas intenções.

O “buraco da Palmeira” somar-se-á ao prédio da Lobrás, que a prefeitura pensa em desapropriar, e à antiga Usina Progresso, no circuito de camelódromos fechados. É uma política temerária. As novas unidades custarão, ao final, vários milhões de reais imobilizados, de retorno problemático. Se melhorarem situações individuais, dificilmente modificarão um problema global. E atrelarão o poder público a uma anomalia, sancionada como se fosse uma normalidade.

O camelô é um subproduto do desemprego. Quando a relação de trabalho estável guardava alguma proporção com o crescimento da população em idade economicamente ativa, o camelô era reprimido, circunscrito ou atraído para a formalidade. Hoje, se transformou numa opção de vida. Opção, aliás, não exatamente: a rigor, num atestado da falta de opção.

Se a estrutura econômica fosse mais saudável, o trabalho temporário, o bico e a venda ambulante estariam numa faixa residual do mercado, sempre sazonal e precária. A prefeitura petista está consumando a institucionalização dessa doença social, que cresce há várias administrações.

O problema existe, é grave e se expande. Não pode ser colocado para baixo do tapete institucional, cada vez mais curto e roto. Mas tem que ser enfrentado como um fato social a ser eliminado e não consolidado. Não com polícia, mas com políticas públicas. Até que elas sejam adotadas ou gerem efeitos, no entanto, é preciso manter em vigor as posturas municipais, sem o que isto aqui derivará de vez para a selvageria coletiva.

Continuo defendendo a utilização do “buraco da Palmeira” como um respiradouro urbano. Nada de construção e intensificação do uso comercial na área. Uma praça aberta, mas aproveitando o caro gradil ali já construído, na época do talentoso estaleiro. Atividades de lazer para o cidadão e as crianças confinadas no centro velho da cidade. Interligação visual entre as igrejas de Santana e do Rosário. Uma bandeira e um símbolo da restauração da dignidade desse umbigo urbano de nós todos. Não merecemos?

(abril 2001)

 

Lixo

No mesmo dia 9, em que regulamentou a lei sobre o serviço particular de recolhimento de entulho na cidade, cuja maior característica é punir com multa pesada quem joga esse tipo de lixo na rua, a prefeitura patrocinou o “Mutirão Viva Belém”. Teoricamente, para tornar a cidade mais limpa. Na prática, dourando a pílula para as prestadoras do serviço, adotando uma sutil coerção social para que o novo negócio venha a dar certo, abrindo alas para o novo bloco.

Vamos admitir que seja correto o poder público se desobrigar do recolhimento desse material, transferindo-o para a iniciativa privada. Mas será que está mesmo criando condições capazes de impedir que essa privatização encarnada não venha ter o mesmo destino das vendas tucanas, que resultaram em custos crescentes (às vezes extorsivos) e qualidade inferior na maioria dos serviços que saíram da órbita estatal? Será que os novos empresários da área merecem tal deferência?

Mas se é para limpar a cidade dos “equipamentos que poluam a paisagem”, como “placas, faixas, cartazes e outdoors”, a prefeitura podia começar dando o exemplo. Mandando retirar das praças e outros logradouros públicos placas suas que já perderam a finalidade (se tiveram alguma de valor informativo para a população) e são mantidas por meses ou mesmo anos como propaganda ilegal da atual administração.

Esta é uma daquelas “atitudes que violam o Código de Postura do Município”, relatadas no folheto da campanha da prefeitura, como se apenas os cidadãos tivessem tais atitudes. No final, é ele quem paga a conta, tendo ou não boa educação.

(Abril 2001)

 

Compensação

Felizmente, o grupo Y. Yamada já tem um bom padrão de qualidade. Todas as lojas que inaugurou nos últimos anos são vistosas. Todas, exceto a maior e mais antiga, no centro velho da cidade. Símbolo de uma era que a empresa parece realmente empenhada em deixar para trás, ainda continua incomodando, principalmente quando vista no conjunto da rede.

Não há muito o que fazer diante das sucessivas improvisações e adaptações que foram engolindo os prédios vizinhos, quase ocupando todo um quarteirão a partir da rua Manuel Barata, numa cacofonia arquitetônica. Mas os Yamada bem que podiam oferecer compensações à população.

Num dos extremos do quarteirão eles estão negociando com a família Pires Franco a bela casa que foi residência de Victor. Ao que parece, o prédio foi construído na década de 20 por um alemão, num estilo bem europeu. É enorme e única na paisagem belenense. Bem recuperada, podia ter um uso nobre. Uma loja sofisticada de móveis, por exemplo.

Do outro lado, a Y. Yamada podia tratar da restauração do conjunto Pombo, a partir da maravilhosa capela e seu precioso pátio interno. Tudo, ali, é desfiguração ou destruição. Mas é um dos poucos conjuntos arquitetônicos que ainda pode ser salvo no centro, uma pérola em extinção. A empresa podia transformar a área num conjunto de galeria de arte, livraria, café e restaurante. Daria vida nova a toda a área, ajudando a engolir o pato feio que é a sede.

Fica a sugestão do crítico – chato, talvez, mas construtivo.

 

Monólogo

O governo do Estado comete uma temeridade ao fazer ouvidos de mercador às ponderações que o presidente da Praticagem da Barra do Pará, Miguel Salgado, tem feito sobre as consequências negativas da ponte sobre o rio Guamá, a principal obra de arte da Alça Viária, representando metade do investimento total previsto, de 180 milhões de reais. Ele diz que a altura máxima de projeto da ponte, de 23 metros, acarretará restrições à navegação. O mínimo desejável seria de 36 metros, diz Salgado, ressaltando que esse limite ainda está abaixo do ideal.

A ser correta essa observação (antecipada aqui, na edição da 2ª quinzena de fevereiro), a administração Almir Gabriel continuará andando na contramão em matéria de transporte: induzindo o rodoviarismo. E pior ainda em matéria de opinião pública: apostando na força dos fatos consumados, sem diálogo a sério.

(maio 2001)

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